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Bolsonaro, o Jim Jones do Vale do Ribeira

Presidente volta ao bolsonarismo de raiz em tentativa cega e desesperada de seguir seu vereadorzinho maluquinho para garantir passagem para o segundo turno na eleição de 2022

José Nêumanne

06 de abril de 2020 | 20h07

Um grupo de evangélicos comecou o Domingo de Ramos rezando no lado de fora do jardim do Palácio da Alvorada, residência oficial do presidente da República. Foto: Dida Samapio/Estadão

Exatamente no momento em que o total de vítimas mundiais do novo coronavírus chinês ultrapassou o primeiro milhão, Jair Messias Bolsonaro leva seu segundo prenome à condição de destino manifesto para pregar um novo tipo de fanatismo suicida, à Jim Jones: a troca da morte certa pela economia incerta. O exemplo é do pastor de Indiana (EUA) que levou milhares de devotos da seita que fundou, Templo dos Povos, ao suicídio em Jonestown, na Guiana, após o assassinato em Georgetown, capital do país, do parlamentar norte-americano Leo Ryan e mais quatro pessoas. Fê-lo ao levar um punhado de devotos a gritarem “amém” após cada frase que pronunciava à frente de sua residência, o Palácio da Alvorada.

A cena não foi tão pavorosa quanto o suicídio coletivo de 1978, mas pode ser caracterizada como uma comédia de terror se associada a diversos fatos que compõem a moldura de um quadro ao mesmo tempo ridículo e terrível (adjetivo de uso preferencial por nosso Messias para definir o que ele supõe ser algo imenso). O chefe do governo comemorou o Domingo de Ramos, que abre a Semana Santa cristã, jejuando e comparecendo a concentrações num templo evangélico e no limite do jardim da residência presidencial. Enquanto isso, a Nação que o escolhera legitimamente para comandar o destino coletivo de uma das maiores economias do mundo convivia com uma previsão macabra. No dia anterior, manifestando sua fidelidade às diretrizes do ministro da Saúde, nomeado por ele, o número 02 da pasta, João Gobbardo, dizia que não havia como “flexibilizar” as medidas de isolamento social que evitam a subida vertiginosa dos índices de contágio e morte da covid-19. E que Bolsonaro sabota.

No mesmo sábado, 4 de abril de 2020, o advogado-geral da União, André Mendonça, encaminhou ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes ofício em resposta à ação movida contra o Messias atual pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) exigindo que ele se submeta às diretrizes da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde, a ele subordinado. O texto do candidato que Bolsonaro em pessoa já lançou à vaga do decano da Corte, Celso de Mello, por ser (não esqueça) “terrivelmente evangélico”, chega a ser espantoso por reunir em letra de forma sobre papel timbrado a afirmação mais surrealista que o pastor da cabeceira de Dias Toffoli já produziu.

Duvida? Mas não faça pouco. Mendonça escreveu: “Ao contrário do que alega o autor [OAB], todas as medidas adotadas visam garantir as orientações não só do Ministério da Saúde, mas também da Organização Mundial da Saúde. Tais medidas também visam garantir o isolamento social necessário para evitar a rápida disseminação do novo coronavírus”. Afirmou ainda a AGU, em vernáculo deplorável: “Vale lembrar que o Poder Executivo é exercido pelo presidente da República, auxiliado pelos Ministros de Estado. Assim, todas as orientações do Ministério da Saúde advêm, e por isso encontram a chancela, do próprio governo federal”.

Em resumo, o advogado-geral, nomeado pela Presidência da República para defender a instituição na Justiça, mentiu de forma descarada e absurda. Pois, na semana encerrada no sábado, Sua Isolência (de isolado insolente), de posse de seus poderes messiânicos de profeta do primado da economia sobre a vida, em entrevista à Rádio Jovem Pan, avisou que tem à espera na mesa presidencial decreto encerrando as medidas de restrição de contato social assinadas por quaisquer prefeitos e governadores que apresenta como seus eventuais adversários, leia-se inimigos, em pleito a ser disputado daqui a dois anos e sete meses (!). Se tiver um mínimo de respeito pela própria reputação e pelas vidas que podem ser extintas se a comédia de terror do pastor presbiteriano Mendonça o convencer, e alguma noção do que significa a instituição mais alta do Poder Judiciário, Moraes não pode ter reação que não seja rasgar a mentira e determinar que se limite aos fatos, sob pena de ser preso por desafiar o mais alto tribunal.

