Corrupção no desgoverno Bolsonaro vem da ditadura

Arena, a serviço dos militares, protagonizou escândalos, sob Maluf virou PP, que, com Janene, tornou furto sistêmico sob PT, e, vulgo Centrão, ocupa Casa Civil na gestão atual

José Nêumanne

09 de agosto de 2021 | 17h19

O deputado Paulo Maluf durante a convenção da Arena, São Paulo, SP, 4m 04/6/1978, quando derrotou o candidato do general Figueiredo, Laudo Natel ao governo do Estado. Foto: Acervo/ Estadão

Na gestão dita republicana dos negócios pretensamente públicos de Pindorama, prevalece um princípio da química do velho Lavoisier, que pontificava: “na natureza nada se cria e nada se perde, tudo se transforma”. É a conclusão a que chega quem vê a série Nêumanne Entrevista, do Blog do Nêumanne, no portal do Estadão desta semana. Com a autoridade de professor da Escola de Direito do Largo de São Francisco, ex-ministro da Justiça e coautor do processo de impeachment de Dilma Rousseff, o jurista Miguel Reale Júnior chama a atenção para o pedigree de corrupção que orna as cabeças coroadas do poderoso Centrão no desgoverno Bolsonaro.

O terrorista que planejou ataques a bombas em quartéis do Exército e na adutora do Rio Guandu, quando era capitão da Artilharia (“minha modalidade é matar”, disse ele), para reivindicar aumento de soldo, faz-se passar por restaurador da velha ordem dos tempos em que os presidentes saíam dos almanaques da Força. Na verdade, uma leitura mais acurada dos jornais da época dará conta de que já então era golpista e ameaçava o Nova República, na tentativa de evitar a abertura democrática, ainda que lenta e gradual. Não teria idade para ser ajudante de ordens do ministro do Exército, general Sylvio Frota, que comandava os sediciosos, caso de seu atual araponga-em-chefe, Augusto Heleno. Mas sua ação não passou despercebida do penúltimo presidente do ciclo da força, Ernesto Geisel, que, em entrevista publicada em livro a cientistas sociais da Fundação Getúlio Vargas, o chamou de “mau militar”.

Deputado federal por sete (no caso aqui, por mero acaso, a conta do mentiroso) mandatos, tendo sido escolhido em cinco deles pelo sufrágio registrado em urnas eletrônicas, como acaba de lembrar seu cupincha Artur Lira, fez-se passar por apolítico e ardoroso defensor da impressão do voto. Esta, contudo, não foi a única de suas mentiras pregadas numa campanha eleitoral em que prevaleceu a falácia, sua companheira mais fiel ao longo da vida inteira. Talvez não tenha sido a mais desonrada promessa de muitas, caso da que dedicaria o mandato que conquistasse a reforçar o combate à corrupção. Afinal, o pedigree do “cavalão” das Agulhas Negras sempre teve a origem antiga e longeva no furto descarado do erário. A implacável lembrança do professor Reale vem em socorro de historiadores que ainda não tiveram a precisão de apontar para essa origem da chamada mão grande em seu currículo de homem público, de farda ou de terno. Aquilo que os pedantes de plantão chamariam de malversação das verbas arrancadas do sangue, suor e lágrimas dos pagadores de impostos: a origem suja do Centrão, a Arena de Maluf, depois PP de Janene, Nogueira e Lira.

A ditadura militar não inventou a corrupção, é claro. Mas também dela não se isentava. Mas, como nos canteiros de empreiteiras corrupteiras para a construção da Novacap de Juscelino, era dispersa. Falava-se muito de Paulo Maluf, que foi prefeito de São Paulo por escolha dos generais do Alto Comando, mas isso não impediu que ele seguisse carreira de executivo no topo de mandatos públicos municipais e estaduais. E só foi impedido de subir à Presidência da República, na eleição indireta pelo colégio eleitoral, pelas dimensões de sua má fama. Que impediu sua vitória sobre Tancredo Neves, do MDB, mercê de aliança com dissidentes da Arena, reunidos do PFL, que terminaria virando DEM.

Foi então que veio a democracia, foi promulgada a Constituição de 1988 e nos seis mandatos seguintes, de PSDB, PT e MDB, um remanescente da velha Arena, denominada com suprema ironia de “Partido Progressistas” (termo futurista que era usado pelos inimigos da esquerda), manteve o velho timoneiro Maluf no mínimo como ícone. O deputado paranaense José Janene não sobreviveu para usufruir as próprias obras: o que se cognominou “mensalão” e configurou o Centrão. Para derrotar o petista Fernando Haddad, o revoltado pelo baixo soldo apelou para nova política, anticorrupção e combate à esquerda. Mas não foi capaz de apagar as próprias digitais dos tempos em que militou nas hostes malufistas, hoje sob o comando de um ex-adorador de Lula, Ciro Nogueira, um zé-ninguém das sobras de um Centrão que já teve expoentes como Eduardo Cunha, que expulsou Dilma e o PT do poder. E hoje se contenta com uma sombra menor, Arthur Lira, cuja biografia, incluída a penal, dá a ideia da mediocridade de um oficial proibido de chegar a major pelas exigências intelectuais do comandante da Força Armada, à época em que ele seguia os passos de Carlos, o Chacal, e Hugo Chávez, um coronel subcastrista.

O malogrado demolidor de casernas e aqueduto buscou abrigo em trincheiras guardadas por golpistas de escassas ética, cuca e honra, caso do comandante brasileiro que a ONU pediu para retirar do Haiti, Augusto Heleno, do torturador e assassino Brilhante Ustra e do explorador de garimpeiros Sebastião Curió. O chefe de família acusada de extorquir servidores de seus gabinetes na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro agora sobrevive no mais alto cargo de uma República que não se envergonha da mais alta desonra. E com a garantia de que 205 deputados federais, sob a batuta de um subcaranguejo, impedirão que o perca, para evitar que seu aliado, o novo coroné vírus, ultrapasse a cifra do milhão de vítimas da pandemia cruel.

Com o pedigree de Maluf, Janene, Ciro, Lira e, last but never least, Ricardo Barros, Bolsonaro está à altura do cargo que tem mérito para ocupar: o servidor supremo do Centrão do PP, ex-Arena, confessou, num sincericídio que o levará à morte política, ainda que seus sequazes o mantenham na função de desanimador de live geral desta Nação assassinada.

*Jornalista, poeta e escritor

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