WikiLeaks: o botox de Kaddafi e a hipocrisia

Marcos Guterman

29 de novembro de 2010 | 11h45

Muito vai se falar sobre o botox de Kaddafi, ou da pirataria chinesa do Google, mas um dos aspectos centrais dos documentos diplomáticos americanos obtidos pelo site WikiLeaks é a vontade dos países árabes islâmicos de bombardear o Irã. “Vamos cortar a cabeça da cobra”, propôs o rei Abdullah, da Arábia Saudita. O príncipe Muhammad Bin Zayed, de Abu Dabi, chegou a comparar: “Ahmadinejad é Hitler”. Ou seja: a belicosidade contra o Irã e seu programa nuclear não é necessariamente um traço ocidental.

Esse “segredo de polichinelo” serve para desmontar parte da retórica antiamericana no Oriente Médio. O mundo muçulmano, que acusa a política externa americana de ser “anti-islâmica” por causa do Irã, terá então de hostilizar também a Arábia Saudita e os Emirados Árabes, além do Egito e do Paquistão, se quiser ser coerente. Ademais, os países árabes costumam censurar Israel por considerar o Irã como a principal ameaça à estabilidade regional. Diante de declarações como a de Abdullah, fica claro que tudo isso não passa de hipocrisia dos governos árabes, tanto externa quanto interna.

Outro aspecto importante de todo o vazamento diz respeito à natureza dos documentos. A título de crítica à administração dos EUA, há quem diga que, “numa democracia, as pessoas têm o direito de saber o que seu governo está fazendo de fato”. É verdade, mas, em diplomacia, nem tudo pode se tornar público.

É ingênuo supor que os EUA pudessem ou devessem ser mais transparentes que, por exemplo, o Brasil, cuja diplomacia também é, em alguma medida, mantida em sigilo. Neste ano, a Câmara dos Deputados aprovou projeto que estipula prazos para a desclassificação de documentos secretos brasileiros. A maior resistência ao projeto foi do Itamaraty – há papeis que permanecerão indefinidamente secretos porque tratam de política externa e cuja publicidade pode comprometer os esforços diplomáticos do Brasil.

Assim, o vazamento dos documentos pelo WikiLeaks não pode ser ignorado – é material jornalístico e histórico de grande valor; ao mesmo tempo, porém, há situações que pertencem aos corredores da diplomacia, com seus códigos próprios. Fazer considerações morais anti-EUA a partir de documentos que foram produzidos para permanecer secretos é tentador, mas talvez seja apressado. É melhor esperar o vazamento de documentos da diplomacia de outros países – digamos China, Rússia, Venezuela, Cuba ou Irã – para comparar.

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