A República da desgraça
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A República da desgraça

Ao anunciarem fim da crise com 1% de crescimento do PIB, Temer e Meirelles riem de desempregados

José Nêumanne

05 de junho de 2017 | 10h45

Temer e Meirelles comemoram fim de uma crise que ainda desemprega 14 milhões Foto Marcos Corrêa/PR

Ao ver as fotos do presidente Michel Temer e do ministro da Fazenda, Henrique Meireles, gargalhando a bandeiras despregadas, ocorreu-me que eles estavam rindo de mim e de vocês todos que me ouvem. Os mais de 14 milhões de desempregados não têm motivos para rir. E os empresários que não dependem de bajular o governo, qualquer governo, para sobreviver, sabem que a comemoração de ontem não é apenas injustificável, como também é irresponsável. Um presidente e um ministro não têm o direito de tratar assunto de tal relevância como se fosse uma piada de ocasião ainda na vigência da maior crise moral, política e econômica pela passa esta nossa República da desgraça.

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Abaixo, a degravação do comentário na íntegra:

Eldorado 2 de junho de 2017 Sexta-feira

Deu pra perceber que ontem foi um dia histórico, porque todo mundo sentiu que realmente acabou a recessão no Brasil depois de dois anos?

Pois é. O presidente Michel Temer e o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, sorriram muito e anunciaram que, enfim, a recessão acabou. Temer o fez através do Twitter, adotando o estilo Trump. Tudo porque a alta do PIB após oito trimestres seguidos no vermelho, para eles, cravaria o fim da recessão – a mais longa da história do País. Eles festejaram a atividade econômica cresceu 1% em relação ao trimestre anterior, marcando a primeira expansão trimestral na margem do Brasil após oito períodos consecutivos de contração. Não é o que pensam economistas, que ponderam que esse resultado deve ser analisado com cautela e que o ritmo da recuperação ainda é incerto, sobretudo com a crise política desencadeada com as recentes delações da JBS. Logo após a divulgação dos resultados do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre de 2017, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), Temer escreveu em sua conta no Twitter às 9h25m Acabou a recessão! Isso é resultado das medidas que estamos tomando. O Brasil voltou a crescer. E com as reformas vai crescer mais ainda”. Vamos ouvir o que ele disse?

SONORA 0206 TEMER

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, em nota, classificou o dia como “histórico”. “Depois de dois anos, o Brasil saiu da pior recessão do século”, afirmou.

Como lembra Anna Carolina Papp, do Estadão, o Brasil entrou na chamada recessão técnica no segundo trimestre de 2015, quando acumulou dois trimestres consecutivos  de queda do PIB. Economistas explicam, porém, que a “dobradinha negativa” não é a única premissa utilizada para identificar uma recessão econômica – e tampouco o seu fim.

Segundo o critério utilizado como base pelo Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), seriam necessários dois trimestres consecutivos de PIB positivos para caracterizar uma reversão do quadro recessivo. “Esse é um critério técnico, uma regra de bolso, mas que não necessariamente é um bom instrumento de datação. Pelo seguinte motivo: recessões e expansões são caracterizadas por aumentos e quedas no nível generalizado de atividade da economia”, afirma Paulo Pichetti, coordenador do IPC Brasil do Ibre-FGV e membro do Codace. Para exemplificar que o resultado do PIB não deve ser utilizado isoladamente como critério, ele relembra a datação do atual ciclo de crise econômica, que se iniciou oficialmente pelo Codace no segundo trimestre de 2014 – embora o perído tenha sido seguido por dois outros trimestres de estabilidade antes que se iniciasse a longa sequência de contrações.

Ao ver as fotos do presidente e do ministro sorrindo, ocorreu-me que eles estavam rindo de mim e de vocês todos que me ouvem. Os 14 milhões de desempregados não têm motivos para rir. E os empresários que não dependem de bajular o governo, qualquer governo, para sobreviver, sabe que a comemoração de ontem não é apenas injustificável, como também é irresponsável. Um presidente e um ministro não têm o direito de tratar assunto de tal relevância como se fosse uma piada de ocasião.

Nesse assunto, baseio-me muito mais em opiniões como a publicada pelo jornal britânico Financial Times, que ontem avaliou que a economia brasileira se recuperou, sim, no primeiro trimestre, de sua recessão mais profunda, mas analistas consultados pelo periódico alertam que a turbulência política significa que a maior economia da América Latina não está totalmente fora do perigo da depressão.

No Brasil, respeito muito a opinião reproduzida no Estadão de hoje do professor de economia da USP Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central e membro do Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace), da FGV, que estabeleceu oficialmente o início da atual crise econômica no segundo trimestre de 2014. Para ele, é “extremamente prematuro” analisar o resultado como evidência para o fim desse ciclo, tanto sob o ponto de vista técnico quanto em uma análise mais ampla do cenário econômico. Temer está agarrando em fio desencapado para escapar da queda, que parece inevitável desde um dia, este sim histórico, 17 de maio de 2017, quando explodiu a bomba H da Lava Jato sobre a faixa presidencial com a revelação da conversa nada republicada dele com o bandidinho Joesley Batista, da JBS, nos porões do Palácio do Jaburu.

Você não está sendo excessivamente severo com o presidente, que tem afirmado que luta para permanecer no poder para manter as conquistas da luta pela recuperação das contas públicas empreendida em um ano de governo exatamente para afastar a nefasta herança de sua antecessora deposta em 12 de maio, Dilma Rousseff?

Reconheço que muita gente boa, com as melhores intenções e as pretensões mais positivas e sinceras, teme, com todas as razões do mundo, que uma nova substituição do presidente pela terceira vez em 25 anos, tendo sido a última em 12 de maio passado, possa provocar uma situação terrível, principalmente para os mais pobres que sofrem mais os efeitos da recessão. Mas este não é o caso do presidente. Michel Temer se comportou de forma indefensável ao receber um empresário confessadamente corrupto como o marchante de Anápolis que virou tranchã da proteína animal no mundo. Recebeu-o em casa, ouviu dele os maiores absurdos, permitiu explicitamente que ele usasse seu nome para pressionar o ministro Meirelles, que agora o acompanha na aventura da tentativa de permanência no poder, que ele desprezou, para facilitar pleitos ilícitos dele no Cade e no BNDES e até agora não conseguiu desfazer a impressão geral que se locupletou e que jogou no lixo uma oportunidade rara de entrar para a História como o presidente breve, mas profícuo que tirou o País do atoleiro para permitir que todos nós lutássemos para recuperar o que perdemos por culpa das gestões desonestas e desastrosas de seu ex-aliado Lula e da ex-titular duas vezes de sua chapa na disputa eleitoral, Dilma Rousseff. Agora Temer está perdendo outra oportunidade, a de sair com o mínimo de dignidade do posto que ele desonrou permitiu uma saída menos traumática para os brasileiros honestos que não recebem emissários com malas de dinheiro nem têm, por isso mesmo, porque cair nesse conto da carochinha segundo o qual algo não ocorreu porque a qualidade da gravação que prova essa ocorrência é precária, segundo um perito pago para dar essa opinião. Não se espera dele que comemore um sucesso que ainda não alcançou, mas que peça para sair, já que não consegue explicar tintim por tintim tudo o que fez e a Nação ficou sabendo de forma brusca e surpreendente. Em vez disso, ele nomeou um ministro da Justiça arrogante e trapalhão para defendê-lo no julgamento da ação contra a chapa de que fez parte em 2014 na maior fraude eleitoral de nossa História. Não dá pra ser condescendente. Como, por exemplo, o é o ex-ministro dos governos Dilma, de quem Temer foi vice, e ex-governador da Bahia, Jaques Wagner, que aparece no noticiário do Estadão declarando: “Se for para ter eleição indireta, o Temer tem mais legitimidade do que qualquer outro porque, querendo ou não, ele estava na linha sucessória da Presidência”, disse o ex-ministro.”Ele era vice. É lógico que traiu a Dilma, mas era vice”.Segundo ele, no Brasil não vigora um regime parlamentarista para trocar de presidente “de seis em seis meses” por conta da impopularidade do chefe de Estado.

