Brasil se especializou no crime de matar rios, diz poeta
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Brasil se especializou no crime de matar rios, diz poeta

Para jornalista baiano Fernando Coelho, deputados e senadores, “cavalheiros da desonra”, não representam cidadão, que não respeita Justiça, que não prendeu o presidente do Flamengo

José Nêumanne

27 de fevereiro de 2019 | 19h15

Fernando tem 12 livros publicados, 11 de poemas e Salvador-Guia de Cheiros, Caminhos e Mistérios, roteiro da capital baiana, prefaciado por Jorge Amado. Foto: Nadir das Neves

Fernando Coelho, poeta e jornalista baiano, lamenta que “as centenas de mortos não representam nada para a papelada que se junta para justificativas e negativas” no Brasil de hoje. Na edição desta semana da série Nêumanne entrevista, ele interrompeu a redação de seus textos de sucesso nas redes sociais para fazer um desabafo definindo a tragédia que protagonizamos e assistimos. Ele acha que “o Brasil morreu nestes tempos. Não adianta o ministro da Educação, que virou um bedel nacional, mandar filmar crianças cantando o Hino Nacional e gritando por Deus.” E acrescentou: o helicóptero em que Boechat morreu “tem o perfil do País atual, uma montagem de vários pedaços de filosofias, ideologias, interesses políticos, tudo no elo das finanças, do interesse financeiro. E o povo, que paga a conta inocentemente, ainda imagina que o Estado trabalha. O Estado não trabalha, não gera renda, nós, o zé-povinho, é que pagamos. E estamos morrendo nas Upas, nas filas, desabando nas lotéricas, nos caixas do BB e da CEF, dois gigantescos bancos públicos, que nos tratam como mendigos e tinham obrigação moral com a população. Tenho medo.”

O jornalista, poeta e escritor Fernando Coelho tem 12 livros publicados, 11 de poemas e Salvador-Guia de Cheiros, Caminhos e Mistérios, roteiro da cidade da capital da Bahia, prefaciado por Jorge Amado, 4 edições esgotadas há 25 anos. Chefiou a reportagem do jornalismo na Rede Globo de Televisão durante anos, dirigiu o Departamento de Esportes e chefiou a redação do Jornalismo da TV Cultura, foi repórter especial da Rádio Globo, criou e dirigiu o programa Terra Brasilisna Rede Banderiantes. Foi ainda assessor de iImprensa da Global Editora. Implantou e dirigiu as duas primeiras televisões legislativas do Brasil na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo e na Câmara de Vereadores de São Paulo. E também diretor de Comunicação Social e Marketing da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Exerceu o cargo de Diretor de Comunicação e Promoção do Instituto do Patrimônio Histórico e Arquitetônico Nacional (Iphan, do ministério da Cultura), além de diretor de Comunicação Social e Marketing da Secretaria de Estado do Meio Ambiente de São Paulo. Em 2008, recebeu a Medalha da Imigração, do Itamaraty, por sua obra Agenda Manabu Mabe. A editora Aquariana publicou a Coleção Poeta Fernando Coelho, com três títulos.

Fernando na Praia de Itapuã mantendo viva a chama de seu amor pelo litoral da Bahia, fonte de inspiração dele e de Caymmi. Foto: Afonso Ferreira

Nêumanne entrevista Fernando Coelho

Nêumanne – Como o senhor reage ao fato de não ter podido frequentar o Museu da Independência, localizado no bairro do Ipiranga e gerido pela Universidade de São Paulo nos últimos seis anos, porque o reboco das paredes do prédio onde funciona, que é tombado, não atende aos requisitos mínimos de segurança dos visitantes que o frequentavam e não poderão mais fazê-lo por um tempão, pois a reforma está programada para começar este ano?

