Brasil é perverso com quem não é político, diz ativista cultural baiana
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Brasil é perverso com quem não é político, diz ativista cultural baiana

Solitária opositora de ACM e do PT, Aninha Franco, agitadora cultural em Salvador, vê luz no fim do túnel na sociedade “indignada, assustada, espoliada”

José Nêumanne

27 Junho 2018 | 18h31

Em sua República Af, em pleno Pelourinho, Aninha atua em política, poesia, teatro e cultura, especialmente a afro. Foto: Acervo pessoal

“Somos ex-colônia há pouco tempo, pois considero o Império um prolongamento colonial. Há 130 anos, humanos escravizados percorriam essas ruas do Pelourinho onde o Olodum percussiona e a República resiste ao populismo. Nossas Repúblicas Velha, Nova, Novíssima ainda não fizeram nada para humanizar esse passado”, dispara Aninha Franco, dramaturga e, sobretudo, agitadora cultural que administra um espaço de prosa, poesia e gastronomia, a República Af, no Pelourinho, centro de sua cidade natal, Salvador, capital da Bahia de todos os santos. Militante petista à época do mando de Antônio Carlos Magalhães, hoje ela é pólo da oposição ao PT do novo patriarca, Jaques Wagner, o Jaquinho, favorito na disputa pelo Senado em outubro. No meio do atual conflito entre mortadelas e coxinhas, ela afirma, sem titubear: “Por experiência, devo dizer que ACM foi um opositor muito mais gentil que Jaques Wagner”. E quem quiser que negue.

Aninha Franco, nascida em 1951 em Salvador, na Bahia, é leitora voraz e exigente, escritora de publicações homeopáticas. Hedonista. Assentadora de espaços culturais muito frequentados, o Bleff e o Espaço Bleff nos anos 1980, o Theatro XVIII nos Anos 1990 e 2000, e a República Af nos anos 2010. Poeta até os anos 1990, historiadora cultural quando necessário, dramaturga sempre que necessário. Colunista, gourmet e bibliófila sempre. Atualmente, acompanha a edição de Anotações sobre o Fim do Século na Cidade da Baía, projeto que ganhou a Bolsa Vitae em 2004, com publicação prevista para este ano. E organiza os 14 mil títulos da República, sua cozinha e sua sala de degustações (Sala Ita) “para receber pessoas de bom gosto.”

Aninha recebendo o Prêmio Remington de Poesia das mãos do presidente Austregésilo de Athayde na Academia Brasileira de Letras, em 1976. Foto: Acervo pessoal

Nêumanne entrevista Aninha Franco

JNP – Nós dois somos da geração em que a produção de arte e cultura era irmã gêmea da liberdade, da criatividade e também da irreverência e da rebeldia. O que está acontecendo no Brasil, que, nestes últimos anos, os artistas, pendurados em verbas do Ministério da Captura passaram a se submeter a partidos e políticos, numa devoção mais religiosa do que leiga?

AF – Sobreviver de arte sempre foi difícil no Brasil, país que surgiu de um entreposto colonial pra enriquecer a Europa. Durante séculos os artistas foram invisíveis e não serviam pra nada. Depois que a televisão lhes deu visibilidade, eles passaram a ser capturados pelo capital/governos do PSDB por meio das leis de incentivo, adaptadas em 2002 aos interesses lulopetistas de controle de pensamento e propaganda. O edital, por exemplo, que era uma ferramenta de incentivo aos jovens talentos até 2002, foi transformado em bolsa de controle artístico. Na Bahia, as comissões que selecionam produções servem ao lulopetismo e os artistas premiados, também. Os espectadores, que não são bobos, se recolheram em casa. A produção cultural baiana está assim neste momento.

Homenagem do ator (Cinema Novo) e artista plástico Sante Scaldaferri a Aninha Franco e ao Theatro XVIII. Foto: Acervo pessoal

N – A senhora virou uma espécie de bastião isolado da contestação na Bahia, que sempre foi um Estado inconformista, desde os tempos de Gregório de Matos, o Boca do Inferno, até o comunista Jorge Amado, o gênio iconoclasta Glauber Rocha e os tropicalistas Caetano Veloso e Gilberto Gil. O que mudou em seu Estado para que esse inconformismo virasse uma procissão de mendigos de verbas cantando loas ao chefão de ocasião e pedindo esmolas a el-rey?

