Uma guerra que ninguém quer

Marcos Guterman

23 de novembro de 2010 | 22h47

Em meio à tensão renovada na fronteira entre as Coreias do Norte e do Sul, por conta de mais uma ação agressiva dos norte-coreanos, a pergunta óbvia é: haverá guerra?

Do lado sul-coreano, embora tenha considerável superioridade militar em relação ao hostil vizinho do norte, não há interesse em levar o caso às últimas conseqüências – sobretudo porque uma guerra seria custosa, num momento delicado da economia, e o inimigo dispõe de arsenal nuclear. Ademais, os EUA, cujo compromisso com a segurança sul-coreana foi reafirmado nesta terça-feira, certamente hesitarão em envolver-se em mais um confronto militar. A diplomacia de Obama para as Coreias seguirá sendo de “paciência estratégica” – que não inclui, por ora, a retomada do diálogo, porque Pyongyang quer ditar seus termos.

Do lado norte-coreano, seu isolamento internacional é motivo bastante razoável para não provocar uma escalada. Não há garantia nem mesmo de apoio aberto da China, seu único grande aliado, que tem sido bastante crítica em relação às atitudes de Pyongyang. É obvio que, para Pequim, não interessa permitir que seu aliado seja derrotado por forças pró-EUA, ampliando a presença ocidental em seu quintal. No limite, porém, se a Coreia do Norte resolver ir à guerra, deverá ter a seu lado uma China não inteiramente comprometida. Pequim prefere preservar a Coreia do Norte para uma desejável reunificação com o Sul.

À ditadura norte-coreana, por sua vez, interessa muito mais continuar demonstrando que pode agir de modo delinqüente sem ser punida de forma exemplar pelas potências mundiais – como quando recentemente afundou um navio sul-coreano, matando dezenas de marinheiros, ou quando se descobriu uma nova instalação nuclear na Coreia do Norte, em aberto desafio aos acordos que Pyongyang fez com a comunidade internacional. Com isso, Kim Jong-il exibe força externa e faz propaganda interna de seu poder, algo crucial no momento em que tenta consolidar o filho Kim Jong-un como sucessor – há quem diga que o ataque foi ordenado pelo rapazinho.

A guerra, portanto, parece não interessar a ninguém neste momento. No entanto, como bom-senso é produto raro acima do paralelo 38 na Península da Coreia, um desastre pode afinal acontecer, porque o grau de previsibilidade das atitudes de Pyongyang é cada vez menor.

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