Brumadinho ficar impune é desrespeitar as vítimas e o futuro, diz ambientalista
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Brumadinho ficar impune é desrespeitar as vítimas e o futuro, diz ambientalista

Malu Ribeiro, da SOS Mata Atlântica, compara o que viu que se tornou o rio Paraopeba contaminado por rejeitos minerais ao panorama de um campo após a batalha

José Nêumanne

07 de março de 2019 | 12h46

Malu em ação colhe amostras do Rio Paraopeba para concluir que a parte já invadida pela lama do Córrego do Feijão morreu. Foto Giovana Girardi/Estadão

“Foi como reviver o terrível pesadelo do rio Doce, num cenário de total destruição e dor, semelhante ao panorama de uma guerra, composto de destroços humanos e ambientais, onde a vida parece não ter valor algum. Ver um rio tingido de vermelho, cor de sangue, sem vida, em pleno período de piracema, quando a vida deveria estar em sua plenitude, é uma sensação de enorme impotência, que ressalta a nossa incapacidade perante a irresponsabilidade dos grandes degradadores, da impunidade e da falta de respeito pela vida.” Essa descrição precisa e pungente é usada pela jornalista e ambientalista Malu Ribeiro, que coordenou a equipe que percorreu o rio Paraopeba após o arrombamento da barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho, para constatar que ele morreu. Na edição desta semana da série Nêumanne Entrevista, neste blog, ela fez outra observação para ser lida como se fosse uma oração: “As águas do rio fazem a conexão dos povos com o sagrado, com o valor imaterial desse bem, essencial à vida. O sagrado no Brasil está entrelaçado aos nossos rios, não é à toa que a imagem da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, foi encontrada por pescadores no rio Paraíba do Sul”. Amém!

Malu Ribeiro é jornalista, ambientalista, com especialização na área de recursos hídricos e políticas públicas.  Coordenadora da causa Água Limpa e assessora de advocacy e políticas públicas da Fundação SOS Mata Atlântica, coordena desde 2003 o projeto Observando os Rios, que monitora a qualidade da água em rios e bacias hidrográficas do bioma Mata Atlântica. Conselheira do Conselho Estadual de Recursos Hídricos do Estado de São Paulo. Ela também é representante das organizações ambientalistas no Conselho Nacional de Recursos Hídricos e do Comitê Gestor do Observatório de Governança da Água.

Equipe da SOS Mata Atlântica, chefiada por Malu, percorre o que dá para navegar no Paraopeba rumo a Três Marias. Foto: Marcelo Naufal/SOS Mata Atlântica

Dez perguntas para Malu Ribeiro:

Nêumanne – O que levou a equipe de pesquisadores da Fundação SOS Mata Atlântica, que a senhora coordenou, a concluir que o Rio Paraopeba morreu?

 Malu Ribeiro – Foram duas as constatações feitas em campo que nos levaram a atestar essa trágica condição do rio Paraopeba, no trecho impactado pelos rejeitos de minério. A primeira é constatação científica, com base na análise criteriosa dos elementos existentes na água e dos poluentes medidos em valores muito acima do que a legislação estabelece e cuja presença na água leva à intoxicação e morte dos organismos vivos. Ressaltamos que o principal indicador de vida na água é o oxigênio dissolvido e a total ausência desse bioindicador resulta na constatação de que o rio está morto.

A segunda forma é a observação com base na percepção da nossa equipe e da conversa com os moradores ribeirinhos e pescadores que nos ajudam a comprovar que nossas observações estão corretas. Não constatamos a presença de peixes, alevinos, anfíbios, girinos, insetos como as libélulas, aranhas d’água, entre outros, que são parte do ecossistema saudável.

Para ver entrevista de Malu a Maria Lydia no Jornal da Gazeta clique aqui

N – Qual foi a sensação da senhora e da equipe de técnicos que a acompanharam na pesquisa, ao chegar a essa conclusão dolorosa e terrível, que certamente deve ter representado para todos um impacto inédito na sua vida?

