A hora de deter Bolsonaro é já

O capitão espalhou provas de charlatanismo e peculato pelo caminho e insiste em proclamar seus planos de pôr fim ao Estado de Direito com projetos como o da impressão do voto

José Nêumanne

05 de julho de 2021 | 18h41

Áudio de ex-cunhada no segundo casamento de Bolsonaro, revela que a prática da extorsão de funcionários-fantasmas pela famiglia vem de longe e o filho é seguidor de velhos hábitos de papai. Foto: Fábio Motta/Estadão

Jair Bolsonaro tem muitos defeitos e nunca fez questão alguma de esconder nenhum deles. Ao contrário. Sempre se orgulhou de todos e foi por causa deles que prosperou na política profissional a ponto de haver chegado ao topo da carreira depois de 28 anos chafurdando no mais baixo e podre clero. Foi obrigado a sair do Exército como capitão, depois de proibido pela mais alta chefia de frequentar a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (Esao), cuja conclusão lhe daria acesso ao menos às dragonas de major. Mas foi trilhando as veredas sórdidas do terrorismo e da indisciplina que manteve sua cadeira de parlamentar, que lhe permitiu participar da deposição de dois presidentes da República, Fernando Collor e Dilma Rousseff, aproveitando para louvar a instituição que o desprezou no primeiro. E glorificar o torturador e assassino coronel Brilhante Ustra no segundo, exaltando em seu voto o apreço à covardia e o desamor à vida, não a própria nem a dos mais próximos, mas a dos outros mais distantes.

Conquistou o posto máximo no comando do que acha ser seu “povo eleito” desafiando a democracia, a elegância e a lógica plana. No usufruto da imunidade parlamentar, deu-se ao despautério de elogiar o heroísmo de um oficial da Polícia Militar do Rio de Janeiro, Adriano da Nóbrega, orgulhando-se da própria presença no julgamento em que o ex-membro do célebre Bope, que inspirou o filme Tropa de Elite, fora condenado pela execução de um flanelinha acusado de prestar serviço a traficantes de drogas. Da cadeira na Câmara mandou seu solitário comandado à época, o primogênito Flávio, condecorar o mesmo personagem do noticiário criminal com a medalha mais importante da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). A Tiradentes, protomártir da Independência, foi dada na cela onde estava abrigado dos inimigos. Não é de estranhar, portanto, que surja no noticiário da imprensa, que execra, a peça que faltava para fechar o quebra-cabeças óbvio em que ele inspirou o mesmo subordinado na prática de um crime, o peculato. Ou melhor, a extorsão de funcionários-fantasmas de gabinete, que não passa de um disfarce para justificar eventual renda ilícita.

Esta semana começou com a revelação feita pela colunista do UOL Juliana Dal Piva no alto da primeira página dando conta da existência de um áudio em que “a fisiculturista Andrea Siqueira Valle, ex-cunhada do presidente, afirma que Bolsonaro demitiu um irmão dela porque ele se recusou a devolver a maior parte do salário como assessor. “O André deu muito problema porque ele nunca devolveu o dinheiro certo que tinha que ser devolvido, entendeu? Tinha que devolver R$ 6.000, ele devolvia R$ 2.000, R$ 3.000. Foi um tempão assim até que o Jair pegou e falou: ‘Chega. Pode tirar ele porque ele nunca me devolve o dinheiro certo’.”.

A revelação é gravíssima e precisa ser apurada com todo o rigor. Essa tentativa de banalizar o peculato, a extorsão de funcionários em gabinetes, usando a denominação diminutiva “rachadinha”, não deveria enganar mais ninguém. O assunto é grave e foi denunciado a tempo de ser investigado. Mesmo sendo a nossa uma republiqueta onde a vergonha não prospera. Já passou da hora de levar a sério todas as evidências que o próprio presidente produziu e cobrá-las, sem cair na armadilha com que seus sequazes, beneficiários de seus crimes, tentam encobrir na base do cínico “ele é assim mesmo”. Desde que Adriano se escondeu no litoral da Bahia, onde foi perseguido e morto por policiais fluminenses e baianos, numa evidente expedição de caça ao arquivo para queimá-lo, não resta mais dúvida de que o “herói” da famiglia foi, na verdade, chefão da milícia mais antiga do Rio, a de Rio das Pedras, e próspero empresário da morte contratada no tal do Escritório do Crime.

Embora o Ministério Público do Estado do Rio (MP-RJ) tenha sido impedido de continuar investigando os crimes de peculato, corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa de Flávio Bolsonaro após a substituição do governador fluminense cassado, Wilson Witzel, pelo capacho dele Cláudio Castro, não dá para ignorar as evidências de sua investigação. A contratação de parentes de Adriano, como a mãe e a ex-mulher, no esquema da extorsão nos gabinetes dos Bolsonaros, em Brasília e no Rio, baseia-se em provas sólidas, que incluem saques em dinheiro dos fantasminhas camaradas e depósitos nas contas dos vampiros de Vivendas da Barra. O charlatão, que diz ser a morte sua modalidade de artilheiro, propagou a pílula do câncer e passou a receitar cloroquina contra a covid, de forma oportunista e à custa da vida de mais de meio milhão de brasileiros, já tem uma extensa contabilidade de cadáveres na coleção. E muitas perguntas a responder com fatos, em vez de insultos, caso, por exemplo, da origem dos R$ 89 mil depositados por Fabrício Queiroz, o fac-tótum do primogênito, na conta de sua terceira e atual mulher.

A bandeira da fraude eleitoral, que ele nunca comprovou, está perdendo força nos plenários da Câmara e do Senado, mas ainda tem apelo em comissões comandadas por bolsonaristas óbvios ou ocultos nas duas Casas do Congresso. E mesmo que o derretimento evidente de seu prestígio eleitoral detenha o mais perigoso dos passos da nossa via-crúcis – a obrigatoriedade de impressão do voto –, não convém contar apenas com isso para debelar de vez a possível fogueira e evitar que ela vire incêndio do autogolpe pós-derrota de 2022. Quem conhece bem a capivara do elemento sabe que não convém vacilar. Urge é agir. Já!

  • Jornalista, poeta e escritor

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