Uma montanha de músculos e a ingenuidade americana

Marcos Guterman

16 de maio de 2011 | 18h13

A busca do espírito dos EUA é o centro do relato que Jon Krakauer faz sobre Pat Tillman – o jogador de futebol americano transformado pelo governo Bush em símbolo da “guerra ao terror”, por ter trocado a vida confortável de atleta famoso pelo front no Iraque e no Afeganistão. O livro Onde os Homens Conquistam a Glória (Companhia das Letras), que chega agora ao Brasil, é uma tentativa de localizar um país que parece não ter meio termo entre o fascínio e a ojeriza.

Krakauer é um autor especializado em fazer o leitor perder o fôlego, como em No Ar Rarefeito, uma de suas obras já publicadas no Brasil. O estilo está presente em seu novo livro, mas vem carregado de uma indignação política que tende a enfraquecer o conjunto. Os fatos narrados deveriam bastar.

O livro mostra um herói trágico, Pat Tillman, leitor de Homero e ateu “encorajado a ser cético”. Decidiu que seria jogador de futebol americano mesmo sem ter físico para isso. A determinação para fazer a “coisa certa” era seu traço distintivo. No 11 de Setembro, concluiu que tinha de se alistar no Exército para combater a rede de Osama Bin Laden, o terrorista que os EUA caçaram obsessivamente até matá-lo, no último dia 1.º de maio. Estava no auge de sua carreira de atleta, mas o esporte era só um meio de conhecer seus limites. Na descrição de Krakauer, Tillman surge como uma fortaleza moral, e nada melhor que uma guerra para testá-la.

No front, porém, Tillman vai experimentar o deslocamento de seus ideais para uma zona de sombras, representadas pela campanha no Iraque e pelas montanhas do Afeganistão. Sobre a primeira, anotou em seu diário: “Espero que essa guerra envolva mais do que petróleo, dinheiro e poder”. No entanto, seria nas traiçoeiras estradas afegãs que Tillman acabaria emboscado não pelo inimigo que fora combater, mas por seu próprio país.

Morto com um tiro disparado por um colega, Tillman foi usado como herói pelo governo – que destruiu provas para forjar uma versão segundo a qual ele tombara durante combate com o inimigo. Bush explorou a mentira ao máximo, em meio a crescentes revezes no Iraque e no Afeganistão. Não fosse pela determinação da família de Tillman, a verdade sobre sua morte jamais seria conhecida.

Mas a América que Krakauer desenha em seu livro não é somente a soma de brutalidade, engodo e arrogância dos anos Bush. Ela parece ser principalmente a figura de Pat Tillman, uma montanha de músculos voluntariosos que emergem como o próprio retrato da ingenuidade americana.

(Resenha publicada originalmente no caderno Sabático de 14 de maio, página 7)