Cultura do estupro e indulto ao cafajeste
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Cultura do estupro e indulto ao cafajeste

Por que feministas de esquerda não aceitam que homem mais velho despose jovem bonita e endeusam cafajestes de sua grei?

José Nêumanne

30 de maio de 2016 | 19h15

LBBT é contra velho casar-se com moça?

LBBT é contra velho casar-se com moça?

A 20ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo fez, mais uma vez, grande sucesso. Seus organizadores falam em 3 milhões de pessoas na Avenida Paulista e na Rua da Consolação no domingo 29 de maio, e a Polícia Militar (PM) reduz os participantes a 190 mil. A diferença pode indicar que talvez tenha havido mais orgulho do que lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros no desfile anual, que definitivamente se inscreve no calendário turístico da cidade. Ou, então, a PM, mormente agora, sob a égide tucana de um adepto da Opus Dei, instituição católica tida como de inspiração fascista, o tucano Geraldo Alckmin, se empenhe em diminuir a cor, o brilho, a animação e o fulgor da festa.

Para não perder tempo discutindo a primícia do nascimento do ovo e da galinha, urge que o assunto seja abordado de frente e, se possível, sem preconceito. Este ano, o festival teve dois temas a execrar. O primeiro deles é o afastamento de Dilma Rousseff da Presidência da República e sua consequente substituição pelo vice Michel Temer, no cargo até o Senado da República decidir definitivamente se ela cometeu crime de responsabilidade e será definitivamente impedida. Ou se esse delito não foi cometido, ela não for inculpada e ele, então, volte para a insignificância de sua expectativa de poder, sem poder algum. Ou seja, no papel de vice decorativo que ele lastimou desempenhar nos cinco anos, quatro meses e 12 dias em que duraram tanto desamor e tanta desatenção. Isso, claro, se, acusado de subchefe do golpe (o chefe, segundo ela, teria sido o presidente também afastado da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, do PMDB, ao qual Temer pertence), não for definitivamente afastado do poder, da glória e da companhia da poderosa.

O fato é mais uma constatação de que as pessoas que foram às ruas exigir a saída de Dilma não aprovam necessariamente a Constituição de 1988, que dá ao vice, eleito com ela, o direito adquirido – e garantido pelo artigo 5º da Constituição – de ficar no lugar quando ela se ausenta. E, em caso de afastamento definitivo, definitivamente. De 12 de maio até agora só se registraram manifestações contra o vice e a favor da titular da chapa eleita em 2014. Se há alguém a favor de Temer no Brasil, ainda não se dispôs a ir à rua defendê-lo. Idêntica impopularidade deve ser gozada pela ordem constitucional vigente, que não propõe que ele seja apeado do poder por impopularidade, item no qual ela ainda é campeã. Mas é tal o caos no Brasil que ninguém pode reivindicar lógica nem ordem no caos deste país.

Outra manifestação com a mesma reivindicação é a dos operadores da cultura, sejam lá eles o que forem, que se revoltaram contra a transformação do Ministério da Cultura em Secretaria pelo mesmo Temer que eles, como os manifestantes da Parada, consideram usurpador do poder da dama eleita. A Secretaria voltou a ser Ministério como dantes, mas os manifestantes não arredam pé, talvez inspirados pelos participantes da Parada Gay, embora não o explicitem. O ministro Marcelo Calero, talvez cônscio de que só está no posto e tem o status por obra e força da exigência de tais manifestantes, já garantiu que não exigirá reintegração da posse de 25 prédios sob sua jurisdição. Isso significa que, se Temer sair do poder, eles podem ficar até outro presidente ser instalado na cadeira e, então, poderão decidir se o eleito deve ficar ou não. Neste caso, pela lógica, se convocaria nova eleição presidencial, e, se possível, eleições gerais até que seja escolhido alguém que esteja à altura do cargo, do poder e da glória, na concepção dos brasileiros que se consideram donos da Cultura nacional e, portanto, da Nação inteira.

Mas nem só de cultura vive o ser humano. Lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros também têm culturas a execrar. Michel Miguel Elias Temer Lulia não é o único Barrabás a ser imolado numa cruz na Paulista. A cultura do estupro também é uma vilã, uma Geni a apedrejar. A Parada LGBT não podia perder a oportunidade de entrar na onda da condenação aos 33 canalhas acusados de estuprar uma adolescente na Comunidade de São José Operário no Morro do Barão, Jacarepaguá, Rio de Janeiro, à mesma época em que houve a troca de comando no Palácio do Planalto Central do País.