A – A Bahia foi colonizada pelos jesuítas, a serviço do Vaticano. Os jesuítas controlaram sua educação e modelaram sua mentalidade de 1549 a 1759. Viver do Estado é uma prática enraizada na Bahia desde a colônia. E como viver do Estado e fazer oposição ao governo, na Bahia, são antônimos perfeitos, a oposição por aqui é sempre temporária. Faz-se oposição, mas não é nada sério.

Eu sempre estive na oposição. Fiz oposição a ACM, quase sozinha, da juventude à maturidade. O poder de ACM foi longo. Trabalhei para eleger o PT na Bahia, mas quando ele venceu me mudei pra oposição. Por experiência, devo dizer que ACM foi um opositor muito mais gentil que Jaques Wagner. Nos primeiros momentos do governo Wagner, em 2007, eu tive a impressão de que estava sob a gestão de Médici que nós sabemos como foi. Os lulopetistas subalternos são raivosos, ressentidos, e quando chegaram aos seus pequenos poderes acharam – ainda acham – que eram donos do Estado, com tudo o que havia dentro dele.

N – Nós dois somos de um tempo em que pessoas que discordavam umas das outras se respeitavam, pois mais do que a defesa desenfreada de convicções, que sempre termina em xingamentos grosseiros, quando não em desforço físico, valiam o fogo e a luz que surgem dos debates. O que, a seu ver, motivou essa transformação, que faz tanto mal à vida social e à necessidade de união para sairmos da encrenca em que nos metemos?

A – A existência de pensamento impõe esse respeito de que você fala. Somos de uma geração educada pela escola laica/pública para pensar, escola que sobreviveu pouco tempo. Quando os jesuítas, que detiveram o monopólio da educação brasileira até meados do século 18, foram expulsos, deixaram a lacuna enorme da educação da colônia, que depois de cem anos de República não foi preenchida. Mas parece que entre os anos 1930 e 1970 houve um projeto bom de educação laica/pública. Eu tive isso que a ditadura desmontou nos anos 1970. E que nenhum político fala em remontar. Por isso o Brasil está esse gigante “pela própria natureza”, à deriva, achando que Lula ou Bolsonaro estão aptos para governá-lo.

Nos anos 1970, Aninha circulava na moto Rocinante, companheira a caminho do Forum (advogou) e das praias de Salvador. Foto: Acervo pessoal

N – A Bahia já foi o território de Juraci Magalhães, tenente de 1930, e de Antônio Carlos Magalhães, o ACM, Toninho Malvadeza ou Toninho Ternura, dependendo das circunstâncias, e hoje é território impenetrável do PT, em que Lula é deus, Jaquinho Wagner, seu profeta e Rui Costa, o balançador de turíbulo. A senhora diria que esses coronéis de direita e esquerda seriam azeite de dendê da mesma garrafa?

A – O dendê oligarca de ACM e o dendê aparentemente novo dos sindicalistas têm o mesmo ranço populista. ACM controlou a Bahia durante toda a sua vida adulta. Elegia-se senador e despachava como governador porque ele havia elegido o governador. ACM foi o inventor dos postes que Lula copiou. Controlava os três Poderes com uma habilidade que espantaria Montesquieu. Mas com esse poder exercido por tanto tempo, ele esqueceu de um detalhe importantíssimo: esqueceu que era mortal e estava aqui de passagem, como todos nós. Quando saiu da vida política baiana pela porta da morte, deixou uma massa pronta e deseducada para a política populista dos sindicalistas, que têm entre seus objetivos apagar a memória de ACM do Estado. Estamos neste momento de Bahia.

N – Do Pelourinho, onde fica sediada sua República, a senhora costuma andar para áreas longínquas do imenso território nacional. Quais seriam, segundo suas impressões de viagens, as principais causas da crise moral, política, econômica, financeira, espiritual e social que está levando nosso Brasil velho de Cabrália a virar frege e beleléu?

