Conversa clara e trato justo com Deonísio da Silva
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Conversa clara e trato justo com Deonísio da Silva

Professor, escritor e colunista sobre origem das palavras na revista Caras, Deonísio celebra invasão dos currais e libertação de eleitores de votos de cabresto

José Nêumanne

08 Novembro 2018 | 17h37

Deonísio: “a prosa política, em seu sentido mais sólido, a participação nos destinos da pólis, está na ordem do dia e vai reordenar o Brasil”. Foto: Acervo pessoal

O escritor catarinense Deonísio da Silva, ganhador do prêmio Casa das Américas com o romance Avante, Soldados: Para Trás, comemora a eleição na qual “o Brasil enfim se politizou por meio de um recurso inesperado, o recurso digital. Ninguém o previu com as vestes democráticas com que irrompeu este novo recurso, que tornou possível invadir os currais e libertar aqueles que votavam pelo cabresto”. Para ele, isso era necessário e urgente, porque “nossa elite política perdeu a visão de nação, seus representantes pensam apenas em si mesmos e formaram dinastias familiares para os saques ao erário”. Deonísio diz, brincando, que depende das autoridades educacionais um câmpus universitário não se tornar “câmpus de concentração” e, na edição desta semana da série Nêumanne entrevista no blog, constata: “O Brasil se mediocriza sem parar”. E dispara um petardo contra a primazia da ideologia de gênero no lugar da seleção pela excelência dos candidatos ao ensino superior. “Os autores de certas perguntas no Enem incorrem num equívoco de raiz: querem enganar os trouxas com artimanhas pueris. Citam Guimarães Rosa e Graciliano Ramos para poder enfiar excertos de obras e de autores fora da casinha. Os alunos nem foram ensinados a consultar um dicionário, mas são obrigados a conhecer certos verbetes de Aurélia, a Dicionária da Língua Afiada, de expressões gueis. Os culpados não são os autores desse curioso minidicionário. São aqueles que usam o  Estado – isto é, o dinheiro dos impostos: quanto custa cada Enem? – para impor a indefesos um conteúdo confuso, um norte desbussolado. Assim, prejudicam a todos, incluindo as autoridades às quais servem e pelas quais foram designadas”.

O catarinense Deonísio da Silva é professor federal aposentado  e professor titular visitante da Universidade Estácio de Sá, onde atualmente dirige o Instituto da Palavra. Integrante da bancada brasileira na Academia das Ciências de Lisboa e respeitado escritor, por sua independência intelectual, é doutor em Letras pela USP e mestre em Letras pela UFRGS, mas não destaca esses títulos, e sim o que aprendeu no ensino médio em colégios de padres. “Obter um doutorado na USP não é para quem quer, é para quem pode, mas passar num exame de Latim do cônego Germano Peters ou confessar-se com o padre espiritual, investigando a própria alma, ou uma vez ao ano com o bispo diocesano dom Anselmo Pietrulla, era só para quem fosse antes orientado por Wilson Volpato e evitasse os escrúpulos”, diz ele, em sua habitual prosa bem humorada, um pouco antes de responder às perguntas que seguem, lembrando um de seus melhores amigos daqueles verdes anos, hoje setentão como ele. Deonísio é autor de 35 livros, entre os quais romances como Goethe e Barrabás, Lotte e Zweig (sobre o famoso suicídio tratado por ele como duplo assassinato, já publicado na Itália, com capa da artista plástica Arlinda Volpato), Teresa DÁvila (premiado pela Biblioteca Nacional e a ser levado ao teatro pela segunda vez por Carlos Vereza) e A Cidade dos Padres. Mas a referência solar de seus romances é Avante, Soldados: Para Trás (1992), no Brasil em 10.ª edição, já publicado em Cuba, Itália e Portugal, depois de receber o Prêmio Internacional Casa de las Américas, em júri integrado por José Saramago. Na mídia, faz um trabalho muito relevante em Etimologia, tal como se vê no livro De Onde Vêm as Palavras, reunião de suas colunas nas revistas Caras. Mantém colunas semanais também no http://portal.estacio.br/instituto-da-palavra, na Veja online, no blog de Augusto Nunes e na Rádio Bandnews Rio., com Ricardo Boechat.

