Tony Judt: “Não podemos continuar vivendo assim”

Marcos Guterman

30 de março de 2010 | 00h20

Tony Judt é um dos mais importantes historiadores que o Reino Unido já produziu. Sua obra mais conhecida no Brasil é o monumental “Pós-Guerra – Uma História da Europa desde 1945”. Conhecido por suas críticas aos pós-modernistas, aos comunistas e a Israel, Judt sofre de esclerose lateral amiotrófica, doença neurológica degenerativa que o torna dependente de terceiros para fazer tudo na vida. Talvez por causa da atrofia progressiva de seu corpo e de sua mente, ele decidiu escrever uma espécie de “testamento” antes que sua capacidade de se comunicar cesse. O texto, uma reflexão sobre os problemas políticos e sociais atuais, começa assim:

“Há algo profundamente errado no modo como vivemos hoje. Nos últimos 30 anos fizemos da busca de interesses materiais privados uma virtude: de fato, essa mesma busca constitui agora o que restou de nossos propósitos coletivos. Nós sabemos o quanto custam as coisas, mas não temos ideia do quanto elas valem. A qualidade materialista e egoísta da vida contemporânea não é inerente à condição humana. Muito do que aparenta ser ‘natural’ hoje data dos anos 80: a obsessão pela criação de riqueza, o culto à privatização e ao setor privado, a crescente disparidade entre ricos e pobres; E, acima de tudo, a retórica que acompanha tudo isso: admiração acrítica dos mercados livres, desdém pelo setor público, ilusão do crescimento sem fim. Não podemos continuar vivendo assim”.

A partir desse ponto, Judt faz uma crítica à social-democracia (britânica, claro, mas que serve também à brasileira, que nela se inspirou). Ele afirma que essa corrente continua sendo a melhor opção entre as existentes, mas diz que isso já não é o bastante para realizar as necessárias reformas do Estado. A busca pela eficiência e pela produtividade, mantra dos governos social-democratas nos anos 90, não terá efeito se não vier acompanhada da ampliação das conquistas sociais, diz Judt. A busca pela igualdade deve ser uma finalidade política. “Se permanecermos grotescamente desiguais, perderemos todo nosso senso de fraternidade”, escreve o historiador, para quem a fraternidade é a condição necessária à própria política. E seu texto termina assim:

“George Orwell notou certa vez que o que atrai os homens comuns ao socialismo e os faz arriscar sua pele por isso é a ‘mística’ do socialismo, a ideia de igualdade. Ainda é assim. É a crescente desigualdade dentro e entre as sociedades que gera tantas patologias sociais. Sociedades grotescamente desiguais são também sociedades instáveis. Elas geram divisões internas e, cedo ou tarde, conflitos internos, que geralmente terminam em soluções antidemocráticas. Como cidadãos de uma sociedade livre, temos o dever de olhar criticamente para o nosso mundo. Mas isso não é o suficiente. Se achamos que sabemos o que é errado, temos de agir de acordo com esse conhecimento. Os filósofos, como já se observou, têm se limitado até agora a interpretar o mundo; é hora de mudá-lo”.

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