Fernando Coelho – José Nêumanne, não será conveniente que eu me baseie em números ou estatísticas para esta conversa. Você e os seus milhares de leitores, sempre bem informados, não necessitam dessas informações, tão abundantes hoje em dia. A História brasileira, propagada aos quatro cantos, e agora com interferência comportamental do novo ministro da Educação, com ideias não muito novas nem avançadas, precisa de muito reboco em toda a sua dimensão. O que se comenta é uma revolução na USP, que também recebeu no peito o bombardeio de uma crise fabricada em vários governos e aperfeiçoada pelos petistas. O Museu da Independência, há muitos anos, quando lá estive, está impregnado de mofo: mofo na manutenção, mofo no tratamento administrativo dos seus gestores, mofo na inteligência daqueles que deveriam imprimir nesse patrimônio o selo do cuidado com um acervo essencial para quem quer entender ou estudar a independência deste país, acometido pela febre do desprezo aos bens da cultura e da educação. As autoridades brasileiras, não por ironia, talvez por um quinhão de estupidez e esdrúxula concepção da realidade, entendam a expressão “bem tombado” como um bem caído, ao rés do chão, desprezado, pronto para o abate fácil de martelos e picaretas, talvez para poupar o Estado de cuidados e políticas restauradores, como se faz no mundo civilizado, e entregar o terreno para a fome nacional das construtoras. O que acontece com o popular Museu do Ipiranga é o painel mortífero e desprezível do que acontece com todos os museus: desinteresse cívico, despreparo social e político dos administradores. Falta manutenção, falta olhar real, falta empenho, falta dinheiro por prevaricação das entidades, falta brasilidade.

Fernando em 2013 na redação da TV Cultura de São Paulo, que chefiou, exercitou a paixão pelo jornalismo, especialmente na televisão. Foto: Acervo pessoal

N – Qual foi o seu sentimento quando acompanhou o noticiário sobre o incêndio que devastou a memória nacional, queimando o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, administrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, sob os auspícios do PSOL, um dos partidos mais combativos da esquerda no Brasil?

F – A Constituição de 1988, aquela que o dr. Ulysses ergueu no plenário da Câmara dos Deputados como um troféu republicano, abriu a cancela da boa vontade e admite a existência de inúmeros partidos políticos. Não somente o PSOL, mas também o DEM, o PMDB, que muda de nome como quem muda de camisa, o PSDB, o PT, o PSL, que de repente virou gigante, e ainda as quinquilharias no cesto onde estão os nanicos, todos são combativos, combativos ao gosto do freguês. Cada partido serve a um grupelho, um interesse financeiro, um acordo pelo poder. Os partidos políticos defendem negócios. A questão do combate da esquerda passa pelo indefectível liame da educação em nosso Brasil. A não ser uns poucos intelectuais da USP, da Unicamp, alguns escritores mortos de fome, o povo não sabe o que é esquerda, e ainda assim atende ao apelo dos populistas, dos discursos teóricos, dos aproveitadores da Nação, com milhões de analfabetos funcionais e milhões de outros desfuncionais. Esse contingente, manipulado pela esquerda esbaforida e criativa, é contra ou a favor daquilo que líderes sem escola, mas que garantem o seu lugar ao sol, mandam que faça. Um exemplo: o meu Estado, a Bahia. Há mais de uma década governado pelo PT, vive em deplorável extinção. Em Salvador falta tudo, escolas, hospitais, inteligência, saneamento básico, milhares e milhares morrem à míngua na periferia, patrimônio arquitetônico destruído, a Polícia Militar, uma das mais violentas do País, e, estarrecedor, a quarta capital do Brasil é a rainha do desemprego. Se eu e você formos à praça pública falar mal desse governo ou do Lula, seremos linchados. Castro Alves hoje em dia, na praça do povo, levaria pedradas se falasse qualquer coisa contra os reis do PT. O meu sentimento sobre a fogueira que engoliu o Museu Nacional é de profundo medo, tristeza. Ninguém, dessa corja incompetente e reacionária da UFRJ, teve punição até agora. Cinzas, providências tacanhas, sorrisos amarelos, falta de vergonha de todos, e os caras no bem-bom, em seus empregos sob ar-condicionado, pagos com o nosso dinheiro. Nenhum processo individual, nenhuma criminalização, e, o que parece, esses caras querem mesmo queimar a nossa História, ou o que ela armazena, para que ninguém se lembre nem aprenda a questionar, a responder, a mandá-los de volta para a escola. A perda do Museu Nacional, naquela noite sangrenta, queimou as vísceras nacionais.

Em casa, Fernando acompanha notícias e vaticina: “A perda do Museu Nacional, naquela noite sangrenta, queimou as vísceras nacionais.” Foto: Nadir das Neves

N – Vamos recuar um pouco no tempo e pedir-lhe que reconstitua as visitas que fez às cidades históricas de Minas Gerais e como se sentiu ao tomar conhecimento do arrombamento de uma represa da multinacional Samarco, controlada pela mineradora australiana BHP Billiton e pela brasileira Vale, da qual são sócios majoritários os fundos de pensão Previ, do Banco do Brasil, Petros, da Petrobrás, e Funcef, da Caixa Econômica Federal, além do Bradesco, do BNDES e de investidores estrangeiros, na cidade de Mariana, um dos centros urbanos do ciclo da extração de ouro no Brasil.

