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Bolsalulismo e obscurantismo desabam abraçados

Voto afundou pacto secreto, sinistro e sórdido de Bolsonaro e Lula para serem levados pelo eleitor a disputar, sem intrusos, segundo turno de 2022 em benefício de um ou de outro

José Nêumanne

30 de novembro de 2020 | 21h45

Maia não descolou de Paes na comemoração da vitória sobre Crivella, em quem Bolsonaro votou, exibindo o aumento do cacife nas eleições para continuar bancabdo governo na Câmara. Foto: Wilton Jr./Estadão

 

O “acordão” secreto do corrupto condenado em segunda instância Lula da Silva com o presidente Jair Bolsonaro para chegarem ao segundo turno de 2022, um acreditando garantir a própria vitória e contando com outro como adversário perfeito, sobrevive na UTI após as eleições municipais do domingo 29. Bolsonaro nomeou os petistas Augusto Aras na Procuradoria-Geral da República e André Mendonça no Ministério da Justiça e indicou outro, Kassio Nunes Marques, para o Supremo Tribunal Federal (STF) para facilitar a ascensão do Partido dos Trabalhadores (PT) ao segundo turno da eleição presidencial de 2022. E Lula espera chegar lá conquistando a ficha limpa em julgamento no STF. Ou para tanto indicar, caso isso não seja viável, um poste, como Dilma Rousseff em 2010 e 2014 e Fernando Haddad em 2018. Os dois lados do abjeto cambalacho, contudo, perderam feio nas últimas disputas eleitorais municipais.

O PT, que, em 2016, só tinha vencido uma eleição em capital agora deixaou claro que a estratégia única do “Lula livre” foi suicida: não elegeu prefeito em capital nenhuma. Jilmar Tatto, candidato do partido, repetiu o fiasco anterior de Fernando Haddad, não disputando o segundo turno em São Paulo. Marília Arraes, neta do doutor Miguel, levou uma surra de votos do primo João Campos, bisneto do patriarca da esquerda nacional. Já o chefe do Executivo federal, que ainda não dispõe de um partido para chamar de seu, objetivo cumprido por qualquer borra-botas no Brasil, cometeu crimes eleitorais protagonizando lives em palácio para 16 candidatos, e só elegeu quatro, um quarto, nenhum em colégio eleitoral que pudesse avalizar o delírio de sua reeleição. Na única vitória de um bolsonarista em capital, Vitória (ES), Delegado Pazolini, Clio, deusa irônica da História, reservou o malogro ao petista histórico João Coser.

Em São Paulo, numa de suas amostras grátis de “arrognância” (junção de arrogância com ignorância, criada por Roberto Campos), o chefe do governo federal adotou como favorito o “cavalo paraguaio” Celso Russomanno, No primeiro turno, este chegou em quarto lugar e, ao perder para Covas, Boulos e o ex-governador Márcio França, repetiu a tradição de partir na cabeça e acabar na rabeira. No Rio, Bolsonaro dobrou a aposta e ficou no placê com a tunda imposta pelo ex-prefeito Eduardo Paes, do DEM. Os vencedores no Rio e em São Paulo fizeram questão de inovar e comemorar a vitória com discursos lembrando a principal causa do fiasco do chefão da extrema direita nos dois maiores colégios eleitorais do País. Não será fácil sequer chegar ao segundo turno em 2022, embora eleições municipais não decidam a presidencial, posterior.

O prefeito reeleito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), teve a seu lado a aposta do capitão de milícias no adversário a destruir, o governador João Doria, que durante a campanha, por causa da própria rejeição, foi mantido a discreta distância. No discurso triunfal, este lembrou as vitórias do PSDB, legenda dos dois, no Estado mais populoso do País. E o vencedor do domingo 29 deu um tom nacional a seu primeiro discurso após o anúncio do resultado da apuração. Nele fez críticas indiretas ao presidente Bolsonaro, dizendo que os paulistanos derrotaram o “obscurantismo e o negacionismo” e votaram “a favor da ciência”. Parece uma análise correta num discurso promissor. Além da garantia de continuidade da política de combate à pandemia, apoiada pelo povo no voto, o neto do patriarca tucano Mário Covas previu: “Restam poucos dias para o negacionismo e o obscurantismo”. Isso, é claro, dependerá de confirmação na campanha presidencial de 2022. “É possível fazer política sem ódio, falando a verdade”, disse, em outra investida sobre o “mito”, mas adiou para depois da apuração a decisão de retroceder medidas de reclusão dos cidadãos depois do recrudescimento do contágio da covid 19. L

Paes atirou em outra evidência contra o presidente, que votou em Crivella: “Nós passamos os últimos anos radicalizando a política brasileira e contestando aqueles que exercem a atividade política, e os resultados desse quadro de extremos, de divisão, não fez bem aos cariocas nem aos brasileiros. Essa eleição manifestou uma força muito grande daqueles que exercem a atividade política, a gestão pública”.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, chefão do DEM e do Centrão bolsonareiro, deu uma de papagaio de pirata para aumentar o próprio cacife e da trupe no apoio ao governo federal, ao lado do vencedor. Embora o flagrante de que a politicagem continua reinante na política brasileira em geral e na fluminense em particular, não se pode omitir, no caso, que a aposta de Bolsonaro em Crivella foi a decisão mais estúpida da história política brasileira, e logo em seu domicílio eleitoral.

Ao agradecer em idioma parecido com o português, imitando o PT, o candidato do PSOL à Prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos, foi elogiado por seus simpatizantes nos meios de comunicação por ter cumprido o protocolo de cumprimentar o vencedor. E também agradeceu às “duas milhões de eleitores” (sic) que o sufragaram nas urnas. Nos cursos universitários citados nos perfis da campanha, seu professor de Português deve ter sido Lula ou Bolsonaro. Mas, infelizmente, isso importa pouco num cenário em que pouquíssimos líderes políticos falam um vernáculo escorreito. Mais importante será destacar o esquecimento da matemática dos analistas da esquerda, omitindo o fato de que o vencedor lhe impôs uma derrota histórica de quase 20 pontos porcentuais, um capote, como se dizia em meus tempos de péssimo jogador de vôlei no seminário em Campina Grande. De fato, 59% a 31% é uma diferença acachapante. As análises que falam do derrotado como líder de uma nova esquerda são, portanto, lorota de tontos. Parodiando pelo oposto o sucesso de Luiz Gonzaga, popularizado por Sílvio Santos: “que mentira, que lorota má”.

*Jornalista, poeta e escritor

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