A arte do encontro
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A arte do encontro

Cartas da poeta americana Elizabeth Bishop para a última namorada numa revista literária brasileira

José Nêumanne

07 Março 2017 | 10h28

Elizabeth e Lota no Aterro do Flamengo

Elizabeth e Lota no Aterro do Flamengo

Em 68 anos de vida, a poeta americana Elizabeth Bishop, cada vez mais cultuada, só escreveu 101 poemas, e levava anos para burilar um verso. Mas deixou muitas cartas. Em 2011, sua biógrafa, Megan Marshall, achou um lote de nove anos de correspondências inéditas dela, guardadas com a viúva de sua última namorada, Alice Methfessel, 32 anos mais nova, por quem Elizabeth se apaixonou depois que sua namorada brasileira Lota de Macedo Soares se suicidou. São centenas de missivas e cartões-postais, analisados pela primeira vez, num ensaio de Megan a ser publicado pela revista “Serrote”. “As duas namoradas já haviam morrido, mas a história de amor não se perdeu”, escreveu Megan no ensaio.

(Comentário no Direto da Estante no Estadão no Ar da Rádio Estadão na segunda-feira 6 de março de 2017, às 7h53m)

Para ouvir clique no link abaixo e, aberto o site Estação Nêumanne, no ícone do play

http://neumanne.com/novosite/wp-content/uploads/2017/03/NEUMANNE-0603-MARIANA-FIGUEIRAS.mp3

 

E abaixo o poema

A arte de perder

De Elizabeth Bishop

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouquinho a cada dia.
Aceite, austero, A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subsequente

Da viagem não feita.
Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe.
Ah! E nem quero

Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas.
E um império Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles.
Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada.
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça

(Escreve!) muito sério

(Tradução de Paulo Henriques Britto)