Castelo de areia mijada

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Depoimento do homem do PT na Petrobrás tem efeito de bomba H na reputação e na estratégia de Lula

José Nêumanne

08 de maio de 2017 | 10h55

O falastrão Lula e o bestalhão Mujica deitando falação em congersso do PT Foto: Fernando Bizerra/EFE

O que o ex-diretor de Serviços da Petrobrás Renato Duque, tido pela Operação Lava Jato o vassalo de José Dirceu na roubalheira do petrolão, contou ao juiz Sérgio Moro na sexta-feira 5 de maio já é mais do que suficiente para modificar completamente o status de Lula em seus cinco processos. Antes, o ex-presidente alegava ser perseguido pelo juiz, pela Polícia Federal e pelos procuradores. Agora essa versão estapafúrdia perde qualquer possibilidade de sustentação, a não ser para seus prosélitos mais crédulos e fanáticos. Sua posição de brasileiro mais honesto de todos os tempos tornou-se insustentável. Assim como a lenga lenga insistente de Dilma de que é honesta porque não tem conta no exterior.

(Comentário no Jornal Eldorado da Rádio Eldorado – FM 107,3 – na segunda-feira 8 de maio de 2017, às 7h30)

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Abaixo a íntegra da degravação do comentário:

Eldorado 8 de maio de 2017 Segunda-feira

Que País é este Capital Inicial https://www.youtube.com/watch?v=WREjVCvjc_Y

Em que o depoimento espontâneo do ex-diretor de Serviços da Petrobrás Renato Duque poderá modificar o teor de outro depoimento, o que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva prestará ao juiz Sérgio Moro, da 13.ª Vara Federal em Curitiba depois de amanhã?

Em praticamente tudo. Renato Duque foi preso pela Operação Lava Jato ainda em 2014, mas logo foi solto por decisão do então relator da Lava Jato, ministro Teori Zavascki, que alegou não ver nenhum risco à sociedade de ele continuar tendo acesso às contas que mantinha no exterior. Só que os policiais e procuradores federais encarregados da investigação descobriram que ele fez exatamente o que temiam: mudou as contas. Em março de 2015, foi novamente preso e os meios de comunicação registraram sua reação à prisão citando uma frase famosa  do ex-governador de Minas Gerais Francelino Pereira – Que país é esse – que serviu de título a um poema de Affonso Romano de Sant’Anna e também de um sucesso de seu xará Renato Russo, do Capital Inicial. Recentemente ele foi beneficiado por nova benemerência do STF, desta vez de Marco Aurélio Mello, mas aí não chegou a ser solto, pois tinha novos mandados de prisão a cumprir. Afinal, já foi condenado duas vezes e sua pena é de mais de 31 anos de prisão fechada. Pois bem, na sexta-feira passada, 5 de maio, ele abandonou sua tática de se manter calado em depoimento que pediu ao juiz encarregado do caso. Seu depoimento foi uma bomba de hidrogênio de efeito devastador sobre a reputação e a estratégia de defesa dos ex-presidentes petistas Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Ele contou, de livre e espontânea vontade, que Lula comandava pessoalmente a corrupção na Petrobrás, tendo como operador o ex-tesoureiro do Partido dos Trabalhadores – PT – João Vaccari Neto. Acusado de ter sido nomeado diretor por indicação do então mandachuva do partido, José Dirceu, ele contou também que “todos no partido sabiam, desde o presidente, o tesoureiro, secretário, deputados, senadores, todos sabiam que isso ocorria”. Ele narrou ainda que num dos encontros que disse ter mantido com Lula, num hangar, o ex-presidente “[Lula] disse que a então presidente Dilma tinha recebido informação de que um ex-diretor da Petrobras teria recebido dinheiro, numa conta da Suíça, da SBM [empresa holandesa que alugava navios para a Petrobras]”. Ou seja, não sobrou ninguém, petista sobre petista no depoimento do homem. Será útil acrescentar que não se trata de uma delação premiada. Na verdade, Duque tinha se mantido calado até então, mas resolveu falar porque agora pretende fazer uma delação premiada, da qual se pode esperar muito mais do que isso. Mas o que contou ao juiz sexta-feira já é mais do que suficiente para modificar completamente o status de Lula. Antes, o ex-presidente alegava ser perseguido pelo juiz, pela Polícia Federal e pelos procuradores. Agora, contudo, essa versão estapafúrdia perde qualquer possibilidade de sustentação, a não ser para seus prosélitos mais crédulos e fanáticos. Sua posição de brasileiro mais honesto de todos os tempos tornou-se insustentável. Assim como a lenga lenga insistente de Dilma de que é honesta porque não tem conta no exterior.

Quer dizer que você não teme que Lula cumpra sua ameaça de mandar prender jornalistas, caso ele venha a ser eleito presidente da República em 2018. Você, que o critica há muito tempo, não teme ser preso por ordem dele?

De fato, Lula ameaçou, na abertura da etapa paulista do 6.º Congresso Nacional do PT, na mesma sexta-feira do depoimento de Duque, que vai “mandar prender” quem espalha “mentiras” contra ele e disse que, se voltar a ser presidente, vai fazer a regulamentação dos meios de comunicação. O petista voltou a reclamar da cobertura da imprensa no caso da Lava Jato. Segundo ele “ficaram dois anos dizendo que eu seria preso”. “Se eles não me prenderem quem sabe um dia eu mando prender eles por mentir”, disse o petista. Só que no dia seguinte, o presidente da Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR), José Robalinho Cavalcanti, rebateu essas declarações, garantindo, em nota, que chefes do executivo não têm poder para decretar a prisão de qualquer pessoa. “Apenas lamentar a frase, que soa como ameaça, de que – supõe-se legitimamente que depois de mais uma vez eleito presidente – irá mandar prender os que investigam”, disse Cavalcanti, referindo-se a tais bazófias de um metido a valentão que não passa de um covardão de marca.

Aliás, no meu caso específico, nem precisaria me valer das evidentes constatações do procurador, pois me basta a experiência pessoal. Em 2011, lancei o livro O que sei de Lula pela editora Topbooks, no qual comecei a desfazer o mito de areia molhada do ex-dirigente sindical contando como ele se encontrou com um agente do serviço de informações da ditadura para dar informações sobre o movimento sindical de que era àquela época o mais notório líder. Dois anos depois, o delegado da polícia civil de São Paulo Romeu Tuma Jr, filho do famoso policial Romeu Tuma, que chegou a dirigir o Dops estadual e a Polícia Federal, lançou outro livro pela mesma editora intitulado Assassinato de Reputações. Nele, Tuminha, como é conhecido o autor, contou com detalhes a atuação do mesmo Lula como informante de seu pai, à época das greves. Nenhum dos dois livros foi contestado na Justiça. Tuma chegou a lançar outro volume dando continuação a suas informações já tendo como referência à Lava Jato. A única reação que ele teve ao meu livro foi mentir dizendo numa entrevista a seus capachos Mino Carta e Luiz Gonzaga Belluzzo na revista Carta Capital, dizendo que não me conhecia pessoalmente. Isso poderia ter sido desmentido por seus próprios entrevistadores, mas não aconteceu. É que ambos tinham participado de muitos encontros entre este autor e seu tema. Quando a Tuminha, que foi secretário de Justiça do Ministério da Justiça à época de Márcio Thomas Bastos em seu primeiro mandato, nem ele nem nenhum de seus bajuladores soltaram nenhum pio. Trata-se de um faroleiro, um covardão mentido a valentão.

Mas seus admiradores estão planejando uma grande manifestação de apoio em Curitiba. E isso levou o juiz Sérgio Moro a pedir aos que o apóiam a não se manifestarem nas ruas para evitar confrontos. Isso não o preocupa?

Nesta semana as revistas Veja e IstoÉ chegaram às bancas com imagens metafóricas de uma espécie de luta de MMA entre o justiceiro e o bandoleiro. Isso me inspirou um Twitter advertindo para o ridículo dessas capas, pois não existe um embate entre Moro e Lula, mas entre justiça e corrupção, verdade e mentira. Tenho mais de 61 mil seguidores na rede social e mais de 1.500 retuitaram esse meu posto, mostrando que as pessoas estão conscientes dessa tautologia. O próprio Moro, contudo, manifestou preocupação distribuindo um vídeo nas redes sociais. Vamos ouvi-lo:

SONORA 0805 Moro

Tenho o maior respeito e, como a grande maioria da população, a maior admiração pelo trabalho da Lava Jato em geral, e do Moro em particular. Mas não acho que ele seja infalível, embora esteja indo pelo caminho certo no desbaratamento da quadrilha, que, conforme Renato Duque, um dos mais qualificados de seus membros, promoveu o maior assalto aos cofres públicos da História. Discordo e lamento a iniciativa do juiz, pois acho que ele não deveria se imiscuir no debate político, mas manter a postura que tem mantido até agora. Trata-se de um depoimento comum de um suspeito de ter praticado crimes comuns que são investigados em cinco processos criminais, alguns dos quais sob julgamento da vara que ele comanda em Curitiba. Não quero ser palmatória do mundo, muito menos para condenar o trabalho magnífico que o juiz tem feito até agora, mas no exercício de minha liberdade de expressão e de meu dever de comentarista lamento que ele tenha tomado essa iniciativa que, ao contrário do que ele imagina, certamente com a melhor das intenções, não pacifica os ânimos, mas, ao contrário, como as capas das revistas, só pode é levar água para os moinhos tumultuosos que Lula tenta mover para acabar com o que resta de paz na sociedade brasileira que, com seus ladrões e gestores incompetentes levou este País à maior crise de toda a sua História.

Você acha que Lula está preocupado com a decisão do plenário do STF sobre o habeas corpus pedido pelo coordenador de sua campanha em 2002 e da campanha de Dilma em 2010, além de seu ministro da Fazenda e chefe da Casa Civil da pupila cuja eleição a presidente ele lançou, apoiou e comandou?

Recentemente eu contei aqui a nada edificante historinha das mudanças da primeira para a segunda turma do STF, que começa em 2015. Na semana passada, mais um roque desse xadrez foi consumado. Ocorre que Dias Toffoli, o mais fiel petista do Supremo foi indicado relator dos habeas corpus relativos ao já concedido pela primeira turma ao ex-chefão petista José Dirceu. Tudo faz parte da combinação, pois Toffoli é o mais recente do tribunal na segunda turma e comandou a votação dissidente tornando-se por regimento o relator, que certamente vai continuar a missão assumida por 3 membros entre os 5 da turma. Só que agora Fachin, o relator da Lava Jato, mandou o habeas corpus mais importante de todos, o pedido por Antônio Palocci para o plenário. E lá no plenário parece que a leniência e a generosidade não é tão grande, com a perspectiva de apenas Marco Aurélio juntar-se a Toffoli, Lewandowski e Gilmar Mendes. Aí é que a porca torce o rabo. Gilmar Mendes e sua mulher Guiomar, aliás, são tratados com muito rigor, digamos assim, num excepcional artigo de José Roberto Guzzu na Veja desta semana. Quem não o leu ainda deveria ler.

A primeira nota da coluna de Lauro Jardim no Globo de ontem dá conta de que o dono da Andrade Gutierrez está negociando sua delação premiada na Lava Jato. Ele poderá trazer nova dor de cabeça para Lula em sua tentativa de vender o peixe de perseguido dos procuradores?

A nota intitulado A delação do chefe conta que Sérgio Andrade, pai de Marília Andrade, que hospedou Lurian, a filha de Lula, em Paris, vai, enfim, delatar. Sérgio é dono da Andrade Gutiérrez, empreiteira beneficiada no governo Lula com a famosa Lei Telezoca, que tornou possível a fusão de que resultou a Oi, hoje destaque do noticiário por estar prestes a sofrer uma intervenção danosa ao interesse público pela Anatel. O magnata mora há algum tempo em Lisboa e ficou de fora do primeiro tempo das delações, substituído por seu ex-executivo Otávio Azevedo, segundo Jardim, abrirá o jogo sobre propinas e doações, segundo informou seu advogado Celso Vilardi. Além de informações prometidas ao juiz Marcelo Bretas, da Lava Jato no Rio, Andrade tem muito a contar sobre a guerra das teles, cujos efeitos repercutem até hoje na ação do ministro de Ciência, Tecnologia, Inovação e Informações Gilberto Kassab e de seu fiel escudeiro Juarez Quadros, presidente da Anatel. O contribuinte lesado no roubo do petrolão terá muito a comemorar com a perspectiva de ele contar tudo o que está oculto até agora, porque Otávio Azevedo nada contou nem lhe foi perguntado, por todas as maracutaias ocorridas sob a chefia de Luís Gushiken, outra figura oculta dessa tramóia. Já Lula, nem tanto…

SONORA Que país é esse Capital Inicial

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