M – Foi como reviver o terrível pesadelo do rio Doce, num cenário de total destruição e dor, semelhante ao panorama de uma guerra, composto de destroços humanos e ambientais, onde a vida parece não ter valor algum. Ver um rio tingido de vermelho, cor de sangue, sem vida, em pleno período de piracema, quando a vida deveria estar em sua plenitude, é uma sensação de enorme impotência, que ressalta a nossa incapacidade perante a irresponsabilidade dos grandes degradadores, da impunidade e da falta de respeito pela vida.

Malu navega no Rio Paraíba do Sul, onde foi encontrada a imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Foto: Marcelo Naufal/SOS Mata Atlântica

N – Quais serão as consequências inevitáveis para as pessoas e os rebanhos que vivem às margens de um rio que era saudável e piscoso e, de repente, se tornou o duto de uma placa de lama infecta e mortal?

M – Primeiramente, o prejuízo de cerceamento do direito ao uso da água, com todos os impactos econômicos, sociais e culturais que esse impedimento de uso do rio traz. Em seguida vem o aumento da pressão sobre os afluentes e outros mananciais da região que passam a ser utilizados para suprir o déficit do rio maior. Com o passar do tempo, os impactos na saúde do ambiente repercutem na saúde humana, em razão do desequilíbrio causado à vida no rio. Sem os peixes, anfíbios e o ecossistema natural há a proliferação descontrolada da fauna nociva, como os pernilongos e os insetos transmissores de doenças graves como dengue, zika e febre amarela, entre outros. A perda da Mata Atlântica, com mais de 112 hectares devastados pela lama de rejeitos, impacta as nascentes, os afluentes e o microclima da região. É um danoso efeito dominó, que vai sendo ampliado à medida que os rejeitos são carreados ao longo do rio Paraopeba.

No traço do chargista Paulo Caruso o resumo da vida e da missão de Malu, num Roda Viva sobre crise hídrica de São Paulo. Foto: Reprodução

N – Existe alguma possibilidade de se adotar um conjunto de procedimentos e técnicas que possam ressuscitar a vida que foi assassinada das águas do Paraopeba?

M – É importante frisar que, por pior que sejam o nosso comportamento e as agressões ao meio ambiente,  a água continua a seguir seu ciclo. A água se renova, mas a contaminação ficará no rio e no ambiente por muito tempo.

Os contaminantes carreados para o rio com toneladas de lama e rejeito de minério não serão retirados do leito do Paraopeba. Parte ficará depositada ao longo dos mais de 300 quilômetros de extensão até o reservatório de Retiro Baixo e parte continuará sendo carreada rio abaixo. Ou seja, a recuperação do Paraopeba dependerá da capacidade de regeneração natural do rio. Para ajudar nesse processo de recuperação é preciso adotar várias medidas de remediação, complementares a esse processo de depuração. Destacamos o desassoreamento do leito do rio e dos reservatórios, o reflorestamento das matas ciliares arrastadas, a contenção dos rejeitos, a melhoria na eficiência dos serviços de saneamento básico dos municípios ribeirinhos e a restrição ao uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos nas áreas lindeiras do rio. Pois o rio Paraopeba perdeu a sua capacidade de depuração dos poluentes que já recebe, o que exige maior rigor e eficiência nos lançamentos dos efluentes tratados e outras fontes de poluição difusa.

Ou seja, o rio é como nossas artérias: leva todos os nutrientes de que precisamos para viver e também as impurezas que ingerimos. Quando um corpo está doente, devem-se evitar excessos e dar-lhe elementos saudáveis, que no caso do rio são os afluentes e as nascentes preservadas, que alimentam com água boa aquele corpo hídrico debilitado

As florestas nativas devolvem aos rios o ciclo hidrológico saudável de que eles precisam.

Para ver entrevista de Malu no Bom Dia São Paulo, em 2011, clique aqui

  N – Que consequências desastrosas e em quanto tempo poderão advir desse fato inexorável para a represa de Três Marias, símbolo da pujança e da riqueza do Brasil nos chamados anos dourados, em cuja direção a lama assassina marcha de forma lenta, mas inexorável?

M – A mudança no regime hídrico dos rios com a construção de reservatórios para os chamados regimes lênticos, transformando águas de corredeiras em águas mais calmas e lentas, tende a acumular sedimentos, resultado das atividades humanas e do uso do solo na bacia hidrográfica. Esse acúmulo de sedimentos e a mudança no regime hídrico alteram a química da água e exigem adaptação das espécies de peixes e organismos vivos. Então é importante entender que o reservatório de Três Marias já vem sofrendo impactos cumulativos à qualidade da água do rio São Francisco há anos. Há várias pesquisas que apontam a retenção de metais pesados, fruto da exploração minerária secular no Estado de Minas Gerais, região dos formadores do rio São Francisco.

Com o carreamento de mais toneladas de rejeitos de minério provenientes desse crime ambiental, a condição da qualidade da água no reservatório de Três Marias tende a se agravar. É preciso monitorar as águas de forma permanente e adotar ações de remediação e mitigação no reservatório. Os rejeitos provenientes da barragem da Vale que rompeu vão sendo carreados ao longo do rio Paraopeba e para o reservatório de Três Marias, gradativamente. Não chegarão numa tsunami como aconteceu no rio Doce, mas como um carreamento lento e continuado.

O clima é outro fator que interfere na capacidade de depuração e no agravamento das condições ambientais no reservatório. As variações climáticas interferem diretamente na capacidade de retenção dos sedimentos e dos metais pesados no reservatório.

Altas temperaturas com acúmulo de nutrientes químicos e orgânicos favorecem a proliferação de algas que consomem o oxigênio dissolvido na água e levam à eutrofização e à mortandade de peixes e microrganismos.

A prática recorrente em grandes reservatórios como o de Três de Marias é de abertura das barragens em períodos de cheias e carreamento dos poluentes, acumulados ao longo de décadas, rio abaixo. É preciso definir regras operativas de barragens que regulem cheias, usos da água e, principalmente, qualidade das águas.

Malu em campanha pela vitalização do Rio São Francisco, em 2014: “Eu viro carranca pra defender o Velho Chico”. Foto: Reprodução

N – Em que situação o São Francisco, que aprendi na escola que era o “rio da unidade nacional”, se encontra neste momento, depois do sacrifício ecológico a que tem sido exposto nos últimos anos pela tentativa, até agora frustrada, de transpor suas águas para matar a sede de pessoas e rebanhos no Semiárido nordestino?

M – O rio São Francisco está em estado de alerta e no aguardo tardio da prometida revitalização da sua bacia hidrográfica. O rio da integração nacional depende da atenção e do investimento dos governos em saneamento ambiental e no fortalecimento das políticas públicas de meio ambiente e recursos hídricos. Mas a pressão setorial e econômica nos governos e no Legislativo é no sentido contrário: de flexibilizar a legislação ambiental brasileira, de favorecer a impunidade, sobretudo com a anistia de multas e da obrigação de recuperar e proteger as matas nativas, como a Mata Atlântica e o Cerrado, vitais para a saúde e perenidade do rio São Francisco.

Para ver entrevista de Malu à ITV, de Itu, sua cidade natal, clique aqui

N – Até que ponto as condições do Velho Chico, já deterioradas, poderão piorar, no momento em que os dejetos e rejeitos minerais despejados pela barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho, começarem a disputar seu leito com as carrancas e outras embarcações que fazem parte do cotidiano e da cultura das populações ribeirinhas em Minas, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe?

M – Inevitavelmente, esse crime ambiental representa mais ameaças às bacias dos rios Paraopeba e São Francisco, pois, as águas seguirão seus cursos e com elas serão carreados os contaminantes provenientes das toneladas de rejeitos de minérios que as cabeceiras do Velho Chico receberam. O perigo é que esse carreamento lento, e que pode ser invisível para as comunidades ribeirinhas do São Francisco, pode mascarar a gravidade e amplitude desse dano ambiental. A exemplo do rio Doce, quando as autoridades negaram que a pluma de rejeitos atingiria o oceano até o arquipélago de Abrolhos.

A transparência na divulgação dos dados é fundamental para que possamos mensurar o real impacto ao longo dos anos e, a partir desse monitoramento, adotar medidas de remediação e recuperação.

Malu gravando entrevista para equipe de TV na cabeceira do Rio Iguaçu, cuja foz é ponto turístico. Foto: Marcelo Naufal/SOS Mata Atlântica

N – Que exemplos a senhora conhece, em outros países, de situações similares às observadas após o arrombamento das barragens do Fundão, em Mariana, e do Córrego do Feijão, em Brumadinho?

