As lições do dilúvio paulista

Chuvas só matam e destroem o patrimônio dos pobres, porque estes vivem ao desabrigo de gestores do Estado, que nos governos apenas dilapidam recursos públicos e nunca trabalham para o bem do povo

José Nêumanne

31 de janeiro de 2022 | 21h12

Com ajuda de voluntários, bombeiros procuram por vítimas onde ocorreu um deslizamento no bairro de Parque Paulista, em Francisco Morato, na divisa com a cidade Foto: Werther Santana/Estadão

Existe um povo que a bandeira empresta pra cobrir tanta infâmia e cobardia e deixa-a transformar-se nessa festa em manto impuro da bacante fria”. Esses versos magníficos foram escritos pelo maior gênio da poesia brasileira e um dos maiores da língua portuguesa de todos os tempos, o baiano Castro Alves, no seu clássico protesto contra o tráfico de escravos negros da África para o Brasil. Essa manifestação de mágoa e raiva bem que poderia servir de epígrafe para o noticiário recorrente dos últimos dias sobre as inundações que enlutaram várias famílias na periferia do maior e mais rico centro urbano do Brasil, a Grande São Paulo.

O nome do santo dado ao burgo vem a calhar neste comentário, que busca demonstrar com a lógica plana das palavras simples por que esses desastres sazonais só atingem as orlas das grandes cidades. E passa ao largo dos bairros urbanizados, em que funcionam as leis do zoneamento, a malha viária é coberta de asfalto e as residências têm solidez suficiente para não desabarem quando submetidas à carga pesada das precipitações pluviométricas usuais. Afinal, o prenome do apóstolo de hábito é associado ao de outro mártir das origens do cristianismo, São Pedro, o modesto pescador da Galileia, que se tornou na capital do império romano o primeiro papa e ao qual é atribuído pela fé popular o atributo de comandar relâmpagos, trovões e tempestades. Assim como nos idos de antes de seu Cabral, os primeiros habitantes do Brasil, os aborígenes nativos, veneravam o maior de seus deuses, Tupã. E este seria o encarregado simbólico de cuidar da irrigação dos plantios e da navegação dos rios. Teriam o simplório Pedro e o iracundo Tupã algum tipo de preconceito social, que os faria punir os desvalidos e poupar os beneficiados da sorte e da fortuna?

Não, não e não. Os fenômenos naturais obedecem a rigorosas leis físicas, que não se submetem à seleção de localização de seus resultados. Os temporais de verão, periódicos em qualquer lugar, nos pobres sertões da Bahia ou no abonado alto de Piratininga, repetem-se como o nascer e o pôr do sol e se têm agravado pela forma agressiva como o bicho homem castiga a mãe natureza com sua cobiça e sua crueldade. Sem distinção de hora ou lugar. O que explica as tragédias repetitivas das estações chuvosas nos sertões de Minas Gerais ou na Serra do Mar nos arrabaldes do Rio são os deslizamentos de blocos de pedras e lama sobre casas e ruas improvisadas pelos desvalidos da sorte que se instalam em bairros sem lei nem ordem e em municípios, Estados e neste País, em que os gestores governamentais se dedicam exclusivamente a pilhar os orçamentos que lhes cabe administrar. Em vez de cuidarem daqueles que trabalham muito, pagam quase tudo o que ganham de salário ou seguro desemprego em impostos  e não têm direito sequer à retribuição de um ordenamento urbanístico humano e justo. Os abastados também são esfolados pelos que se servem do Estado, em vez de servirem à sociedade. Mas suas posses lhes permitem gozar de benefícios que custam caro, como o planejamento viário e a racionalidade no uso do solo. Os pobres, que não têm renda para comprar onde morar, se instalam em morros que deslizam sob fortes precipitações pluviais. Vendem barato seus votos e pagam tributo aos exploradores da boa-fé que circulam nas comunidades como ratos. E, quando a chuva desaba em consequência da agressão ao meio ambiente, eles não têm a quem cobrar a parte que lhes cabe na lei tácita que vige para suas moradias: a do fato consumado. As autoridades, cada vez mais dedicadas à pilhagem do erário, correm atrás dos holofotes da TV e das redes sociais para anunciarem ajuda aos desabrigados e a famílias despedaçadas pela incúria própria e pela infâmia de quem se diz seu representante. Aproveitam para inculpar gestores anteriores, que quase sempre são eles próprios ou seus parentes ou associados. E apelam frequentemente para o excesso das precipitações, a meia verdade que não consegue esconder a falta de vergonha de todos eles, seus partidos e as instituições, esfoladas sem pudor.

É comum nas entrevistas encontrar quem lamenta a exiguidade das verbas disponíveis para os programas assistenciais. No entanto, o dinheiro público, aplicado torrencialmente no Fundo Partidário ou no Eleitoral, e agora mais ainda nas emendas RP 9, ditas do relator, não é empregado numa política habitacional digna desse nome para zerar o déficit ou no marco do saneamento básico, adiado sine die para os sem futuro à vista.

Os dilúvios paulistanos deste verão, contudo, coincidem com as notícias trágicas do desmatamento a galope solto da Serra do Mar e da Floresta Amazônica. E mais ainda: mesmo durante a pandemia, com a economia paralisada pela sanha do novo coronavírus, a arrecadação trilionária dos impostos federais alcançou o topo. Superando todos os anos tidos antes como de mais bonança. E daí? O dinheiro não é usado para propiciar o direito do trabalhador de baixa renda a um lar decente, mas, sim, para cevar as contas bilionárias em paraísos fiscais de políticos e burocratas que pertencem à cada vez mais seleta casta dominante daquilo que os russos apelidaram de nomenklatura.

A covid-19 fechou as escolas para os pobres e abriu estádios para os milionários do corrupto futebol nacional. E a revelação do escândalo do orçamento secreto, que financia o pacto entre os corruptos da esquerda e da direita, é tratada como galhofa. De que adianta a liberdade de informação, expressão e opinião se nem o óbvio que ulula chega a ser revelado? Estas são as lições dos dilúvios sem Noé deste País sem lei e com seletos donos.

*Jornalista, poeta e escritor

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