As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A guerra de todos e a arenga de Bolsonaro

Todo o planeta se mobiliza para enfrentar o coronavírus, inimigo invisível e feroz, mas o presidente dá prioridade a sua arenga particular com governadores que só o combaterão em 2022

José Nêumanne

23 de março de 2020 | 19h34

Logo depois da péssima repercussão do anúncio de MP autorizando patrões dispensarem empregados por 4 meses, Bolsonaro recuou na questão dos salários, não mais eliminados, mas reduzidos. Foto: Isac Nóbregba/PR

Atordoada com a quarentena a que está condenada agora para reduzir a velocidade do contágio da pandemia da covid-19, a população brasileira acordou para esta semana, na segunda-feira, com a notícia de uma facada fatal nos mais desvalidos, enquanto os marajás do serviço público continuam à la fresca. O governo Bolsonaro encaminhou ao Congresso Nacional medida provisória autorizando empresas a dispensarem por quatro meses seus funcionários, os mandarem para casa e não pagarem seus salários. Mas, depois da reação indignada no Twitter, ele usou o mesmo instrumento para informar ter revogado a suspensão dos salários. Não falou, porém, em como obrigar empregador a recontratar dispensados.

Antes de se refazer do choque do absurdo, o cidadão identificou-se, no sentido metafórico, com a tragédia vivenciada por Gregor Samsa, protagonista do romance Metamorfose, de Franz Kafka (ou kafta, como prefere o ministro da Educação do governo federal, Abraham Weintraub), logo após ter percebido que se tornara um inseto do tamanho de um ser humano . O que aconteceu na manhã de sol outonal foi que o pagador de impostos, o eleitor, que, em maioria, pôs no comando máximo do País o responsável por essa transformação de gente em barata, não foi informado de que a dita, mas não respeitada, União não aproveitou a oportunidade do combate ao vírus para suspender, nem mesmo temporariamente, privilégios de soit-disant servidores públicos, de fato se-servidores do público. Os marajás, que recebem salários altíssimos, muito longe do alcance do alfanje de el-rey milionário de votos, recebem todo mês, com ou sem vírus, “auxílios” de toda ordem: paletó, serviço odontológico, empurradores de cadeiras, moradia, etc.

Desembargadores, que ganham R$ 38 mil por mês, recebem mensalmente uma média de mais de que quatro vezes essa quantia, já absurda em si. Ainda assim, há procurador federal reclamando desse privilégio, insuficiente para que ele viva mais à tripa forra do que já vive. Políticos acumulam aposentadorias, não importando em que partido militem ou que cargo  ocupem na máquina pública. Os ex-presidentes Dilma e Lula vivem rotina de milionários e viajam para o exterior, onde repetidamente falam mal do País que os sustenta, quantas vezes quiserem. Os signatários do ato que desemprega em pílulas amargas pertencem todos à casta dos sempre servidos.

Em última análise, a omissão é uma autoajuda. Afinal, seja qual for o destino que lhe reservarem as urnas em 2022, ideia fixa no momento do chefe de Jorge Oliveira, que autorizou a ida de quatro assessores pagos pelo distinto público para acompanhar o petista em seu périplo europeu, o presidente e o secretário-geral da Presidência gozarão, no mínimo, de uma aposentadoria de barões, com reforma da Previdência e tudo. O ex-capitão nunca teve de dar um prego numa barra de sabão, como se diz no sertão de onde fui vindo, a vida inteira. Foi sempre um se-servidor do público, primeiro nos quartéis, depois no Poder Legislativo e agora no Executivo. Com sua aposentadoria poderá até ser generoso, doando parte do saldo a amigos de velhos tempos, como Fabrício Queiroz, repassando-lhe o soldo de oficial reformado e onerando os gastos públicos com sua retirada conjunta das atividades parlamentares e presidenciais. O ex-major da PM nem sequer precisará ser promovido ao mais alto salário do se-serviço da República, como pretende seu protetor, o comandante-chefe das Forças Armadas, das quais teve os serviços propriamente ditos dispensados. Mesmo que a vaga que lhe é reservada no Supremo Tribunal após a aposentadoria de Marco Aurélio Mello no ano que vem, seja dada a outro apaniguado, a reforma na caserna bastará para garantir o vinho francês de cada refeição.

