Um papa disposto a acertar

Marcos Guterman

12 de maio de 2009 | 01h39

Bento XVI iniciou de modo promissor seu giro por Israel e os territórios palestinos. No que diz respeito aos palestinos, reiterou seu apoio à criação de um Estado; em relação aos judeus, deixou claro o absurdo da negação do Holocausto, ao afirmar: “Que os nomes das vítimas nunca desapareçam e seu sofrimento nunca seja negado, diminuído ou esquecido”.

O Vaticano nunca teve uma relação que se possa qualificar de “tranqüila” com os judeus, embora ela tenha atingido um excelente nível no pontificado de João Paulo II. No caso do papa Bento XVI, porém, os ruídos são muitos. Para lembrar apenas dos problemas mais rumorosos: Bento XVI autorizou que a liturgia da Sexta-Feira Santa incluísse a menção à conversão dos judeus ao catolicismo; reabilitou um bispo negacionista do Holocausto; e quer beatificar Pio XII, papa que muitos judeus consideram omisso em relação à barbárie nazista.

Por todos esses motivos, alguns líderes judeus, como o rabino-chefe de Tel Aviv, Meir Lau, ficaram insatisfeitos com o discurso do papa, considerando-o brando demais. Lau queria uma condenação definitiva do anti-semitismo, o que talvez Bento XVI realmente pudesse ter oferecido. Mas o fato é que a reclamação do rabino e de outros soa exagerada.

Bento XVI está claramente bem-intencionado e consciente de seu papel histórico nesse momento difícil do Oriente Médio. As pedras não irão se mover porque o chefe da Igreja Católica assim o deseja, mas ele tem o poder de, ao menos, criar constrangimento político forte o bastante para que seja rompido o ciclo inercial da violência na região.

Seu posicionamento a favor do diálogo e, principalmente, contra o incitamento ao ódio parece evidente. Prova disso foi dada num encontro inter-religioso em Jerusalém, do qual Bento XVI participou e em que deveria ser o único palestrante. Mas o líder dos tribunais islâmicos nos territórios palestinos, xeque Taissir al-Tamimi, pegou o microfone e disse que cristãos e muçulmanos deviam se unir contra os “crimes do Estado judeu”. O papa esperou a diatribe terminar, cumprimentou rapidamente Al-Tamimi e deixou a conferência antes do fim, em razão do mal-estar.

O gesto de Bento XVI foi sutil, mas suficientemente claro: não haverá paz enquanto não se calar o discurso fanático que a todo instante coloca o “Outro” como mal absoluto.