A seguir, Nêumanne entrevista Deonísio da Silva

Deonísio integra bancada brasileira na Academia de Ciências de Lisboa e dirige o Instituto da Palavra da Universidade Estácio de Sá. Foto: Acervo pessoal

Nêumanne – Em abril, o senhor fez uma palestra sobre o julgamento de Zé Bebelo num seminário a respeito de Guimarães Rosa e Machado de Assis, abrindo o ano cultural da Academia Brasileira de Letras. O que o fez escrever que, neste ano em que se comemoram o cinquentenário do lançamento da obra-prima Grande Sertão: Veredas, do primeiro, e os 80 anos da primeira edição de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, os organizadores do Enem os tenham citado “por esperteza: para justificar a presença dos dispensáveis e até dos que escrevem mal” ou originalmente em outra língua, como Eduardo Galeano, que, convenhamos, não é um grande autor nem no restrito panorama da literatura uruguaia, como escreveu no Facebook?

Deonísio – Você me permite uma longa resposta? (José Nêumanne Pinto: fale quanto quiser, eu também sei que algumas coisas muito importantes não podem ser ditas em poucas palavras.) Pois é, às vezes tenho vontade de postar inteirinho no Facebook o Sermão do Bom Ladrão, do padre Vieira, especialmente para aqueles que, elevados a reis, acompanham ao cárcere os bandidos com os quais negociaram. Quando assumi a Vice-Reitoria da Universidade Estácio de Sá, no Rio, onde estou desde que me tornei professor federal aposentado, em 2003, disse na primeira reunião com a equipe que meu binômio era: conversa clara e trato justo. Abri a palestra proferida na Casa de Machado de Assis com este lema, citando a seguir, obviamente, belos trechos de Guimarães Rosa, como esta fala de Zé Bebelo, ao ser advertido por Joca Ramiro de que está em julgamento: “Toda hora eu estou em julgamento”. Você falou lá também, assim como outros romancistas, como José Carlos Gentili – aliás, autor de um premiado livro em que rastreia nas Ordenações Afonsinas o primeiro hífen da língua portuguesa – e Benito Barreto, autor de grandiosos romances sobre a Inconfidência Mineira. No final de minha palestra, o Merval Pereira veio me cumprimentar e disse: “Tomara que o Lula não conduza o julgamento como o Zé Bebelo”, E rimos juntos. Você deve lembrar-se de que, réu, Zé Bebelo conduz o próprio julgamento. Lula tentou fazer o mesmo, mas encontrou pela frente não um homem misericordioso como Joca Ramiro, e sim um juiz implacável como Sergio Moro, que deve seguir o lema latino tão em voga em São Paulo “non ducor duco” (conduzo, não sou conduzido). Hoje, já realizado o julgamento, continuo achando Lula parecido com o personagem de Rosa, que também diz dele: “Zé-Bebelo quis ser político, mas teve e não teve sorte: raposa que demorou”. Já de Graciliano Ramos, considero que seu grande romance não é Vidas Secas, é São Bernardo. Quem cita muito Vidas Secas em geral não leu outros. No Brasil existe o costume de citar sem ler. Você pode ver que os erros de citações são sempre os mesmos ou muito semelhantes. Não me refiro apenas ao ipsis litteris, mas a citações confusas no contexto e sem pés nem cabeça, como álibi para a enxurrada de textos desconexos e fora de lugar e de propósito, como fez o Enem. No caso do trabalho intelectual, entendo que nossa arma é a dos saberes de nosso ofício. É falsa a humildade de igualar-se àqueles que fizeram outra coisa na vida ou tratar igual quem é desigual na profissão: se meus pares em Letras são esses que pontificam sobre tudo, especialmente nas redes sociais, eu estou perdendo o meu tempo há 50 anos, pois estudo, pesquiso e ensino português e suas literaturas há meio século. Se romances de minha autoria como Avante, Soldados: Para Trás, Teresa D’Ávila e Goethe e Barrabás estão no mesmo nível dos livros daqueles autores que não representam de jeito nenhum a nossa literatura, mas estão sempre nas bibliografias oficiais ou oficialescas, nas feiras de livros e em outras delegações, eu estarei contrariando minha sábia avó, que dizia que quem muito se abaixa mostra o bumbum. É justo você ter orgulho dos pontos altos de sua carreira, assim como é saudável assumir seu madalenismo e arrepender-se das más escolhas que você fez na vida.  Isso talvez possa explicar a exagerada admiração dos autores da prova do Enem pelo autor uruguaio. É coisa de quem olha a literatura do mundo inteiro por uma pequena fresta. Mas esta pequena restrição não pode ser creditada a Eduardo Galeano, que, aliás, deve muito ao exílio vivido na Espanha, de onde seu nome foi divulgado mundo afora. A censura, ato execrável, predatório e inútil, às vezes consagra medíocres, no sentido etimológico de palavra, isto é, de qualidade abaixo da média, que é o caso do best-seller em causa. Ele vende menos pela relevância de sua obra e mais por agradar a nichos eficientes de produção de leitores em determinada direção ideológica. Esses nichos têm pontífices que conhecem poucos autores de qualidade e são incapazes de reconhecer talento em escritores dos quais discordem. Por isso se tornam medíocres também, formam medíocres, etc. Em suma, o Brasil se mediocriza sem parar.

