Brasil parece aberto à aventura e a aventureiros, diz escritor
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Brasil parece aberto à aventura e a aventureiros, diz escritor

Testemunha de momentos importantes na História recente do País, Flávio Tavares só encontra um modelo exemplar de 1988 para cá: a improvável gestão de Itamar

José Nêumanne

09 de maio de 2019 | 23h05

“A sociedade de consumo e, por outro, o pedantismo do PT terminaram com as posições político-econômicas”, acha Flávio, na foto ao receber o prêmio da APCA em 2004. Foto: Acervo pessoal

“O Brasil me parece aberto à aventura e aos aventureiros em quase tudo. Há muito já não há ‘esquerda’ nem ‘direita’. Nem pensamento sobre ‘o que fazer com o País’”, vaticinou o jornalista, escritor e militante político gaúcho Flávio Tavares. Protagonista de momentos históricos dos últimos 60 anos no Brasil, tais como a rede da legalidade de Brizola, de 1961, o golpe militar de 1964, a guerra suja no regime autoritário instaurado depois e a restauração da democracia, com a volta dos exilados — ele incluído –, Flávio Tavares está muito preocupado com o que pode acontecer neste país no futuro próximo. Da Constituição de 1988 para cá, o protagonista da série Nêumanne Entrevista desta semana neste blog citou apenas um exemplo positivo, o daquele de quem menos se esperava: o vice que substituiu Collor depois do impeachment. “O breve período de Itamar Franco foi o mais fecundo, honesto e proveitoso dos tempos da nova Constituição.  A estabilidade monetária do Plano Real nasceu com ele, sem alarde, como todas as ações de seu governo. A corrupção não teve campo para pastar. Itamar vinha da velha estirpe nacionalista de defesa da soberania econômica anterior ao golpe de 1964 e foi fiel a isso. O ‘Fusca do Itamar’, o veículo que ele levou a ser novamente produzido, após ser abandonado durante anos, ficou como símbolo de como o simples é também fecundo”.

Formado em Direito, professor (aposentado) da Universidade de Brasília (UnB), Flávio Freitas Hailliot Tavares, ou simplesmente Flávio Tavares, dedicou-se ao jornalismo. Nasceu em 1934 no Rio Grande do Sul, militou na Ação Católica e integrou o Partido Socialista, simbiose comum na época para distanciar-se dos comunistas. Dirigente estudantil, em 1954 participou do Conselho Mundial da União Internacional de Estudantes, na Universidade de Moscou, e conheceu a chamada “Cortina de Ferro”. Conheceu também a China, então afastada do mundo e não membro da ONU.   Foi colunista político em Brasília da antiga rede de jornais Última Hora. Em 1963 participou da estruturação da Faculdade de Teologia da UnB, a funcionar em junho de 1964 e “abortada” pelo golpe de 1.º de abril. “Estudar os novos deuses da sociedade de consumo foi visto como subversão comunista”, explica Flávio. Na Faculdade de Comunicação da UnB lecionou, então, História da Opinião Pública. Demitido com outros 15 professores, 95% dos docentes da UnB renunciaram. Participante da resistência armada, foi preso e torturado. Em 1969 integrou o grupo de 15 presos políticos libertados em troca do embaixador dos Estados Unidos. Exilado no México, depois na Argentina, foi correspondente do Estado com o pseudônimo de Júlio Delgado. Sequestrado pelo Exército uruguaio em visita a Montevidéu, foi libertado em campanha da qual participou até o papa Paulo VI.

 

 

 

Acocorado na extrema direita, Flávio conclamou companheiros de voo para a liberdade fora do Brasil a exibirem as algemas. Foto: Memorial da ditadura

Nêumanne entrevista Flávio Tavares

Nêumanne – Em 2012, o senhor lançou o livro 1961: O Golpe Derrotado – Luzes e Sombras do Movimento da Legalidade, a respeito do levante liderado pelo então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, para garantir a posse de seu cunhado, o vice-presidente João Goulart, na Presidência da República, evitando o golpe militar que chegou a ser ensaiado. Qual é a sua visão crítica de testemunha ocular daquele momento épico da política brasileira, bem-sucedido no primeiro momento, mas três anos depois frustrado pelo golpe de 1964?