Trata-se, é claro, se comprovado, de um crime bárbaro por qualquer ângulo a abordar. Um bando de 33 marmanjos forçar uma menina de 16 anos a fazer sexo grupal com eles é um caso abjeto e absurdo e teve agravantes. Trata-se de uma manifestação da violência característica do Brasil colonial, monarquista ou republicano. A isso se acrescentam ingredientes tais como a importação da tradição indiana do estupro coletivo e da prática pós-cibernética da desmoralização e da humilhação da vítima pela exposição em redes ditas sociais (imagine se não fossem) com ataques de humor de um calão tão baixo que nem merece a definição de pré-sal, pré-histórico ou pré-racional. Nenhum dinossauro seria capaz dessa desfeita.

Chamam-me atenção as bandeiras desfraldadas, uma ao lado da outra. Recentemente, Marcela Temer, a primeira dama provisória, foi execrada e achincalhada por ter sido chamada por um redator da revista semanal Veja de “bela, recatada e do lar”. Lembrei-me da ária final da ópera Manon Lescaut, “sola, perduta, abandonata” (só, perdida, abandonada). Li, em comentário numa rede social (sempre as redes sociais), que ter uma mulher assim (pior ainda, ser muito mais velho do que ela) e não ter nomeado nenhum ser humano do gênero feminino para o ministério fazem de Temer um machista inveterado. Talvez constatações deste teor possam justificar a cultura do machismo e o presidente provisório terem sido xingados na Parada LGBT. Merecerá ele ser misturado com a abjeta  impune agressão contra a adolescente pobre na periferia carioca?

Muita gente condenou nas redes sociais os meliantes. Mas também houve quem preferisse acusar a vítima. O que ela fazia àquela hora naquela favela? Por que vestia roupas provocantes? Ela nunca teria participado de uma sessão de sexo grupal? O estado democrático de direito dirime todas as dúvidas. A adolescente exercia seu direito de ir e vir, consumidores de drogas são doentes, não suspeitos ou delinquentes, e a lei não inclui o uso de saias curtas ou decotes provocantes entre as violações de decoro passíveis de punição.

Aliás, nítido é o contraste entre Temer e um colega de ofício dele. Os dois foram aliados e agora são adversários figadais, se é que existe isso em política. Esse conhecido de todos nós contou num churrasco do qual um marqueteiro americano foi o convidado de honra que tinha tentado estuprar um rapaz do Movimento da Emancipação Proletária (MEP) com quem compartilhou a cama na carceragem do DOPS paulista no século passado.

Esse mesmo prócer, ao reclamar da brutalidade da Polícia Federal que o conduziu na marra para depor, comentou por telefone com um ministro do governo de seu partido que uma subordinada dele, ao perceber a entrada dos policiais que investigavam crimes de que é acusado, imaginou que a visita poderia ser um presente de Deus. A senhora, que combateu a ditadura militar com armas na mão, não é bonita, entende?

A deputada federal petista Maria do Rosário, definida pelo mesmo cavalheiro como “mulher de grelo duro”, defendeu o referido senhor, que foi seu chefe, alegando que a expressão grosseira que ele usou a respeito dela teria uso banal no Nordeste para definir uma mulher que não leva desaforo pra casa. Mais velho que a parlamentar feminista, nasci no sertão nordestino há 65 anos e, ao longo de todo esse tempo, nunca ouvi alguém elogiar a coragem de uma mulher referindo-se a seu órgão mais íntimo de forma tão desrespeitosa. Talvez ela tenha visitado alguma região remota à qual nunca fui, sertão da Sibéria, por exemplo.

Sertanejo e apreciador do gênero feminino, não entendi por que o respeitoso marido de uma jovem, “bela, recatada e do lar”, é crucificado na mesma manifestação em que são amaldiçoados com justiça incultos estupradores. E Luiz Inácio Lula da Silva, personagem dos episódios acima narrados, é considerado um semideus por célebres artistas, ilustres acadêmicos, lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros de esquerda, mesmo sendo capaz de protagonizar cafajestices explícitas e nunca negadas, como estas que acabo de contar.

Jornalista, poeta e escritor