Para ouvir Sem Papas na Língua, com Boechat e Deonísio, clique aqui

N – O que no referido exame o levou a escrever, no mesmo post, que “quem fez as perguntas do Enem na área de letras precisa reciclar-se” e, mais, “quem desconhece o dialeto secreto de gueis e travestis não pode entrar na universidade?”

D – Não sei quem faz os exames do Enem. Entro em brigas de foice no escuro em defesa da independência intelectual e docente desde que saiba onde estão o interruptor e a porta de saída, como um dia ouvi do escritor Marcos Rey. Mas os autores de certas perguntas no Enem incorrem num equívoco de raiz: querem enganar os trouxas com artimanhas pueris. Citam Guimarães Rosa e Graciliano Ramos para enfiar excertos de obras e de autores que estão fora da casinha. E há mais o seguinte: os alunos nem foram ensinados a consultar um dicionário, mas são obrigados a conhecer certos verbetes de Aurélia, a Dicionária da Língua Afiada, de expressões gueis. Os culpados não são os autores desse curioso minidicionário. São aqueles que usam o Estado – isto é, o dinheiro dos impostos: quanto custa cada Enem? – para impor a indefesos um conteúdo confuso, um norte desbussolado. Assim, prejudicam a todos, incluindo as autoridades às quais servem e pelas quais foram designadas. Seus asseclas passaram a defender a pergunta, e não apenas nas redes sociais, mas em todos os lugares onde pontificam, não para esclarecer, mas para dar como correta uma pergunta fora de propósito. Há reprovação em massa nas redações do Enem. Quer dizer, o ensino médio não ensinou os alunos sequer a escrever um texto curto. Aliás, nem a ler direito, pois a maioria tropeça no léxico e na interpretação. Mas ensinou-lhes dialeto, uma questão controversa até nos estudos avançados sobre línguas? Isto é conversa mole para boi da cara preta cochilar e assustar quem tem medo de careta. E de resto ainda não é obrigatório conhecer as palavras-chave do mundo guei para entrar para a universidade. Na universidade, um dos requisitos é dominar um conjunto de saberes que permitam ao usuário acompanhar um curso superior. Nas universidades francesas, o francês; nas italianas, o italiano. Etc. Quais são as gírias do mundo guei nessas línguas? É preciso conhecê-las para estudar lá? Para maior clareza, imaginemos o seguinte: e se o curso fosse ministrado numa língua estrangeira? Pois o português está se tornando isso para nossos alunos escreventes e legentes, uma língua estrangeira. E, em alguns casos, morta. Outro dia lamentei em congresso onde fiz pequena intervenção o desaparecimento acelerado, não mais paulatino, do mais-que-perfeito. Na saída, um professor me disse: “Não quis dizer em público para não ofender o senhor, mas o mais-que-perfeito não é mais necessário”. Veja você, já se considera ofensa a simples discordância.  Repliquei na hora: é mesmo? E como faremos com os versos de Camões “mais servira se não fora para tão longo amor tão curta a vida” e “na quarta parte nova os campos ara e se mais mundo houvera lá chegara”? Tome um prova de Português, qualquer prova: você vê trechos de autores clássicos, tais como Castro Alves, Cecília Meireles, Machado ou José Lins do Rego, servindo de base a uma questão? Predominam recortes da mídia, em geral pobres de estilo e, sobretudo, indicadores de que quem os selecionou só leu aquilo ali, mesmo, aquele é o nível dos examinadores, não apenas dos examinandos.

