Bolsonaro envergonha o mundo todo

O presidente foi a Roma para “causar”, mas não aproveitou o G20 para persuadir os maiores líderes mundiais a acreditarem no Brasil e deu vexame generalizado para quem não é de sua claque

José Nêumanne

01 de novembro de 2021 | 19h05

Bolsonaro apenas passou por Roma sem azer nada de produtivo em Roma para receber título de cidadão honorário no lugarejo de Aguillara Veneto, onde seu bisavô nasceu. Foto: Piero Crucciatti/AFP

Jair Bolsonaro usou a reunião do G20 em Roma como escala do passeio de seu interesse na aldeia de Anguillara Veneta, de 5 mil habitantes, berço de seus ancestrais e onde, por isso, foi homenageado. Na parada, mostrou ao mundo que não se empenha em cumprir o juramento constitucional de governar para todos os brasileiros, incluindo quem lhe negou voto, pois não manteve nenhuma reunião bilateral com algum dos líderes dos outros 19 países que compõem o grupo. À exceção de Recep Erdogan, premiê da Turquia, 16.º lugar como nosso parceiro comercial, em 2020. E de Alberto Fernández, presidente da Argentina, contra quem fez campanha na última eleição, mesmo sendo nossa vizinha e o quarto destino de nossas exportações, em queda desde que ele assumiu.

Antes de chegar à embaixada brasileira, no Palácio Pamphilj na Praça Navona, uma funcionária da Globo foi hostilizada por um grupo de seus admiradores e salva de agressão por um repórter da BBC. À saída do prédio histórico para um passeio de dez minutos, ele protagonizou um episódio inusitado, conforme o repórter do UOL Jamil Chade, com 21 anos de coberturas em 70 países: um de seus guarda-costas socou o estômago do correspondente local da GloboNews, Leonardo Monteiro. Outro agente empurrou a repórter da Folha de S.Paulo Ana Estela de Sousa Pinto, para forçá-la a se retirar do lugar, que é público. O terceiro jogou no chão o celular com que Chade filmou a confusão e também o vexaminoso isolamento do capitão reformado na reunião dos governantes.

A Erdogan, como ele candidato permanente a ditador na periclitante democracia turca, Bolsonaro disse que a economia brasileira vai bem e que ele próprio é muito popular. No jantar, ao lado da chanceler alemã, Angela Merkel, tratou dos 7 a 1 sofridos pela seleção brasileira no Mineirão, há sete anos. Não faltaram temas para qualquer candidato a descrever o festival de besteiras, da lavra de Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta. Caso da resposta malcriada dada ao correspondente da Globo, que questionou duas vezes a agressão dos seguranças aos jornalistas e a razão de sua ausência na reunião do G20: “É da Globo? Vocês não têm vergonha na cara…” Enquanto os outros participantes da reunião conversavam sobre a semana de trabalho em Glasgow na reunião sobre emissão de gases tóxicos que causa elevação da temperatura no planeta, à qual faltará, Bolsonaro perguntou aos garçons, interlocutores a seu alcance, se eram italianos. Um dos interpelados assentiu.

A conclusão unânime e óbvia de que Bolsonaro apresentou ao mundo que nos cerca seu isolamento é, contudo, parcial. O Brasil inteiro o está. E nem todos deram a cara à tapa ou à pedrada na Escócia, como contemporizou seu vice, Hamilton Mourão, como ele general e também admirador da ditadura militar e do torturador e assassino coronel Brilhante Ustra. O terrorista que planejou bombardear quartéis e a adutora do Guandu é mantido no poder pela indulgência comodista desse mesmo vice, aposentado como marechal sem nunca ter participado nem da guerra folclórica de fogos em Barra, no sertão da Bahia. E, mais ainda, pelo procurador-geral da República, Augusto Aras, que faz a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no Senado e o Supremo Tribunal Federal (STF) de tolos anunciando um inquérito “preliminar”, ou, melhor, “me engana que eu gosto”, sobre nove indiciamentos numa e processo infinito noutro contra a óbvia interferência política na Polícia Federal (PF). Bolsonaro é o nada bobo de uma Corte de cujas regalias usufruem o Centrão e seus líderes máximos, Arthur Lira e Ciro Nogueira, e o do desgoverno na Câmara, Ricardo Barros.

Mas nosso presidente, eleito legitimamente pelo voto popular, não é apenas uma vergonha para o País que desgoverna e destroça. E, sim, para o mundo inteiro, onde franceses e norte-americanos rejeitam a vacina contra covid por acreditarem nas mesmas lorotas com que ele a recusa na condição de charlatão-mor da República. E a respeito do qual o uruguaio Julio Sosa resumiu com precisão e argúcia no tango Cambalacho: “Que o mundo foi e será uma porcaria, eu já sei, no ano de 510 e no 2000 também”.

O ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega lembrou na  Nêumanne Entrevista, editada esta semana no Blog do Nêumanne no portal do Estadão, mais um motivo funesto dessa trapaça geral, ao afirmar: “O melhor pro Brasil é a PEC dos precatórios não ser aprovada, pois criou calote infinito, é inconstitucional e foi muito piorada pelo relator.”

Felizmente, contudo, como lembrou o protagonista de Dois Dedos de Prosa, o artista plástico Dolino, ainda resta uma réstia de esperança. “Uma vez me perguntaram quais eram meus ídolos. Então, me reportei a uma fotografia da passeata dos 100 mil reunindo o quarteto João da Baiana, Clementina de Jesus, Pixinguinha e Donga. Estes me representam. O Brasil tem uma sensibilidade que em nenhum outro lugar há. Uma estrela que brilha. Nós fracassamos, mas seu filho Artur e meus netos vão nos levar adiante”. Que Deus, tido, mas não comprovado, como brasileiro, ouça Dolino!

*Jornalista, poeta e escritor

João da Baiana, Clementina de Jesus, Pixinguinha e Donga durante a Passeata dos Cem Mil contra a censura e ditadura militar. Foto: Evandro Teixeirea/Jornal do Brasil/ 1968

 

 

 

 

 

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