A – Somos ex-colônia há pouco tempo, pois considero o Império um prolongamento colonial. Há 130 anos, humanos escravizados percorriam essas ruas do Pelourinho onde o Olodum percussiona e a República resiste ao populismo. Nossas Repúblicas Velha, Nova, Novíssima ainda não fizeram nada para humanizar esse passado. E o presente continua perverso com qualquer brasileiro que não seja político. A capacidade de pensar, no Brasil, que sempre foi combatida com ferocidade, com esquartejamentos e torturas, hoje é combatida institucionalmente, com educação de péssima qualidade. Li em Hannah Arendt dos anos 1970 que, possivelmente, 6% de humanos pensavam no planeta e, portanto, eram racionais. Temo conhecer a porcentagem dos que pensam no Brasil de hoje. Mas a irracionalidade brasileira está exposta. E é mortal.

N – Por que a senhora nunca se engajou na palavra de ordem de muitos de seus companheiros de velhos tempos que pregavam o fim da corrupção e hoje querem o juiz Sergio Moro fora e o condenado Lula livre?

A – Eu sou anarquista desde que li Bakunin, quase adolescente. Nunca fui comunista ou socialista. A Polícia Federal invadiu minha casa em 1971 e me levou para o Dops por causa de um cordel que eu escrevi, A História de um Militante nas Unhas de Um Militar, e dei de presente ao meu namorado do PCB, contando como ele entregaria todo mundo quando fosse preso. Ele foi preso e me entregou. Eu estava com 19 anos, mas já sabia que o comunismo tinha um componente (im)previsível: a espécie humana.

Ouça poema de Aninha Franco dito por Maria Bethânia na abertura dos espetáculos do Theatro XVIII

N – O que a senhora considera mais daninho para a moral, os bons costumes e os lhanos negócios republicanos: a roubalheira encampada pelo PT e seus cúmplices ou a comodista aceitação da propina pelo PSDB fingindo que era oposição para se dar bem na vida?

A – Os dois. PT e PSDB são iguais. A turma da Segunda Turma (Gilmar, Tofolli e Lewandowsky), nomeada por FHC e Lula para o STF, é a expressão precisa de como o PT e o PSDB são semelhantes e agem da mesma maneira.  Os dois fazem a mesma coisa com regras cerimoniais próprias. Por exemplo, um político do PSDB jamais chamaria sua propina de “pixuleco”. Aécio chamou seu acerto financeiro com Joesley de “empréstimo”. Mas, no final, os maços de dinheiro são a mesma coisa.

N – O que a senhora espera que aconteça na Bahia de Todos os Santos e no Brasil de todos os demônios para que, se não se ufane, como o conde Afonso Celso, ou não se orgulhe, como os patrícios que ainda choram quando ouvem o Hino Nacional nos pódios olímpicos, pelo menos não tenha mais motivos para se envergonhar e até se enojar de nossa Pátria?

A – Eu não tenho a mínima ideia do que acontecerá com a Bahia nos próximos anos. A era oligárquica de ACM acabou. E foi substituída por uma oligarquia sindicalista que tem ACM como modelo. Os sindicalistas repetem todos os defeitos de ACM, mas como são limitados intelectualmente não conseguem repetir suas virtudes. O Estado sindicalista perdeu todas as conquistas dos anos 1990 em cultura e turismo, sob o comando de ACM. E não consegue avançar em nenhuma área. Temos algumas das cidades mais violentas do Brasil, nós que há 30 anos éramos conhecidos por nossa cordialidade. Alguns dos 417 municípios do Estado não produzem nada e sobrevivem de Bolsas Família. E não percebo projetos para alterar isso, infelizmente.

N – Que critérios a senhora usará para escolher um candidato em quem votar nas próximas eleições de outubro, se é que pode haver algum?

A – Se nenhum dos candidatos me convencer de que pode alterar esse modelo horrível que nos governa desde sempre, votarei em alguém com nenhuma possibilidade de vencer. Já elegi o PT. Não quero ser cúmplice, mais uma vez, da deriva do Brasil.

N – Sua experiência de lutas política e cultural lhe permite enxergar uma luz no fim do túnel ou o farol do trem descarrilado, quando o resultado das contestadas urnas eletrônicas indicar um começo de reconstrução das ruínas da crise total ou a caminhada cega do rebanho de ovelhas?

A – Não vejo nada que possa ser considerado recomeço nos políticos e nas políticas brasileiras neste momento. Mas percebo uma sociedade no fim do túnel, indignada, assustada, espoliada. E nela tem luz.

Aninha com a comerciante Socorro, vizinha  da biblioteca e da mesa de refeições de sua República Af, no Pelourinho. Foto: Acervo pessoal