Deonísio, catarinense, e a mulher, a gaúcha Michele, nos jardins da Embaixada Brasileira em Lisboa, para onde viajam frequentemente. Foto: Acervo pessoal

N – Quem lhe faz estas perguntas teve uma formação no ensino médio em escola religiosa e num colégio público e testemunha que, há meio século, as escolas desse grau de ensino eram muito melhores do que as de elite, frequentadas pelos filhos, na faixa dos 40 anos, e ainda mais dos netos agora. Até que ponto o senhor, que é da geração que estudou latim, grego e, sobretudo, o português canônico, abandonado pela linha populista de esquerda do “povo é que manda na língua”, abona esta constatação?

D – Minha formação básica se deu nos bons tempos da escola pública e em seminários de padres. Depois do primário, onde pontificavam as célebres e bem preparadas professoras normalistas, meus mestres foram padres. Meus professores da graduação em Letras na Unijuí também eram ex-padres ou ex-seminaristas em sua maioria. Sou doutor em Letras pela USP e mestre em Letras pela UFRGS.  Chutatis chutandis, essas prestigiosas instituições, em algumas disciplinas, nem sempre alcançavam os saberes ministrados em seminários e em outros colégios mantidos pela Igreja, por ordens religiosas ou por igrejas confessionais,  ou em escolas como o Colégio Pedro II, no Rio; o Júlio de Castilhos, em Porto Alegre; ou o Colégio Estadual de Curitiba. E poucos mais.  Quer dizer, tivemos uma qualidade de ensino reservada aos filhos da elite e duramente conquistada por nós, depois de “honesto estudo com longa experiência misturados”, como diz aquele poeta que, de tão popular, é até nome de bife no Brasil, o bife à Camões. E este “a” tem crase porque é à moda de Camões. O pessoal que faz o Enem dá mais valor a outros, assim como, na prática, continuam a maltratar Machado de Assis, ao desprezá-lo, depois que ele virou o jogo e passou de negro, pobre, órfão, epiléptico e gago a maior escritor do Brasil por esforço próprio e contra todas essas conhecidas adversidades. Epocais. Um bom ensino médio é mais decisivo para a vida do que graduação e pós-graduação. O embaixador Jerônimo Moscardo, ministro da Cultura do governo Itamar Franco, estudou no Pedro II e me disse que o salário dos professores era o mesmo dos ministros do STF. Um bom ensino começa com professores bem remunerados. Você acha que alguma vez alguma ordem religiosa considerou um problema a previdência dos frades ou dos padres professores? Estava no pacote, era normal. Então, eles podiam exercer o ofício docente despreocupados com a sobrevivência, ao contrário do que acontece hoje com os professores.

Para ver entrevista de Deonísio a Prisco Paraíso no SBT de Florianópolis clique aqui

N – Já que o assunto foi tratado, é inevitável pedir-lhe uma análise crítica sobre os efeitos deletérios da massificação do ensino superior sob a gestão de Jarbas Passarinho no Ministério da Educação e Cultura (MEC) dos governos militares e da didática da demagogia adotada nos governos petistas, da qual o candidato substituto do PT à Presidência na última eleição, Fernando Haddad, tanto se orgulhou na campanha, apesar da constatação do Índice de Desenvolvimento Humano da tão badalada Organização das Nações Unidas de que justamente o setor educacional se manteve estagnado?

