Bolsonaro não para de matar e mentir

Após mandar à Câmara texto de MP devolvida como projeto de lei, presidente comeu pizza na calçada para desmoralizar vacina e diz estar economizando com comitiva de 15 para mentir na ONU

José Nêumanne

20 de setembro de 2021 | 20h18

Na rua em Nova York, Guimarães, Ramos, Bolsonaro, Machado, Queiroga, Rocha e Torres comem pizza real, que passa a ser metpafora do circo encenado pelo desgoverno. Foto: Reprodução Twitter

O presidente Jair Bolsonaro teme ver os filhos 02 e 04 assim como a segunda ex-mulher, Ana Cristina Valle, encalacrados em processos de crimes. E mandou ao Congresso uma medida provisória (MP) para dificultar o bloqueio de mentiras nas redes sociais. Este foi o resultado de a famiglia presidencial ter feito da patranha deformação retórica da liberdade de expressão. Onze dias depois, pressionado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e pelo procurador-geral da República, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, a devolveu, nela achando ofensa à Constituição.

No domingo seguinte, 19 de setembro, encaminhou à Câmara dos Deputados texto de projeto-lei idêntico ao recusado pelo Senado. Sabe-se que MP derrotada não pode ser repetida no mesmo exercício. Mas se trata de um projeto de lei, de tramitação mais lenta, ou seja, com tempo para convencer o eleitorado disposto a votar nele em outubro de 2022 (22%, segundo a recente pesquisa do Datafolha, 11% de “bolsonaristas de raiz”, conforme o pesquisador Mauro Paulino) a não permitir a entrada da tal terceira via na disputa com seu adversário favorito (e vice-versa) Lulinha Mensalão da Silva. Ato contínuo, embarcou para cumprir a missão de todo presidente brasileiro de discursar na abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova York, à qual levou comitiva de 15 pessoas à custa de famintos, contingente crescente com a pandemia nestes rincões.

Bolsonaro entrou no hotel que lhe foi reservado pela porta dos fundos para não ser humilhado por manifestantes chamando-o de “genocida” na porta da rua. Já houve no Brasil próceres mais ousados e elegantes. O condestável do governo do marechal Hermes da Fonseca, Pinheiro Machado, ao se deparar com uma manifestação de estudantes à porta do Hotel dos Estrangeiros, onde morava, no Rio, ordenou ao chofer que atravessasse a turba não tão veloz para não parecer poltrão nem tão lerdo para não revelar temor. Deu certo. Ulysses Guimarães empurrou um coronel e afastou as baionetas da PM baiana que, sob as ordens do governador Roberto Santos, ilustre ex-reitor da UFBA, tentou barrar sua caminhada com 400 homens armados, 30 viaturas e dezenas de cães das 14 às 20 horas. Só assim compareceu ao comício do MDB que presidia, ao lado de companheiros como o mineiro prudente, mas não covarde, Tancredo Neves, que me contou o inusitado de pronunciarem discursos violentos para o público limitado à soldadesca. Os meios de comunicação ecoaram suas palavras: “Violência estúpida, inútil e imbecil”.

A ceia de Bolsonaro foi pizza na calçada. Entre escudeiros escolhidos para o repasto estava Pedro Guimarães, presidente da Caixa Econômica Federal e conviva habitué de suas lives noturnas de quintas. Secretamente, a dupla deve ter comemorado a carta manuscrita do sogro do executivo, Leo Pinheiro, da OAS, contando que sua confissão de corruptor fora forçada pela Lava Jato e Sérgio Moro. A seu lado no flagrante, o general Luiz Eduardo Ramos fora apelidado por Ricardo Salles, ex-ministro do Mau Ambiente, de “Maria Fofoca”. No domingo 19, o intérprete de Mário Fofoca, Luis Gustavo, Tatá, morria em São Paulo.

À esquerda do capitão, fez pose o ministro do Turismo, Gilson Machado, sanfoneiro do grupo Brucelose, nome de febre bovina da qual o rebanho brasileiro foi declarado imunizado. Marcelo Queiroga, general Pazuello do bisturi, deixara no Brasil o vexame de não ter obedecida por ninguém sua ordem de não vacinar adolescentes sadios. A ordem partira do capitão das malícias, após tomar conhecimento de futrica disseminada na Rádio Jovem Pan por uma ex-jogadora de vôlei que mora nos EUA. O secretário de Assuntos Estratégicos, almirante Flávio Rocha, e o last but not least (“os últimos serão os primeiros”, reza o Evangelho) ministro da Justiça, Anderson Torres, prova bípede de que o ex-juiz Sérgio Moro tinha razão ao denunciar a interferência política pelo chefe do Executivo na PF.

A semana nem terminara quando ficou claro que a missão de paz do ex-presidente Michel Temer, segundo quem bastava um telefonema que ele patrocinaria do relator das misérias de famiglia e ex-famílias do você pode “Jair” se preparando para sair de cena e aí reinaria a paz entre os Poderes da república dos insensatos. Inglória vã! Enquanto o antecessor gargalhava ante excepcionais imitações do pupilo rebelde por André Marinho do capitão, do antecessor e de opositores como Ciro Gomes, o guerrilheiro do negacionismo negocista bombardeava todas as pontes que o telefonema não construiu com o ministro do STF Alexandre de Moraes. A MP da mentira autorizada, devolvida pelo Senado e feita lei da farsa celebrada para a Câmara do fâmulo Lira, e a defesa anunciada , do marco temporal das demarcações indígenas pelo alvo dos manifestantes da palavra de inflexão indígena Manhatã, da lavra do poeta maranhense Joaquim de Sousândrade.

Afinal, no Brasil da pizza pronta, economizar o dinheiro escasso do povo para desrespeitar leis sanitárias do país cujo presidente não reconhece (julgando que este teria fraudado as urnas) é o símbolo menos alentador  do atentado contra mais de 590 mil brasileiros mortos. Sabe o slogan da campanha publicitária da falsa dicotomia entre vida e emprego, que seu assecla Fábio Faria tinha bolado para o combate à pandemia do terrorista das bombas nos quartéis? “O Brasil não pode parar”. Sim, é claro. Ficou faltando o complemento: de mentir e de matar. Como lembrei na entrevista em que o jurista da CPI, Miguel Reale Jr., resumiu seu trabalho com a conclusão de que Bolsonaro usou a covid para exclusivos fins eleitorais. Batata, batuta!

*Jornalista, poeta e escritor

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