Flávio – O Movimento da Legalidade foi a última grande rebelião de massas do século 20, tão abrangente que dela participou até o próprio Exército. Iniciada pela audácia de Leonel Brizola, paralisou o golpe de Estado que – quando Jânio Quadros renunciou – se tinha instalado em Brasília, com apoio ou beneplácito de 20 governadores estaduais. O fato de Goulart ser cunhado de Brizola, ao contrário do que se pensa, era um entrave ao então jovem governador gaúcho. Goulart era um conciliador perene. Brizola, um impetuoso que, já em 1961, pensava em “matar a cobra pela cabeça, não pelo rabo”. Isso, porém, não teria evitado o golpe de 1964, que foi urdido nos Estados Unidos, como está plenamente documentado, e consequência da paranoia da guerra fria.

Para ver Flávio no Roda Viva da TV Cultura clique aqui

N – O gênio da literatura argentina Ernesto Sábato considerava seu livro Memórias do Esquecimento o Recordações da Casa dos Mortos, de Fiódor Dostoiévski, da América Latina. Com essa apresentação, pergunto-lhe se valeu a pena passar por tudo aquilo por que o senhor passou – prisão, ameaça física, agressão, tortura – na perseguição do sonho de juventude de substituir o regime tecnocrático-militar por outro de sinal trocado.

F – Meu livro Memórias do Esquecimento foi uma catarse, algo surgido das entranhas, que me libertou da loucura e da morte interior. Ernesto Sábato talvez percebesse isso e foi o que o seduziu… Se valeu a pena? O mal não está no horror sofrido, mas na traidora aventura dos que pretendiam apenas substituir-se ao regime tecnocrático-militar impondo outro igual ou similar de aparência oposta, como diz a pergunta. No Brasil, a resistência à ditadura teve variantes e diferentes matizes. Integrei a área que até hoje pensa que não há socialismo sem democracia nem democracia sem socialismo e que só a liberdade é criativa.

Como repórter, cobrindo encontro da OEA em Montevidéu, Flávio conheceu pessoalmente Che Guevara, sobre quem escreveu um livro. Foto: L&PM Editores

N – Qual foi, a seu ver, o legado da saga dos grupos de esquerda na luta armada para o Estado democrático construído depois da queda do regime que venceu e destroçou os grupos guerrilheiros, mas terminou tombando sobre os próprios pés de barro, minado pelo trabalho persistente dos políticos da oposição pacífica civil?

F – Nosso legado maior foi o exemplo. Oferecemos a vida e centenas tombaram, outros sofreram o terror da tortura. Fomos derrotados militarmente e pela avalanche da imprensa, do rádio e da TV controlados pela ditadura. Historicamente, porém, fomos também vencedores. Ajudamos a despertar o País e os brasileiros. A oposição pacífica civil só foi persistente no Brasil após a eleição de Jimmy Carter, quando os Estados Unidos pressionaram as ditaduras no Brasil e na América Latina. Nós, os exilados, é que informávamos a opinião pública norte-americana e o Partido Democrata, de Ted Kennedy a Carter. Aqui, o lúcido Geisel sucedeu ao terror de Médici. Mas até então, em diferentes graus, todos foram coniventes, com os parlamentares da “oposição civil” recebendo polpudas remunerações. Na imprensa, o Estadão foi solitária bandeira democrática durante anos.

Para ver entrevista de Flávio a Abujamra em Provocações na TV Cultura clique aqui

N – Millôr Fernandes cunhou uma sentença original quando começaram a ser distribuídas indenizações às vítimas da guerra suja: “Não era ideologia, era investimento”. Como sobrevivente nos combates dos guerrilheiros contra os militares, o senhor se surpreende ao ler a notícia de que outros companheiros de guerrilha, caso de Zé Dirceu, pegaram o resultado do investimento e avançaram com gana inédita contra os cofres da República?

F – A sanha da mentira ou do devaneio esteve sempre presente em todos os grandes movimentos “vitoriosos”. Veja-se o horror da grande Revolução Francesa ou o terror do que deveria ter sido a grande Revolução Russa. Por isso a surpresa se dilui com o que houve no Brasil. Após 21 anos sem debates profundos, a ditadura nos legou partidos capengas, integrados por oportunistas que, dentro deles, ofuscaram até os corretos que lá existissem. O antigo destemor do jovem Zé Dirceu serviu, apenas, para enredar o PT na lama da pior politicalha, que esse partido dizia combater.

O grande romancista argentino Ernesto Sábato disse que Memórias do Esquecimento equipara Flávio a Dostoievski de Recordações da Casa dos Mortos. Foto: Evelson de Freitas

N – Que lições o senhor aprendeu, como militante político, jornalista e escritor, nos anos passados no exílio no México e na Argentina, após a rápida passagem por Cuba, para aplicá-las e também ministrá-las em sua posterior trajetória pessoal, profissional e política, de volta ao Brasil?