A reação ao insulto à toga que o ministro enverga não pode deixar de levar em conta o fato de que o advogado-geral responde pelo presidente, mas não tem, por isso, permissão para mentir. Nem para matar. Pois as consequências dessa mentira infame em papel timbrado do mais alto Poder ao lado poderão resultar em pilhas de mortos que não terão sido socorridos a tempo por respiradores mecânicos comprados dos chineses e entregues aos ricos e poderosos americanos do norte.

Três dias antes da mentira lavrada em forma de defesa perante o STF, ou seja, 1.º de abril, tido pelo povo como dia da mentira, o espírito de porco de orelha do chefe do Executivo, seu filho 02, Carlos Bolsonaro, vereador do Rio de Janeiro, postou nas redes sociais a seguinte patoacada: o Brasil “partiu para o socialismo” com a crise causada pelo novo coronavírus. “O desenho é claro: partimos para o socialismo. Todos dependentes do estado até para comer, grandes empresas vão embora e o pequeno investidor não existe mais”, pontificou. No manifesto o vereadorzinho registrou que o momento faz parte de um plano da esquerda para introduzir o socialismo no País. “Conseguem a passos largos fazer o que tentam desde antes de 1964. E tem gente preocupada com a fala do presidente”. Talvez por ignorância, Chico Kafta (versão tupiniquim do genial romancista tcheco Frank Kafka, de acordo com a besta quadrada que o pai de Carlos nomeou para destruir a educação pelo poder da burrice) terminou por lembrar uma piada da época da ditadura militar, que, segundo seus críticos mordazes, não teria sido instalada em 31 de março, como se comemorou nestes 36 anos, mas no dia seguinte, o da mentira. O autor da afirmação mais estúpida que alguém poderia ter perpetrado a respeito de um assunto devastador em nenhum momento levou em conta a falta de leitos de UTI, kits de testes e respiradores que pode acontecer agora porque o amigão de sua famiglia, Donald Trump, sequestrou em Miami o avião da entrega do material, como se fosse uma diligência do faroeste.

Não estranhe o prezado leitor a súbita entrada neste texto de um mero vereador carioca num assunto mundial. Mas até os gansos do lago à frente do Itamaraty sabem que o gabinete do ódio, chefiado pelo menino maluquinho e Maquiavel das Vivendas da Barra, é o laboratório em que se destila o veneno das pregações do jardim do Alvorada. Sentado à mesa dos ministros ao lado do pai, o vereador é o mentor dos miasmas com que este se expõe e expõe a quem lhe grita “amém” em cultos de falsos cristãos, que não se dão ao luxo de amar, e a ridículas manifestações de apreço do povo em manifestações que nunca passam de 50 ratos pingados.

Em entrevista ao Globo, o líder indígena Ailton Krenak fez uma descoberta que iluminou a manhã que entrou pela janela do quarto onde, direto da quarentena, escrevo este texto. O tal do “isolamento vertical”, obra e desgraça de analfabetos virtuais, é uma manifestação virótica de alto poder de destruição da confiança e de vidas que está em perfeita conjunção com a manifestação de quem acredita que a Terra é plana e imóvel, a teoria da evolução das espécies de Charles Darwin é uma idiotice, vacinas matam, em vez de salvar, e a ciência é um engodo que não se pode sobrepujar aos cânones universais da fé dos vendilhões do templo. Batata, Ailton!

No momento em que 196 povos do mundo inteiro se fecham em casa para evitar a contaminação inexorável (e terrível, aí se aplica corretamente o adjetivo aterrador) do novo coronavírus, o Messias pelo avesso empunha a espada que lhe foi retirada quando saiu do Exército sem ter chegado a major, por um acordo de cavalheiros em que ninguém agiu com cavalheirismo. A grande diferença da metáfora com que abri este texto é que Jim Jones só levou ao suicídio quem acreditava na loucura dele. Os terraplanistas e criacionistas de hoje, incluindo o pastor Mendonça, serão vetores de um vírus que, como disse a especialista Lígia Bahia, da UFRJ, em entrevista a Cecília Dantas para a coluna de Sônia Racy no Caderno2, não faz distinção ideológica, política ou etária entre seus alvos. Os fanáticos adoradores de torturadores acham que serão poupados, mas a Terra não é plana, Darwin, assim como Freud e Galileu, estava certo e vacina, assim como isolamento social, salva vidas. Centenas de milhares aqui. Milhões nos Estados Unidos. Como Don The Kid avisa todo dia.

  • Jornalista, poeta e escritor

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