Um avatar para o Haiti

Marcos Guterman

21 de janeiro de 2010 | 02h26

Avatar, de James Cameron, é monumental em pelo menos dois sentidos: nunca na história do cinema tantos clichês foram reunidos em um único filme, e nunca isso foi tão irrelevante – a experiência sensorial de Avatar, afinal, compensa todo o resto e ameaça até mesmo alterar os atuais padrões cinematográficos. Mas a superprodução interessa aqui não em seu sentido, digamos, “artístico”, nem como documento dessa época em que a defesa das plantinhas e dos ursinhos polares se tornou capital político e ideológico. Interessa porque, aparentemente pela primeira vez, um filme de Hollywood toca naquele que talvez seja o grande problema da política externa dos EUA: a inabilidade de compreender as gentes que o país pretende ajudar.

A “trama” de Avatar coloca um fuzileiro naval americano na pele de um Na’vi, habitante de Pandora, uma lua no sistema de Alfa Centauro. O objetivo do projeto é fazê-lo ganhar a confiança dos nativos para facilitar a exploração de um mineral bastante lucrativo. Esqueçamos por um instante a indigência da alegoria que remete à ambição dos EUA sobre os recursos naturais do resto do mundo, motivo de incontáveis guerras. Importa somente o resultado da relação entre o marine e os selvagens: em pouco tempo, o soldado se envolve com os Na’vi ao ponto de realmente se tornar um deles, e não somente um “avatar” – que, na linguagem do mundo virtual, significa uma personificação apenas imaginária.

A partir dessa forte ligação, o soldado compreende a profundidade da cultura Na’vi e, por conseguinte, os erros cometidos pelos EUA em sua relação com os nativos. Como sempre, diz a mensagem do filme, os americanos supõem saber quais são as necessidades do resto do mundo, apresentando-se como guardiães insubstituíveis dos valores universais e da viabilidade econômica do sistema. A noção de “state building”, isto é, de construção de uma estrutura de Estado em lugares “atrasados”, seja em Pandora ou no Haiti, ganha sempre contornos messiânicos e intervencionistas quando os protagonistas são os EUA.

No caso do devastado Haiti, por exemplo, a Casa Branca declarou que somente os americanos poderiam prover a ajuda na escala necessária e tratou logo de despachar a cavalaria – milhares de soldados dos EUA logo se materializaram em Porto Príncipe, ocupando o aeroporto e inspirando o habitual antiamericanismo bolivariano que ora contamina o Itamaraty e alhures.

É inegável que cabe aos americanos a liderança da recuperação do Haiti – entre outras razões, pelo imenso poderio dos EUA em relação aos demais países da região. Se Washington não tivesse se mobilizado para socorrer os haitianos, seria prontamente acusado de omissão. Por outro lado, os ruídos decorrentes da ação americana são, em grande medida, resultado dessa certeza moral que move os EUA desde sua formação como nação, lá pelos idos do século 18. A ideia de tornar o mundo “livre”, à imagem e semelhança dos EUA, e de proteger os interesses do país como se fossem os interesses de todo o planeta impele os americanos de modo irresistível, sem maiores considerações sobre as singularidades dos povos que eles pretendem socorrer.

Mesmo a suposta sofisticação de Barack Obama, seriamente empenhado em melhorar a imagem dos EUA perante o mundo a partir de uma relação menos subordinada, não parece ser suficiente para desanuviar a sensação de que houve atropelo por parte dos americanos no Haiti. Uma boa providência, de saída, teria sido coordenar os esforços com os militares brasileiros, que há anos conhecem o cotidiano haitiano e, a partir dessa experiência, desenvolveram a sensibilidade necessária para recuperar o país segundo as particularidades locais, e não de acordo com o modelo americano – tanto mais problemático quanto se considera o passado de intervenção brutal dos EUA na região.

Para resumir, e pegando carona na ideia de James Cameron, os EUA precisam de um “avatar” no Haiti, para enfim perceber que as reais necessidades locais vão muito além da reconstrução da infra-estrutura e da alimentação de seus habitantes. Os haitianos clamam por um país que os respeite como sociedade autônoma e que funcione segundo suas experiências históricas, e não como um punhado de bocas famintas desacompanhadas de alma e de coração.

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