F – Antes de responder, esclareço: nunca estive em Cuba. Dos 15 presos políticos libertados em troca do embaixador dos EUA, fui o único a permanecer no México. Depois fui para a Argentina, a convite do presidente Perón, e terminei meu exílio em Portugal, após seis meses de prisão no Uruguai, onde só morei no cárcere. Fui solidário com o socialismo libertário de Cuba e de Che Guevara até que o regime virasse mero satélite da política soviética na guerra fria. No México, trabalhei na agência noticiosa cubana e, em São Paulo, acompanhei Fidel Castro das 8 da manhã às 10 da noite quando ele veio ao Brasil para a posse de Collor. “Conheci Cuba” nessas duas experiências. Mas a “sovietização” cubana foi uma das grandes frustrações da minha geração, aprofundada e expandida em mais de dez anos de exílio.

No México conheci um sistema político que, em nome do povo, reservava o poder a uma elite, que dava as migalhas do banquete ao pobre, e este babava ou aplaudia. Cheguei à Argentina logo após a morte de Perón e vi a violência instalada como poder, com os peronistas matando-se nas ruas em nome da pureza da “esquerda” ou da virgindade da “direita”. Então, o golpe militar e a ditadura surgiram como inevitáveis e implantaram o terror como regra, destruindo a convivência da própria sociedade. O poder tornou-se assassino e o medo foi lei. Nesse horror aprendi também o valor da solidariedade. Suportar o sofrimento, vivê-lo e sobreviver a ele me fez mais compreensivo, mais dúctil e em condições de entender os próprios erros e os erros ou absurdos dos demais. A dor me tornou melhor.

Para ver Flávio em entrevista a Felipe Vieira, da TVU, clique aqui

N – Que marcas, a seu ver, a reconstrução da democracia em nosso país incorporou de positivo e de negativo da transição da chamada Nova República, inaugurada com a tragédia da morte da esperança em Tancredo Neves e concretizada no decepcionante governo de José Sarney, seu substituto, egresso do partido criado para servir de sustentáculo ao regime derrubado?

F – A tragédia maior de Tancredo foi a mentira propagada até 24 horas antes da morte pelos que, em nome do poder, diziam que “ele se recuperava cada vez mais”. Vinda ainda do medo à verdade dos anos da ditadura, a mentira se incorporou à política como se fosse a própria política em si. E a tal ponto que anos depois, na primeira eleição direta, com cinco ou seis candidatos provadamente corretos e experientes (como Mário Covas, Brizola, Ulysses Guimarães ou Aureliano Chaves), a decisão ficou entre os noviços Collor e Lula, que tinham do País uma visão piegas, vulgar e de fanatismo pessoal. Quanto a Sarney, seu governo não foi decepcionante. Ao contrário, ele fez muito mais do que se poderia esperar de alguém que não sonhava em governar e queria ser apenas um discreto “vice”. Com tato e isenção, ele comandou a transição rumo à democracia e nisso muito devemos a ele.

“Se o desgoverno de Bolsonaro continuar a ser o que vem sendo nos quatro meses iniciais, não faltarão aventureiros, talvez ainda mais perigosos do que ele”, vaticina Flávio

N – Hoje, passados três decênios da primeira eleição presidencial direta, com a ascensão à Presidência de Fernando Collor de Mello 27 anos depois da vitória de Jânio, que impressões o senhor tem daquela administração, interrompida pelo impeachment do presidente, provocado por acusações de corrupção?

F – O que derrubou Collor foi o confisco das economias pessoais, que ele ordenou na orgia dos primeiros dias de governo, quando se mostrava um deus mítico, um super-homem das histórias em quadrinhos. O impeachment foi só o instrumento de uma vingança em que todos se sentiam coparticipantes. Em meio aos sonhos de “poder total”, houve até alguns progressos, como a preservação do meio ambiente e a demarcação das terras indígenas.  No fundo, Collor foi um aventureiro com mania de grandeza e se afundou na megalomania.

Para ver depoimento de Flávio na Comissão Nacional da Verdade clique aqui

N – Que papel o senhor atribui hoje historicamente a Itamar Franco, vice que herdou a Presidência ­­– e as consequências do desastre do eleito Collor, que começou com o confisco na conta de cada brasileiro de qualquer quantia acima de NCz$ 50 mil, planejado por Zélia Cardoso de Mello, e terminou com a compra do Fiat Elba, que derrubou o presidente e a entregou ao sucessor, Fernando Henrique Cardoso, com o êxito do Plano Real da equipe de Pedro Malan, trazendo novidades benéficas para o cidadão, como o fim da inflação, a estabilidade da moeda e uma Lei de Responsabilidade Fiscal para completar o saneamento das contas públicas?