M – Não há paralelos nessas proporções no mundo.

Malu com Zequinha Sarney, então ministro do Meio-Ambiente, e deputado Alessandro Molon (PSB-Rio) nos 20 anos da Lei das Águas. Foto: José Cruz/Agência Brasil

N – Pelo que a senhora conhece de outras mineradoras e de outras barragens, com seu conhecimento sobre a impunidade com que essas empresas costumam agir no Brasil, quantos atestados de morte de um rio sua equipe prevê que ainda está prestes a elaborar?

N – Se a impunidade persistir e o Sistema Nacional do Meio Ambiente continuar a ser desmontado, com fragilização dos órgãos fiscalizadores, a legislação ambiental brasileira for flexibilizada e a pressão econômica setorial prevalecer sobre os interesses e direitos da sociedade, teremos certamente mais centenas de tragédias anunciadas.

Até março de 2018 os indicadores de qualidade da água medidos pela SOS Mata Atlântica em 294 pontos de coleta, distribuídos em 230 rios, de 102 municípios, em 17 Estados do bioma Mata Atlântica ­- Alagoas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Sergipe e São Paulo – mais o Distrito Federal, no período de março de 2017 a fevereiro de 2018, revelaram que 222 pontos e coleta (75,5%) apresentaram qualidade regular. Em 59 pontos (20,1%) a qualidade é ruim e em um (0,3%) ponto, péssima. Somente 12 pontos (4,1%) apresentaram qualidade boa na média do ciclo e nenhum dos rios e corpos d’água teve qualidade ótima.

Esse retrato da qualidade da água nas bacias da Mata Atlântica aponta a fragilidade da condição ambiental dos principais rios de 17 estados do país. A condição de qualidade regular da água demanda atenção especial dos gestores públicos e da sociedade, pois esse indicador demonstra que a condição está no limite dos padrões definidos na legislação para usos menos restritivos, como recreação, navegação, irrigação e abastecimento público mediante tratamento avançado.

Caso haja novos danos ambientais, esses indicadores assustadores de qualidade da água podem se agravar, levando grandes regiões à escassez.

Para ver Malu falando na série A Reconstrução do Brasil, do Estadão, clique aqui

N – Neste momento, o comentário mais sintético e mais comovido sobre o que tem acontecido em Minas Gerais é o verso antológico de Carlos Drummond de Andrade no poema Confidência de Itabirano, do livro Sentimento do Mundo: “e como dói!”. A senhora tem uma ideia se há possibilidade de definir em pobres palavras essa dor que o poeta expressou?

M – Qual é a dor de quem se pergunta quanto Vale o rio?

“80% de ferro nas almas”, lamentou o poeta.

Podemos dizer que é assim que nos sentimos. O poeta expressou a dor de quem perdeu a paisagem de Itabira, sua terra, nós assistimos à terrível dor de quem perdeu familiares, de quem perdeu sonhos e o futuro. Olhar para as águas turvas e mortas do Paraopeba num remanso em São Joaquim de Bicas, na região do solo sagrado dos índios pataxós, que há dois anos fixaram morada na margem do rio ainda piscoso, foi como chegar a um templo sagrado profanado. E sentir a profundidade dessa dor.

As águas do rio fazem a conexão dos povos com o sagrado, com o valor imaterial desse bem, essencial à vida. O sagrado no Brasil está entrelaçado aos nossos rios, não é à toa que a imagem da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, foi encontrada por pescadores no rio Paraíba do Sul. E nossa equipe chegou ao solo sagrado dos pataxós no Paraopeba no dia de Nossa Senhora dos Navegantes, 2 de fevereiro, dia de Iemanjá , mãe das águas.

Foi, quem sabe, um chamado para que possamos reconectar-nos ao que de fato é importante, com a nossa responsabilidade e nosso dever de zelar pela vida, de não permitir que crimes como esse se repitam, que não fiquem impunes, em respeito às vítimas e às gerações futuras.

Malu não tem ilusões quanto ao Paraopeba: “A água se renova, mas a contaminação ficará no rio e no ambiente por muito tempo”. Foto: Gabriela Biló/Estadão

 

Tendências: