Um país, dois presidentes

Marcos Guterman

27 de novembro de 2008 | 00h09


Bush, abandonado pelos colegas: “Onde estou? Quem sou eu?”

Muita gente anda manifestando preocupação com o que está sendo chamado de “vácuo de poder” nos EUA em meio à crise. Até mesmo Lula se permitiu dar palpites sobre os problemas da transição americana. Mas o presidente eleito Barack Obama está fazendo uma força danada para mostrar que os EUA têm sim um presidente: ele.

A situação esdrúxula se explica por dois fatores: 1) a crise tem dimensões tão urgentes que mesmo as bilionárias medidas de estímulo à economia parecem não fazer efeito, demandando um projeto mais consistente, cujo prazo não cabe mais neste governo; e 2) o presidente que deveria ser o líder desse processo é o pato mais manco da história americana, na feliz observação da revista Time, referindo-se ao nome que se dá a presidentes em fim de mandato nos EUA.

Consciente de seu papel e das expectativas em torno dele, Obama está fazendo malabarismos para governar sem dar a entender que já está no Salão Oval, aquele escritório da Casa Branca em que Bush fica jogando palavras-cruzadas enquanto a hora de ir embora não chega. Já é possível dizer que temos nos EUA uma “co-presidência”, de comum acordo entre ambas as partes – apesar de ter vivido em “estado de negação” nos últimos anos, Bush deve saber que sua baixíssima popularidade o impede de reclamar.

A situação atual tem sido comparada à sucessão do presidente Hoover, em meio à Grande Depressão, no final dos anos 20. Roosevelt venceu a eleição de modo incontestável, com a idéia do “New Deal”, mas rejeitou os apelos de Hoover para trabalhar em conjunto até que a transição se completasse. Como resultado, o mercado entrou em colapso.

Obama parece ter entendido o recado da história. Enquanto Bush perdoava um peru, como manda a tradição do Dia de Ação de Graças, e era solenemente ignorado em encontro com dirigentes da Ásia e do Pacífico (conforme mostra a foto acima), o democrata reunia a imprensa para anunciar medidas de impacto e nomes estelares para compor sua equipe de assessores. O mercado respondeu positivamente, tanto às ações de Obama quanto à inação de Bush – afinal, o atual presidente pelo menos não está atrapalhando, o que já é uma grande coisa. Agora falta apenas entregar o cargo, mas 20 de janeiro nunca pareceu tão distante.

(Não custa nada mostrar o reloginho que diz quanto tempo falta para que o mundo se livre de Bush. Veja abaixo)

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Foto: Associated Press

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