Bolsonaro não tentou intervir na PF, interveio

Acusado por Moro de tentar interferir na Federal, o presidente livrou-se do auxiliar e não teve mais de argumentar para usar instituição do Estado como canil de guarda dos filhotes

José Nêumanne

08 de novembro de 2021 | 23h17

STF ficou mais um ano para decidir se depoimento de Bolsonaro à PF seria presencial ou por edscrito e não resolveu até que o presidente resolveu mentir pessoalmente e não por escrito. Foto: Dida Sampaio/Estadão

A transcrição do depoimento do presidente Jair Bolsonaro no inquérito sobre suas tentativas de interferência política na Polícia Federal (PF), publicada no blog de Fausto Macedo, no Estadão, confirmou a denúncia original do inquérito, feita pelo ex-juiz da ex-Operação Lava Jato, Sérgio Moro. E foi coerente com várias ações do acusado, à exceção da “tentativa”. Ao usar a palavra, Moro condescendeu com o antigo superior.

Pois este nunca escondeu de ninguém que sempre quis nomear um “degê”, diretor-geral da PF, para proteger a si mesmo, seus filhos, parentes e amigos, conforme confessou na reunião de ministros de 22 de abril, revelada por decisão do ex-decano do STF Celso de Mello. A ideia, na verdade da deputada Carla Zambelli, foi repelida, escrita e gravada pelo então ministro, que lhe respondeu: “Prezada, não estou à venda”.

Tal depoimento, tomado sem assistência do submisso procurador-geral da República, Augusto Aras, nem da defesa do outro acusado (por “denunciação caluniosa”), cunhou o escambo negado pelo acusador e sem prova cabal do acusado. Certo é que a denúncia original resta comprovada pela “cibfussão” presencial do próprio chefe do Executivo.

A mentira também filia o presidente à tradicional prática do mercado persa, comum em nomeações para as cortes mais altas da magistratura e, no presente exemplo, também na direção de instituições de Estado, como a PF, usada como puxadinho dos negócios imobiliários da corte republicana, e não mais como o órgão de Estado, tal qual deveria ser. Exemplos não faltam. Meu artigo Lula limpo interessa a Bolsonaro, de 8 de março passado, tratou da anulação da Operação Castelo de Areia, obtida mediante promessa de Márcio Thomaz Bastos, ministro da Justiça do primeiro governo Lula, de uma vaga no STF ao então ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Asfor Rocha. A nomeação gorou, e o pagamento teve de ser feito em propina de R$ 5 milhões, segundo delação de Palocci à própria PF. A promoção de Asfor Rocha não saiu, porque Dilma Rousseff preferiu  Luiz Fux, também ministro do STJ, após ter este dito que iria “matar no peito” o processo do mensalão. O que não cumpriu, para felicidade geral.

Lembre-se, ainda, o caso do Regis Fichtner, o todo-poderoso chefe da Casa Civil no governo de Sérgio Cabral, atualmente preso e condenado a 332 anos de cadeia. O ex-governador indicou o cunhado de Regis Fichtner, Marco Aurélio Bellizze, ao STJ. No depoimento recente, que o STF hesitou em marcar e Bolsonaro o fez, admitiu a discussão com Moro sobre franquear a interferência na PF em troca de nomeação para o STF. Mais um caso de mercado persa confirmado, embora negado pelo interlocutor e nunca comprovado pelo acusador. É lamentável, mas é fato que nomeações para tribunais superiores são, sim, objetos de barganha! E aí está o próprio presidente que não nos deixa mentir, logo ele, ora vejam!

O fato, sobre o qual nem Bolsonaro conseguiria mentir aos indulgentes interrogadores de Paulo Maiurino, é que o ex-juiz não aceitou a tentativa de interferência, que o eventual interlocutor nunca negou, e saiu do Ministério da Justiça. E também é fato que Bolsonaro conseguiu o que queria; pois demitiu Maurício Valeixo da direção da PF, o que Moro não permitia, para indicar um amigo de seus filhos, Alexandre Ramagem. Este não assumiu a direção da PF, barrada pelo ministro do STF Alexandre de Moraes, atendendo a uma ação movida pelo PDT. Impedido de indicar o favorito, Bolsonaro nomeou o braço direito de Ramagem, Rolando Alexandre de Souza. E, então, mais um caso confirmou o uso indevido da polícia judiciária para atingir objetivos nada republicanos. Atualmente, Rolando Alexandre de Souza, substituído por Maiurino, é adido da PF na embaixada do Brasil nos Estados Unidos. E o outro chegou chegando, ao trocar o chefe da superintendência da PF no Rio, objeto de desejo do capitão, pois nela estão inquéritos contra o filho Jair Renan. É o caso de dois em um: mercado persa e aparelhamento da PF num lance só.

Enquanto isso, Moro veio para assumir candidatura à Presidência  da República, em 10 de novembro, como confirmou o senador Álvaro Dias em entrevista à Rádio Eldorado. As últimas pesquisas o apontam como o candidato mais forte entre os da terceira via a disputar a próxima eleição à Presidência da República. Em entrevista ao Estadão, o jurista Modesto Carvalhosa afirmou que o ex-ministro da Justiça é uma liderança natural evidente e que não vê ninguém no Brasil com suas características para servir de opção à polarização entre Lula e Bolsonaro.

De fato, o ex-juiz mostrou coragem ao enfrentar a corrupção e não cedeu ao desejo de Bolsonaro de aparelhar a PF, mesmo em troca de uma vaga no Supremo. Ele também é reconhecido internacionalmente, pois: em 2016, foi escolhido pela revista norte-americana Time personalidade do ano, com o papa Francisco, Angela Merkel e Jeff Bezos. Sem vínculos políticos com milícias nem filhos processados por extorsão de funcionários de seus gabinetes pela prática criminosa definida como peculato, ele combateu as empreiteiras corrupteiras e os propinodutos dos chefões dos bandos partidários. Não será fácil encontrar candidato mais credenciado do que ele para enfrentar a polarização do acordão, Centrão, PT, Lula e Bolsonaro.

Deltan Dallagnol se candidatará a deputado federal, e na campanha nos lembrará a importância do combate à corrupção. Juntos, Moro e Deltan são a esperança do Brasil. Duas andorinhas podem fazer um bom verão e ajudar a demolir o mercado persa de indicações a cortes superiores. Na certa, porão fim ao aparelhamento da Polícia Federal, e não ao retrocesso!

*Jornalista, poeta e escritor

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