Cinismo por cinismo, truco, é? Comigo não, violão!

Por falar em cinismo, o que achou de Lula dizer que a Lava Jato é uma “palhaçada”?

O que dá pra sorrir dá pra chorar, já dizia o sambista, meu amigo. “Problema de peso e medida, problema de hora e lugar, tudo são coisas da vida”. Ontem, primeiro dia do Congresso Nacional do PT, em Brasília, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que “já provou sua inocência e, agora, é a hora de a Lava Jato provar a culpa dele”. O petista, que é réu em duas ações penais e alvo de uma denúncia no âmbito da operação, disse ainda que é preciso “parar com essa palhaçada”. Em discurso que durou mais de 40 minutos, quase um tempo de um jogo de futebol, ele declarou: “Eu acho que está chegando o momento de parar com palhaçada neste país. Este país não comporta mais essa destruição de achincalhamento” Eu podia pedir para o almirante Nelson Wouther tocar aí a gargalhada do Rabugento Mutley. Ou que eu mesmo fiz no Roda Viva temático E agora, Brasil? na segunda-feira passada quando outro petista, o deputado Vicente Cândido, relator da reforma política, garantiu que os governos que mais combateram a corrupção no Brasil foram o do próprio Lula e o de Dilma. Lula também chamou Joesley de “canalha”. “Um canalha de um empresário disse que fez uma conta para mim e outra para Dilma, mas a conta está no nome dele e é ele quem mexia na conta”, disse. O petista também aproveitou para falar sobre o senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG), citado por Joesley e alvo de investigação no Supremo Tribunal Federal. “Aécio plantou vento e colheu tempestade.” Não vou gargalhar nem pedir pra tocar o Mutley em respeito às maiores vítimas da mentira e do cinismo de Lula. Pois, afinal, se os irmãos Batista são canalhas, como ele diz, como explicar o fato de que se tornaram os maiores produtores e vendedores de proteína animal com dinheiro público de empréstimos de avô pra neto do BNDES concedidos em troca de propinas para ele e seu partido, ele é o quê? E não entendi uma coisa: Joesley é canalha quando falou dele e Aécio é culpado, e ele não? Francamente, é pra chorar. Rir talvez só das fotos que acabo de ver no postal do Estadão dos dois responsáveis por nossa desgraça, mais do que Temer, seu antigo aliado e, nunca é demais repetir, maior responsável pelo fato de Dilma ter chegado duas vezes ao segundo turno, rindo e abusando dessa desgraça. Olha só o que a presidenta marrenta disse em Brasília com aquela cara de deficienta, flagrada implacavelmente por nosso colega fotógrafo Daniel Teixeira, do Estadão: “Estamos assistindo a esse processo completamente descontrolado e ninguém pode dizer que não estava claro que o que foi gravado não era de conhecimento das instituições de investigação”, afirmou Dilma, numa referência às delações da JBS. Entendeu? Nem eu.

Por falar em Joesley, você conseguiu descobrir quem ameaçou a vida dele e, por isso, o Ministério Público lhe concedeu a graça de morar em Nova York?

Ontem, Haisem, eu citei o editor-executivo do Estadão, Alberto Bombig, que disse no Conexão que o melhor repórter do Brasil era Fausto Macedo. Como concordo com Bombig em gênero, número e grau, perguntei ao Fausto se ele sabia quem ameaçou os Esleys Safadões de morte. Até hoje ele não soube quem foi, seja oficialmente da Polícia Federal e dos procuradores, seja de alguma fonte, e ele tem muitas entre os investigadores. Você não acha que as pessoas que ameaçaram os irmãos Batista já deviam ter sido identificadas, denunciadas e até presas? Por que até agora isso não aconteceu? Vou deixar essa pergunta no ar com o encerramento da semana e pedir ao Nelson para tocar um dos sambas mais lindos da música brasileira,

SONORA O que dá pra rir dá pra chorar Originais do Samba

https://www.youtube.com/watch?v=TtOrGiGVY_8