F – Nêumanne, não posso defender uma tese. A indignação é uma ação pessoal, já que no Brasil ela nunca é coletiva. Claro que os doutores togados do STF não vão me contestar, nem me lerão, não por desprestígio a você, mas pela força do meu anonimato como jornalista e poeta. Mas a Justiça aqui não é para os fortes, para os grandes executivos, para os presidentes de fundos de pensão. No Brasil Império, como hoje, continuam levando as nossas riquezas. Com uma diferença: no Brasil Império somente Portugal tinha o mandato para entrar, escavocar, pegar, retirar, esculhambar o chão e levar embora. Hoje, com o consentimento dos sócios nacionais, outros países retiram do nosso chão o melhor e continuam levando – por conta da usura compartilhada, da falta de fiscalização, por deficitária aplicação das leis – os nossos tesouros. Ninguém reclama. Ninguém faz passeata na Paulista. Ninguém defende tese. Cadê a combativa esquerda, os seus políticos, os seus artistas, os seus intelectuais?

Fernando no bar do Maksoud Plaza com a mulher, Nadir das Neves, paulistana que aprendeu a fazer um acarajé inesquecível. Foto: Acervo pessoal

N – Qual é a sua opinião sobre o fato de um desastre ambiental de consequências apocalípticas, como o assassinato do Rio Doce, não ter merecido da Justiça brasileira uma mera condenação criminal de seus executivos culpados pelo fato, que não foi acidental?

F – Há vários dias pergunto: por que o lépido presidente da Vale está fora da cadeia? O Ministério Público, em quem ainda tenho alguma fé, parece dopado. Parece receber orientação do presidente da Vale. Mandou prender engenheiros de terceiro escalão, os bagrinhos. Mas o tubarão carnívoro continua dando entrevistas e falando a rodo. Alguém acredita, em sã consciência, que o presidente da empresa não sabia de nada? Essa empresa, com os apaniguados brasileiros, conseguiu um feito mundial inimaginável em qualquer era: matou um rio. O extermínio do Rio Doce foi recebido pela população de qualquer jeito. O assassinato do Rio Doce foi recebido pelos escaninhos da Justiça com os hipócritas arrazoados dos luxuosos e caros advogados de defesa. Não fossem alguns ambientalistas, ouvidos por conta da necessidade de explicação, tudo estaria em banho-maria. Onde estão os universitários? Eles sabem o que significa uma nação perder um dos seus mais influentes rios? Eles sabem o que significam isso biologicamente? Eles sabem o que isso representa para a renovação secular do ecossistema, para a biodiversidade, para o equilíbrio do planeta?

A autoridade brasileira e as instituições se aperfeiçoaram no pior tipo de crime ambiental: matar, a sangue-frio, rios. Aliás, essa saga de matar rios começou com um presidente da República, ou não foi Lula que deu a ordem para exterminar o Velho Chico, o mais querido, o mais profícuo veio de água e provedor de comida do Nordeste, de onde ele mesmo saiu? Por que essa transposição idiota, ridícula, que deixa milhares de eleitores do PT sem água e comida? O projeto está à míngua. O mesmo desperdício da vasta natureza acontece no Xingu e ninguém fala nada. Índios, reservas, territórios bombardeados diariamente, e, a não ser que aconteça outra desgraça, ninguém dá a mínima para o sofrimento daquelas águas caudalosas e já não tão belas assim. Não se trata de ser contra o progresso, óbvio. Trata-se da urgência de se fazerem obras faraônicas onde o dinheiro público é gasto aos borbotões, sem pensar em outros projetos, alternativos, que possam minimizar as feridas do meio ambiente.

Para ver entrevista de Fernando a Lina Menezes no programa Faz muito bem clique aqui

N – O senhor se sente representado pelo Congresso Nacional e pelos governos da União e do Estado de Minas, que não conseguiram receber dos autores dessa ignomínia um centavo de multa pela devastação?

F – O Congresso Nacional não me representa. Olhando o envelope de pagamento dos deputados e senadores, e, agora mesmo, pensando no auxílio-mudança dos senhores congressistas, ninguém se sente representado por esses cavaleiros da desonra. Repare a briga para que os atingidos pela devastação da Vale recebam quireras para pagar pousadas e compare com o que recebe a casta de Brasília. É inimaginável num país com honestidade e decência social. Minas e os seus governos foram coniventes. Aceitaram o estupro ambiental. A União sempre foi permissiva, e muda agora, com o morticínio consumado. O cidadão que paga impostos, que trabalha pegando quatro ou seis ônibus por dia, enfrenta filas, não pode pagar convênio médico, não pode pagar escola boa para os filhos, ele não pode ser representado por essa turma que não tem a menor vergonha de usar o dinheiro dos impostos para suas mordomias. Não me representam. Jamais.

Fernando com a filha Fernanda Coelho no colo e um buquê de girassóis, em Nova York. Foto: Acervo pessoal

N – O que me diz da notícia de que a Vale nomeou o gestor de a barragem de Mariana, três anos antes, para gerir a usina do Córrego do Feijão, em Brumadinho, no mesmo Estado de Minas, que também foi arrombada, matando mais de 300 pessoas, ou seja, um crime contra a humanidade, e destruindo o belo e piscoso Rio Paraopeba?

F – Há um engasgo nas palavras. O raciocínio se torna perplexo. As centenas de mortos não representam nada para a papelada que se junta para justificativas e negativas. Deixei para acrescentar agora ao acervo de mortandade de rios o próprio Paraopeba, que perdeu o estômago, o coração, a nascente. E caminha, empunhando a morte, para o Rio São Francisco. As reações das autoridades, dos municípios, o tempo todo coniventes com a Vale, recebendo grana, dos ambientalistas, das ONGs são fracas, irrisórias. Eu reflito que, depois das guerras, o que aconteceu em Brumadinho é um dos maiores desastres da humanidade. Ali, somam-se vidas humanas perdidas, famílias dilaceradas, sonhos enlameados, destinos executados a pau e pedra e lama, economia regional reduzida a zero e o enterro sem precedentes da biodiversidade gigantesca de um pedaço do mapa do Brasil.

Com a filha Thaís, há dois anos, em Nova York, Fernando lamentou o assassinato do Velho Chico por Lula, mas ainda não sabia da invasão da lama. Foto: Acervo pessoal

N – Que tal receber a notícia, a ser dada em menos de um mês, de que a lama assassina da represa mineira chegará à represa de Três Marias, símbolo dos chamados “anos dourados” do Brasil, e de lá ao Rio São Francisco, o “rio da unidade nacional”, que atravessa toda a sua Bahia até o Atlântico?

F – Nêumanne, não é exagero repetir: o Brasil morreu nestes tempos. Não adianta o ministro da Educação, que virou um bedel nacional, mandar filmar crianças cantando o Hino Nacional e gritando por Deus. Falta ar de liberdade, de inteligência social, de esperança ao povo brasileiro. A devastação patrocinada pela Vale, gozando os benefícios da impunidade que nos glorifica, acaba com Estados, rios, matas, a terra, e vai jogar esses cadáveres todos no Atlântico, já combalido de dejetos humanos atirados nas praias de uma das maiores costas do mundo. Morremos. Ninguém chora. A Justiça fica na mesma lenga-lenga. Morremos.

Fernando com Assis Ângelo e os amigos de infância Maria de Lourdes e Domingos Santos, no evento Jornalistas Escritores, em que entrevistou Caco Barcelos. Foto: Acervo pessoal

N – O que dizer do Clube de Regatas do Flamengo, que faz veicular nas emissoras de televisão um anúncio em que chama sua torcida de nação, a camisa de seu time de futebol, de manto sagrado e seu ídolo, de entidade, chama de “fatalidade” um incêndio resultado de condições precárias de instalações onde moravam adolescentes, que o clube transforma em símbolos, ao dizer que “craque o Flamengo faz em casa”?