D – A massificação do ensino não é um mal em si, nem chega a ser nociva. Dou-lhe um exemplo concreto e facilmente verificável: o professor que ministra aula, hoje, pelo Ensino à Distância, não pode chegar atrasado. E a pontualidade de professores e alunos, vale dizer, a disciplina, é essencial ao ensino e à aprendizagem. Na gestão de Passarinho, vários cursos superiores foram ministrados de modo intensivo e nas férias, com a mesma carga dos cursos diários. Até com as mesmas ementas. Como se sabe, o ano letivo tem no Brasil, em média, um terço dos dias do ano. Pode ser ministrado em quatro meses integrais, portanto. Então, sempre dependerá da qualidade do ensino ministrado, a começar por seleção de professores pela competência e de boas condições para exercer a docência, e não pela escolha de apaniguados para a direção das instituições de ensino superior. O coronel Jarbas Passarinho e o general Rubem Ludwig fizeram boas gestões no ensino à frente do MEC. Não se pode negar, porém, que o Brasil desaba nas classificações internacionais de avaliação. Na campanha, o ex-ministro da Educação Fernando Haddad fez más escolhas de orientação, recebeu apoios e recomendações que lhe tiraram milhões de votos, segundo minha modesta opinião, mas acho que ele e o ministro Tarso Genro tiveram bons momentos como gestores à frente do MEC. Infelizmente, serviram a dois apedeutas, um dos quais sempre se orgulhou de não estudar. Mas de um profissional da qualificação de Fernando Haddad esperamos naturalmente mais do que bons momentos, esperamos visão estratégica e mudanças concretas. Para isso não pode nomear para postos-chave por indicação ideológica. Às vezes, seu melhor aliado é seu crítico. E seu pior parceiro é quem diz sempre amém.

Deonísio, professor titular visitante da Universidade Estácio de Sá, abraçado por Pedro Thompson, presidente da Casa. Foto: Acervo pessoal

N – Em seu romance Goethe e Barrabás, talvez sua maior obra de ficção, lançada em 2008, o senhor contou a história do famoso bandoleiro bíblico iluminado pelo genial poeta de Fausto, aprendendo que Satanás não negocia com mulheres porque elas, na visão diabólica, vendem a alma, mas não a entregam. Antes que os apressadinhos o confundam com algum machista empedernido, o senhor não acha que convém esclarecer que, de fato, o texto revela em profundidade a baixeza da elite brasileira, responsável pela caminhada que nosso país, principalmente neste momento histórico, faz rumo ao inferno de Dante?

D – Esse romance conta uma história que poderia ser factual. De todo modo, é verdadeira: por más escolhas que fazemos na vida, caímos em tentações que nos destroem ou nos salvam. Como discernir? Não apenas no plano individual. Eu recebi depoimentos sinceros de leitoras que disseram: “Eu sou a Salomé”. Outras disseram: “Que pena que eu não tive a coragem de fazer a escolha de Salomé”. Leitores disseram: “Eu queria ser Barrabás, daí, sim, eu seria livre e viveria com mais gosto”. No romance eu lido com os dois Barrabás, o bíblico e o personagem Bar, seu apelido. E dei o nome de Salomé porque um homem perde a cabeça por ela, como no episódio bíblico. Quanto a Goethe, aprecio demais as reflexões sobre esse negócio de vender a alma ao diabo. O agraciado queixa-se a Satanás: por mais que gaste, não gasta todo o dinheiro obtido com a venda da alma. E Satanás sugere: “Já experimentou a caridade?”. Inseri esse capítulo porque nos governos do ciclo petista eu achava espantoso que se orgulhassem de aumentar o número de atendidos por bolsas disso e daquilo. Era um dos sinais do fracasso que se avizinhava. Um benefício necessário e provisório foi colocado como programa permanente. É como orgulhar-se sempre de um remendo, não da roupa nova, um problema do cidadão resolvido pelo governante. No Brasil a tentação totalitária é muito forte. A educação não está inculcada em nossa alma. A prisão e o medo estão. A expressão teje preso não é apenas uma brincadeira, ela revela a nossa alma. Nós não acreditamos na tarefa de educar, nós acreditamos na de punir, de preferência com a perda da liberdade. Há outro bom exemplo no trânsito: o objetivo é arrecadar, não é melhorar o trânsito. Acompanhei muito de perto a educação de minha filha e percebia o espanto que sobrevinha quando a coleguinha era posta de castigo pelos pais porque tinha transgredido alguma norma. Sabe o que era ficar de castigo? Estudar! Os pais, provavelmente sem querer, davam a ideia de que estudar é um castigo. O Brasil vem fazendo más escolhas há muito tempo. A elite que imagina estar ainda na casa-grande é um caso de polícia. A segurança tem problemas? A casa ou mansão vira uma fortaleza, com guarita, muros altos e guardas particulares. Há violência no trânsito? A solução passa a ser comprar carros blindados. O sistema de saúde não funciona? Surgem planos caríssimos, que só a elite pode pagar. O ensino público vai mal? Eles pagam para seus filhos estudarem em escolas de elevado padrão, sobretudo no exterior. A elite brasileira não pensa mais no Brasil. Mas houve um tempo em que pensou, proclamou a independência política, programou a República, organizou o Exército para se defender dos inimigos externos. O étimo remoto de elite é o mesmo de recolher, escolher e ler, e até os finais do século 12 significava apenas escolhida. Uma escolha supõe o melhor, não é mesmo? Mas no Brasil, as elites – prefiro o plural – têm complexas formações. Nossa elite econômica, por exemplo, tem saqueadores, ladrões e outros malfeitores nas árvores genealógicas. Nossa elite política perdeu a visão de nação, seus representantes pensam apenas em si mesmos e formaram dinastias familiares para os saques ao erário.

Para ver vídeo de Deonísio com Augusto Nunes clique aqui

N – Em outra obra em que sua verve mordaz se manifesta, Os Guerreiros do Campo, lançada em 2000, o senhor se refere de forma muito irreverente aos ditos movimentos sociais de trabalhadores sem terra e sem teto, que, nestes 18 anos, têm sido tratados com muita condescendência, ao mesmo tempo que vêm perdendo relevância, embora ainda protagonizem os sonhos revolucionários da esquerda Rouanet. Sem cair na folclorização do mortadela contra coxinha, que papel o senhor lhes atribui neste momento histórico crucial, em que a intervenção do chamado “exército do Stédile” ameaça menos do que uma pipa ao vento?

D – Quando escrevi Os Guerreiros do Campos, os sem-terra, liderados por Stédile e seus red caps, ocupavam no Brasil um território maior do que a Dinamarca. Mas isso diz pouco: um empresário paranaense tinha no Pará uma fazenda maior do que a Bélgica. Visitei os acampamentos para escrever o romance, num deles me encontrei com a moça que tinha posado para a Playboy – na época eu escrevia para essa revista, fazia perfis, fiz o de Maguila, do Samelo, etc., e publiquei ali alguns contos. Sempre fui a favor da reforma agrária, principalmente depois de ler o melhor livro de Graciliano Ramos, São Bernardo, em que o latifúndio mostra suas devastações também na alma do proprietário. E não fui a favor como é a favor a personagem tão amorosa do romance, a fazendeira Camila, que diz: “Desde que não comece por minha fazendas”. Ela vive um complicado amor com Gregório, um professor que a faz mudar muito. Mas é raro um petista ter humor, já percebeu isso? Frei Betto me disse que eu ia ganhar a Margarida de Prata, um troféu da CNBB para bons livros. Mas daí foram ler o romance e a abertura traz uma cena insólita: São Pedro está fazendo o cadastramento das almas dos sem-terra que chegam assassinados ao céu, eu me baseara em várias chacinas, e o príncipe dos apóstolos pergunta algo assim: por que os brasileiros não morrem como os suíços, que chegam aqui arrumadinhos? Acharam que eu estava debochando da religião. Justo eu, católico de formação, que rezo todos os dias, vivo a clamar que falta uma editoria de religião na mídia e leio as encíclicas papais no original? Quanto ao sem-terra, hoje, não sei mais o que lhe dizer, a não ser revelar uma antiga perplexidade: sem verba do governo eles não sobrevivem. Tornaram-se profissionais, servem a outros interesses, como todos sabem, mas esse é um pequeno problema perto das safadezas bancárias praticadas todos os dias em nome da independência do Banco Central. Olhe as taxas de juros, não apenas dos bancos, mas sobretudo dos cartões de crédito populares. Que vergonha para nossas autoridades monetárias permitirem e autorizarem algo assim! Perto disso, os sem-terra são moscas no açucareiro.

Deonísio no estúdio onde apresenta seu programa Sem papas na língua no estúdio da BandFM no Rio. Foto: Acervo pessoal

N – Por falar em ameaça, está sendo noticiado, com relevância que, na realidade, não deveria ter, o alerta feito pela ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia de que há uma perigosa onda conservadora no mundo e, particularmente, entre nós. Como perigo não combina com conservação, para o bem geral da Nação, que remédio o senhor ministraria a esses magistrados que falam tantas batatadas: um bom dicionário na cabeceira ou uma dose de Rivotril antes de falar em solenidades públicas?

D – Tornou-se um meme nas redes sociais a tua célebre ponderação ao ministro Marco Aurélio Mello, do STF. Aliás, antigamente sabíamos a seleção brasileira de cor e nenhum nome de ministro do STF. Hoje sabemos a escalação completa do STF, até de quem joga mais à esquerda, mais à direita ou mais ao centro, e ignoramos a seleção brasileira. Não deveria, mas vou dizer: discrepo, por norma, das opiniões da ministra Cármen Lúcia. A cada vez que ela emite uma de suas platitudes, eu penso num trecho de Sêneca: fallaces sunt rerum species et hominum spes fallunt. Está na obra De Beneficiis, que a ministra ou quem a nomeou deveria ler ou ao menos consultar, pois há boas traduções. Mas quem a nomeou não lê nada. Acho que não soa pernóstico citar um clássico latino por dois motivos: a amizade tinha valor absoluto na Roma antiga. E essas frases já foram pronunciadas em latim pela bela Scarlet Johansson no filme Iron Man 2. Sua tradução aproximada é: “As aparências enganam e traem a esperança dos homens”. Lembro que para os antigos gregos a esperança era um dos males do mundo, porque podia enganá-los sobre o futuro. Aliás, era um jarro, não uma caixa, termo adaptado para designar o objeto oval que Pandora abriu, soltando todos os males do mundo, menos a esperança. O antigo nome virou palavrão, como se sabe.

Para ver vídeo que alunos da FACHA fizeram sobre a obra de Deonísio clique aqui

N – Ainda dentro desta luta com as palavras, que, para o poeta Drummond, é a mais vã, este apaixonado por vocabulários, gramáticas e que tais, que o interroga, tem a ousadia de lhe apresentar um problema de hermenêutica. Há anos o Supremo Tribunal Federal se divide entre garantistas e punitivistas em torno do artigo 5.º, inciso VLII, da Constituição federal, que expressamente proíbe considerar culpado cidadão cujo processo não tenha transitado em julgado. Em que dicionário ou tratado de sinonímia é autorizada a substituição de considerado culpado por ser preso, como pretendem os rigorosos garantistas? E será que transitado em julgado, na verdade, ultrapassaria as calendas gregas?

D – Em nenhum dicionário. Só se for um compêndio deles mesmos. O mundo jurídico não tem essa proclamada precisão. Sentença tem o mesmo étimo do verbo sentir. Não é inteiramente objetiva. Cada juiz julga como sente o problema. Parece que às vezes há outras influências, mas isso pode ser fofoca, esse recurso de modéstia (a pessoa não fala de si), de solidariedade (a pessoa está preocupada com a vida alheia) e de delicadeza (fala pelas costas porque pela frente poderia magoar o interlocutor). Mas todos sabem que alguns ministros do STF adoram navegar na maionese, como se diz em linguagem científica (risos). Outros, menos delicados de trato, às vezes nos dão a ideia de que gostariam, como o mais vulgo dos vulgos, de resolver no braço, insinuando os benefícios do pugilato, e às vezes nos fazem imaginar que poderá advir dos conflitos uma antiga solução, o duelo. Mas eu confesso que sempre gosto de assistir às sessões: pelas palavras, pelos gestos, por caras e bocas. E não aprecio o que considero exagerada verborragia contra alguns deles. Se certas decisões do STF merecem providências, sou de parecer que deveriam ser tomadas no ambiente civilizado das leis. Eles não são deuses, homens é que são. E por isso falham também. Quanto às calendas gregas, os gregos não tinham calendas, mas tinham calendário. O STF deveria ter o seu também. Talvez eles tenham, além de dialeto e idioleto, um cronoleto, um tempo que valha só para eles.

Deonísio, em encontro ecumênico com ex-ministros de Temer, Calero, e de Dilma, Martins Cardozo, e ex-secretário de Alckmin, Chalita. Foto: Acervo pessoal

9 – Seu ofício de professor universitário, escritor e etimologista à disposição dos meios de comunicação já lhe permite decidir se hoje o português falado no País real e escrito no Brasil oficial, distinção feita em crônica clássica de Machado de Assis, ainda seria a “última flor do Lácio inculta”, mas não necessariamente tão “bela”, como a descreveu o poeta Olavo Bilac?

Pois é, os modernistas odiavam Bilac porque não escreviam tão bem quanto ele, e porque ele tinha criado o serviço militar e o livro didático. O português das ruas a cada dia fica mais rico, mas eu temo que a falta de leitura dos clássicos e de outros bons autores da língua maculem deliciosas expressões e tendam a baixar o nível. O povo é bom, a escola ainda não, ou não é mais, para os mais pessimistas. Mas há bons indicadores de que a qualidade do ensino do português venha a ser retomada e seja enfim interrompido esse processo de usar incultos como referência. Sabe que a etimologia de clássico é muito curiosa: clássico é aquilo que você precisa para uma viagem. Começou a designar o que era necessário levar numa embarcação, depois numa frota. Temos de portar de novo os clássicos. E há novos clássicos na praça.

10 – Como cidadão, que trabalha entre jovens, no pleno calor da batalha ideológica travada no Brasil em termos candentes, levada a extremos na última eleição, como o senhor acha que essa súbita paixão nacional pela política, substituindo até o fanatismo pelo esporte bretão que consagrou Terto, nos meios de comunicação e nas “ágoras” do boteco, desviará o Brasil do abismo ou, ao contrário, guiará o povo à desgraceira geral?

Prezado José Nêumanne Pinto, antes de responder à última pergunta, permita-me agradecer-lhe este espaço: Jesus curou dez leprosos e apenas um voltou para agradecer. Gosto muito das lições dessa parábola: a taxa de agradecimento para Deus é de apenas 10%. Para nós, saiba que é muito menor. Pessoas como você, o Augusto Nunes, o Luiz Fernando Emediato, o Aluizio Maranhão e poucas mais sempre deram comovente atenção ao que escrevo. A minha participação na mídia não é bem vista por alguns colegas. No antigo câmpus de concentração onde eu ensinava, certo dia uma professora me fulminou à queima-roupa: “Bonito, hein, um professor e escritor escrevendo na Caras, não tem vergonha, não?”. No susto, eu só tive espírito (de porco) para perguntar: “Como é que a senhora soube?”. Quanto às conversas das ágoras do boteco, que venham mais ágoras e mais eclésias (originalmente, eram assim chamadas as assembleias dos cidadãos), não apenas as comunidades eclesiais de base a cuja formação dediquei três anos de minha vida em tempo integral, numa experiência sofrida e bonita de convivência com pessoas das mais diversas características. Morávamos todos juntos num prédio que tinha sido convento, estudávamos uma semana em tempo integral e passávamos três semanas no meio rural formando esses grupos. A equipe era composta por homens e mulheres que eram brasileiros, alemães, belgas, austríacos, holandeses. Para mim valeu, em certo sentido, muito mais do que os cursos universitários que fiz. Foi uma experiência singular. Sou esperançoso e acho que o Brasil enfim se politizou por meio de um recurso inesperado, o recurso digital. Ninguém previu, com as vestes democráticas com que irrompeu , esse novo recurso, que tornou possível invadir os currais  eleitorais e libertar aqueles que votavam pelo cabresto. Tal como na antiga Grécia, berço da democracia, a prosa política, em seu sentido mais sólido, o da participação nos destinos da “pólis”, está na ordem do dia e vai reordenar o Brasil. E que a pátria deixe de ser ordenhada pelos velho costume de mamar nas tetas do governo, que já deixou torta a boca de alguns poucos.

Do Sermão do Bom Ladrão, de Vieira, Deonísio cita os “reis, que acompanham ao inferno ou ao cárcere bandidos com os quais negociaram” (Foto: Acervo pessoal)