Até sempre, Mimi

Até sempre, Mimi

Na véspera do Dia do Trabalho, uma récita à altura no Theatro Municipal: La Bohème, de Giacomo Pucini

José Nêumanne

03 de maio de 2016 | 16h03

 

No Municipal sábado 30, com Bel

No Municipal sábado 30, com Bel

Domingo 1º de maio de 2015

La Bohème, de Giacomo Puccini, no palco do pomposo, mas aconchegante, rebuscado, mas confortável Theatro Municipal de São Paulo na véspera do Dia do Trabalho, com maio chegando. Tenho motivos para achar maio o mais bonito dos meses aqui, mas é melhor não contar por quê. Nada mais propício. Excelente música, encenação bonita no melhor palco da maior e mais trabalhadora cidade da América do Sul, cenário da Semana de Arte Moderna de 1922, que completará um século daqui a pouco, em seis anos. Noite fria de sábado, depois de torrar a moleira no outono mais quente desde que se começou a medir diariamente a temperatura, lá pelos anos 1940, antes de Isabel e eu termos nascido, portanto.  Magnífica ocasião de apresentá-la ao bel canto e ao solene e soberbo edifício de Ramos de Azevedo. Grande noite! Eu já tinha visto uma encenação do mesmo espetáculo no palco dos palcos da ópera mundial: o Scala, de Milão. Não dá pra reclamar de uma ópera na Lombardia de Verdi, mas acho que a encenação adaptada ao cenário contemporâneo meio que forçou a barra para esclarecer que aquele foi o primeiro libreto a ter protagonistas que não eram ricos, nobres ou moradores do Olimpo ou dos céus de magenta. A opção certa foi a clássica montada em Sampa, acho eu. Mas este é assunto pra pedir auxílio ao universitário que entende tudo do gênero, JB Natali Jr., duas vezes colega do casal, professor como Isabel e jornalista como eu. Os figurinos, o cenário e a iluminação ajudaram mais a marcar o pioneirismo da mudança da cena aristocrática ou mítica para a vida proletária do que a modernização do entrecho. Isso, contudo, não é importante. Mais importa saber que ver de novo, na companhia de uma mulher linda, fascinada e fascinante, foi uma opção pra nunca mais esquecer. Na plateia, Airton Soares lembrou quando saiu do PT pelo pecado de achar Tancredo diferente de Maluf, o que era óbvio pra todo mundo menos pra Lula, que o expulsou do partido só porque ele não era cego, assim como os outros dois parceiros de boa visão, Bete Mendes e Zé Eudes. O passado da vida nas mansardas da intelligentsia pobre na Paris do fim do século 19 combinou com o passado que explica a natureza stalinista do partido que deixou de ser dos trabalhadores e merece hoje se dizer pertença de empreiteiros acusados de roubar o povo. O duplamente conselheiro Roquinho Citadini, do Tribunal de Contas do Estado e do Corinthians, também presente, lembrou, comovido, que Puccini foi pioneiro das trilhas sonoras de Hollywood, pois sua orquestração operística foi emulada pelos Henry Mancinis e Dimitri Tiomkins da vida. Melhor terminar com esta observação do que insistir na óbvia vertente autoritária dos ocupantes do poder na República, até porque já são quase ex, não é mesmo? Cai o pano neste texto. Até sempre, Mimi.

 

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