F – Também tenho perguntado em meu Facebook por que não tem nenhuma ação que possa levar o presidente do Flamengo para a cadeia. A entrevista que ele deu, depois de dias e dias de arrogante silêncio, considero uma temeridade para a democracia, para a vida, para o respeito cidadão. Foi déspota, grosseiro, petulante, insensível. Tratou o assassinato de dez crianças sob a guarda do seu clube como um negócio, como um campeonato, discutindo para baixo o custo de indenizações, que são, somente, uma compensação material para tanta dor das famílias. O cara foi deselegante e sabemos por quê. Ele, cartola, cacique, como os demais presidentes de clubes de futebol, representa a máfia desse esporte eminentemente nacional, pelo qual o povo deixa de comer para ir levar bomba e porrada nos caros estádios. A prisão nos Estados Unidos do cartola-mor, José Maria Marin, não vai inspirar ninguém a me contestar. O sujeito que preside o Flamengo, cuja torcida é cúmplice da tragédia, representa os reis do futebol. Ricos, prepotentes, hipócritas, com os bolsos cheios. Já houve algum manifesto da maior torcida brasileira exigindo decência do Flamengo? Algum abaixo-assinado solicitando humanidade da diretoria do time? A hipocrisia e a falsidade são outra grande torcida brasileira.

Para ver depoimento de Fernando Coelho em Papo de Mãe na TV Brasil clique aqui

N – Qual é a sensação que o brasileiro comum pode ter ao tomar conhecimento de que o helicóptero em cuja queda o jornalista Ricardo Boechat morreu, na Via Anhanguera, era uma espécie de quebra-cabeças montado de peças de aeronaves sinistradas e que a empresa proprietária não era autorizada a servir de táxiaéreo, pois tinha autonomia limitada a um tempo menor do que o necessário para fazer aquela viagem?

F – A minha sensação é de pavor. De tudo. Medo de andar de bicicleta, veja o que acontece nas ciclovias do País. E em São Paulo. Medo de andar de ônibus. É só reparar nos pontos, nesses trastes da mobilidade urbana em que o povo paga passagens escorchantes. Medo de avião. Morre um dos maiores jornalistas do País, por ser combativo, por gritar no rádio a voz do povo, e fica tudo igual. A minha sensação é de pavor. A impunidade é uma sombra que perpassa o que se comete contra anônimos, famosos… Esse helicóptero tem o perfil do Brasil atual, uma montagem de vários pedaços de filosofias, ideologias, interesses políticos, tudo no elo das finanças, do interesse financeiro. E o povo, que paga a conta inocentemente, ainda imagina que o Estado trabalha. O Estado não trabalha, não gera renda, nós, o zé-povinho, é que pagamos. E estamos morrendo nas Upas, nas filas, desabando nas lotéricas, nos caixas da BB e CEF, dois gigantescos bancos públicos, que nos tratam como mendigos e tinham obrigação moral com a população. Tenho medo.

O poeta com os colegas jornalistas Antônio Viviani e Riba Carlovitch na noite em que autografou em São Paulo a Coleção Fernando Coelho. Foto: Acervo pessoal

N – Diante tudo isso, o senhor diria que este nosso Brasil tem jeito?

F – Eu não sou sociólogo. Não posso compreender uma esperança real. Dos livros que eu li ­- e tudo está nos livros e na educação, duas raridades nacionais, embora devessem ser prioridades de governo -, não tenho possibilidade de dizer que tem jeito. Não em curto nem em médio prazo. Casa Grande & Senzala e os livros de Darcy Ribeiro me deixam assim. Somente para citar dois autores clássicos, porque os grandes pensadores da atualidade estão tocados pelo vírus dos lados, dos temas ideológicos, da universalização do nada. Posso responder assim, José Nêumanne: a quem perguntar, podemos responder que somos uma pátria? E quantos somos, entre mortos, feridos e humilhados sob os auspícios da lei? A quem perguntar, ainda temos alguma voz interior, ainda temos algum sotaque regional para sussurrar de que somos feitos? E de que mortes morremos, dia após dia, sem esperança, podemos responder a quem perguntar? Correntes elétricas de mentiras nos matam, podemos dizer? Pastores do ódio nos guiam a chama precoce da boa vontade, podemos constatar? A quem perguntar, podemos responder que não amamos o outro, nem a vida do outro, nem a família do outro, nem a nós mesmos? A quem perguntar, com certa incredulidade, podemos afirmar que esquecemos os mortos, não no dia seguinte, mas antes mesmo de morrerem de tiros, lama, injustiça, tapa na cara? A quem perguntar, diremos que somos um vasto campo de concentração, com rios assassinados, florestas arrasadas, pessoas diferentes desonradas, e nos escondemos, híbridos e não gentis, na vã tecnologia? Podemos afirmar que somos alguma coisa?

Fernando autografou Balada de Itapuã no restaurante Consulado Mineiro, há três anos, em São Paulo. Foto: Acervo pessoal