Nesse mister de mais uma vez apertar o pescoço do trabalhador de baixa renda, baixa instrução e baixa expectativa de vida e garantir o bem-bom de seus colegas de acepipes e convescotes do distante Planalto Central do País, para onde os remeteu Juscelino Kubitschek à sombra das marmotas arquitetônicas de Oscar Niemeyer, foi o melhor a apresentar como saída sem incomodar seus irmãos de opa. Algumas vezes cheguei a comentar, mas apenas de leve, e agora o faço com vigor, que o bem-sucedido chicaguiano Paulo Guedes tem um currículo acadêmico e de mercado, seja lá o que for isso, mas é sempre generoso com o patronato. E  fala mal dos marajás, mas nunca corta seus excessos. Os conceitos liberais de Milton Friedman inspiraram a ideia de só obrigar os patrões contemplados a fornecerem cursos online a candidatos a famintos que terão de vender o almoço que não comerão para comprar terminais de computadores fabricados por alguns dos amiguinhos da equipe econômica.

Os nobres egressos dos ventos gélidos do lago de Illinois copiaram o modelo da nobiliarquia monárquica absolutista na época dos Luíses da França. Os cursos online do dr. Guedes lembram uma das anedotas mais saborosas (desculpe o leitor o duplo sentido) da História da humanidade. Consta que, diante da multidão faminta clamando por pão nos jardins de Versalhes, maravilha da botânica fechada à visitação pública nestes anos duros de covid-19, a rainha Maria Antonieta perguntou, não se sabe se em francês do marido ou alemão dos ancestrais: “Se falta pão, por que não lhes servimos brioches?”. Mas a pueril e ingênua ignorância de madame chega a ser uma lembrança injusta se comparada com cursos online para desgraçados cujo suor sempre pagou a mais cara e sofisticada pâtisserie da mesa dos se-servidores servidos.

O presidente da XP Investimentos, Guilherme Benchimol, disse que vê um risco de crescimento do desemprego para mais de 40 milhões de brasileiros em decorrência da pandemia da covid-19. “É um número assustador”, disse no domingo 22 em live com outros empresários. Duvida este autor que a MP de Guedes-Bolsonaro tivesse inspirado a conta do financista. Então, é o caso de imaginar que o atual número de desocupados da mão de obra nacional por obra e desgraça do saque generalizado do erário pela canalha do Partido dos Trabalhadores (PT), seus fiéis aliados e falsos oposicionistas (leia-se tucanos) será quintuplicado pela desfaçatez de um governo eleito para pôr fim ao despautério petista e de congêneres.

O presidente eleito por antipetistas e crédulos que imaginaram que ele manteria incólume o combate à corrupção ainda acredita que em 2022, quando as urnas forem abertas, os brasileiros de bem o sufragarão e afundarão os governadores que ousaram fazer o mínimo para evitar a aceleração do contágio do coronavírus no oblívio total. Do alto do palanque imaginário das falas do trono e das mensagens em redes sociais, Sua Insolência esbravejou na TV Record, de seu divulgador Edir Macedo: “Brevemente o povo saberá que foi enganado por esses governadores e por grande parte da mídia nessa questão do coronavírus. Espero que não venham me culpar lá na frente pela quantidade de milhões e milhões de desempregados na minha pessoa”. Alto lá, capitão! Não seja tão otimista. Mesmo que a culpa não fosse também sua, e só da praga chinesa, sua reeleição correrá rico na tempestade de outubro daqui a dois anos e meio.

E se o renomado e respeitado cirurgião Miguel Srugi, da Universidade de São Paulo, tiver razão ao prever que pobres morrerão nas portas dos hospitais pelo contágio do vírus de Wuhan, a estatística tétrica poderá ser sacada de sua conta eleitoral. É uma ilusão sua imaginar que conseguirá convencer alguém mais do que seus devotos, tão fiéis quanto os de seu inimigo e sustentáculo Lula (pelo sinal oposto). Ou que ocorrerá a outrem, com juízo ou não, atribuir a tragédia ao horoscopista da Virgínia, de quem certamente tem usado argumentos para contrariar seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Numa transmissão ele afirmou que não há nenhum caso confirmado de morte por coronavírus no mundo – uma mentira sesquipedal – e que a pandemia, em sua opinião, seria “a mais vasta manipulação de opinião pública que já aconteceu na história humana”.

Caramba, quanta insânia! A questão é saber quem é mais insano: quem profere a blasfêmia ou quem a usa numa arenga particular contra adversários de uma eleição a ser disputada em dois anos e meio a pretexto de negar uma guerra declarada pela humanidade inteira. E ainda deixar de fora do sacrifício a horda de sanguessugas que sempre assola o País.

*Jornalista, poeta e escritor

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: