O Orçamento de Obama, um manifesto político

Marcos Guterman

27 de fevereiro de 2009 | 01h21

A julgar pelo projeto de orçamento apresentado nesta quinta-feira, o presidente dos EUA, Barack Obama, não estava de brincadeira quando prometeu “mudança” na vida dos americanos. Trata-se de uma sensível alteração no modo como o governo dos EUA gasta o dinheiro do contribuinte.

Como costuma acontecer nessas horas, há os que ganham e os que perdem.

Os perdedores, em primeiro lugar, são os americanos que recebem mais de US$ 250 mil por ano, turma que passou anos sob a proteção de Bush e de outros antes dele – coisa que Obama classificou de “legado irresponsável”. Eles terão de pagar mais impostos, sobretudo para financiar uma formidável expansão da cobertura pública de saúde.

Em seguida vêm os fazendeiros que ganham mais de US$ 500 mil por ano e que recebem subsídios oficiais. Esses subsídios serão reduzidos. Obama sugeriu que, para compensar, os fazendeiros prejudicados deveriam buscar outras fontes de recursos, principalmente no mercado de energia alternativa.

Perdem também as empresas petrolíferas, principalmente aquelas cujos lucros continuaram subindo independentemente das condições do mercado. Para elas, Obama reservou um aumento dos royalties que têm de pagar pela exploração.

Outro perdedor é, acredite, o Pentágono, cujo Orçamento terá um aumento de 4%, modestíssimo se comparado ao festim dos anos Bush. Até o Departamento de Segurança Interna, menina dos olhos de Bush depois do 11 de Setembro, sofrerá cortes – afinal, a ameaça terrorista em território americano é algo cada vez mais remoto.

O Orçamento de Obama também expõe, com todas as letras, o “legado de prioridades equivocadas” de Bush, tornando o ex-presidente o responsável direto pelo desastre atual, ainda mais porque, segundo diz o texto, usou o segredo como política administrativa e foi vulnerável aos lobistas.

Na coluna dos vencedores, estão os americanos que passarão a desfrutar de cobertura pública de saúde – Obama quer que essa cobertura seja para “todos os americanos”, a um custo de US$ 634 bilhões em dez anos. O presidente quer dobrar o financiamento de pesquisa sobre o câncer e pretende alocar médicos onde eles estão em falta.

Outro vencedor é o Departamento de Estado, que terá um orçamento maior, como queria Hillary Clinton. Afinal, é uma das prioridades de Obama mudar o modo como os americanos fazem diplomacia, depois de anos de unilateralismo. Terão reforço de recursos também os programas de assistência internacional, nas áreas de saúde, desenvolvimento, contenção de proliferação de armas e luta contra o terrorismo. Isso inclui a injeção de dinheiro destinado a objetivos civis no Afeganistão e no Paquistão.

Uma das áreas que receberá mais recursos, isenções fiscais e incentivos é a de ambiente, com investimentos na chamada “energia limpa”. Obama espera que a criação de “empregos verdes” – isto é, empregos no setor ambiental – seja parte vital da recuperação econômica do país. Junto com isso, haverá investimentos também em ferrovias de trens rápidos, aeroportos, controle de tráfego aéreo e estradas, com o objetivo de melhorar o sistema de transporte no país.

Como disse David Stout, no New York Times, o Orçamento de Obama é mais que uma compilação de dados. É um manifesto político.

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