F – O breve período de Itamar Franco foi o mais fecundo, honesto e proveitoso dos tempos da nova Constituição.  A estabilidade monetária do Plano Real nasceu com ele, sem alarde, como todas as ações de seu governo. A corrupção não teve campo para pastar. Itamar vinha da velha estirpe nacionalista de defesa da soberania econômica anterior ao golpe de 1964 e foi fiel a isso. O “Fusca do Itamar”, o veículo que ele levou a ser novamente produzido, após ser abandonado durante anos, ficou como símbolo de como o simples é também fecundo.

Flávio de volta do exílio, em 1979, para reencontrar Brizola, seu líder antes de 1964, e tornar-se militante do PDT. Foto: Acervo pessoal

N – Lembro-me bem, se me lembro!, de um almoço seu comigo e com o colega Carlos Marchi, no restaurante do Estadão, em cuja página 2 o senhor escreve hoje um artigo por mês. Naquela ocasião, o senhor se disse preocupado com a possibilidade de a ignorância do então presidente Lula provocar um desastre inédito para o Brasil. O que levou à crise atual foi a ignorância ou a cobiça de Lula e de seus companheiros do PT, inclusive Dilma Rousseff, que foi funcionária da assessoria da bancada do PDT na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, chefiada pelo senhor?

F – Nada é pior e mais corrosivo do que a ignorância de alguém perspicaz, ou até inteligente, que tenha o poder à mão. Foi o caso de Lula. Num chefe de Estado e de governo, a ignorância sobre o poder leva diretamente à cobiça. Varia apenas o sentido. Pode ser ambição desvairada pelo poder em si, e aí temos Hitler ou Stalin. Ou a ambiciosa cobiça da corrupção pessoal, como é o caso de Lula, que em nome da “governabilidade” entregou a máquina pública ao PP malufista e aos corruptos do MDB. A antiga social-trabalhista Dilma apenas seguiu os passos do seu guia e protetor. A única diferença é que, aparentemente, ela nada reteve para si mesma.

Cartaz do documentário de Flávio, em parceria com o filho Camilo, O dia que durou 21 anos, sobre o golpe de 1964. Foto: Divulgação

N – Também não me esqueço de sua insistência para que eu o ajudasse na tentativa de esclarecer à opinião pública sobre o despreparo, as desastradas ideias e experiência negativa de Jair Bolsonaro para evitar aquilo que poderia levar, na sua opinião, ao aprofundamento do desastre petista. Qual é sua sensação hoje, depois da vitória e da posse, há mais de quatro meses, do ex-capitão e ex-deputado federal e a consequência de um governo que, sem oposição, faz uma inusitada oposição a si mesmo?

F –  A sensação é de penúria e desânimo por tudo o que ocorreu ao longo de uma campanha eleitoral medíocre, em que nenhum tema profundo foi abordado coerentemente por ninguém. Assim, o resultado só poderia ser o absurdo que foi. Hoje não há sequer lampejos de atos sérios da parte do governo. É como se um grupo de crianças fosse encarregado de levar adiante o programa da Nasa e se enredasse em canções de roda ou brincasse de esconde-esconde.

Flávio no desembarque no México, em setembro de 1969, ao lado de Travassos, José Ibrahim, Gregório, Zarattini, Rolando Frate e Ives Marchetti. Foto: Acervo pessoal

N – Qual é seu palpite hoje: o desgoverno de Jair Bolsonaro poderá reerguer o PT, hoje combalido, quase destruído, a ponto de voltar ao poder, ou participar de uma coligação de esquerda que vença a próxima eleição presidencial, ou o sucesso de mais um aventureiro, aprofundando as perspectivas de crise e o caos?

F – O Brasil me parece aberto à aventura e aos aventureiros em quase tudo. Há muito já não há “esquerda” nem “direita”. Nem pensamento sobre “o que fazer com o País”. Por um lado, a sociedade de consumo e, por outro, o pedantismo do PT terminaram com as posições político-econômicas. Hoje temos apenas um aglomerado de gente registrada como “partido político” no Tribunal Eleitoral. Se o desgoverno de Bolsonaro continuar a ser o que vem sendo nos quatro meses iniciais, não faltarão aventureiros, talvez ainda mais perigosos do que ele. Tampouco vejo perspectiva de o PT se reerguer e voltar a cultivar o engano. Não sou pessimista, apenas vejo a realidade concreta. É terrível, mas é assim, infelizmente.

Flávio diante do Palácio do Piratini, onde testemunhou Brizola liderando a rede da legalidade para impor posse de Jango contrariando militares que queriam depô-lo. Foto: L& PM Editores