No Irã, a morte de um bravo

Marcos Guterman

21 de dezembro de 2009 | 12h47

O Irã perdeu uma de suas grandes forças morais: o aiatolá Montazeri. Ele era a prova de que, mesmo num Estado teocrático como é o Irã, ainda era possível pensar em termos éticos e humanistas. Não é à toa que Montazeri, embora visto como sucessor de Khomeini no auge da revolução islâmica, tornou-se quase um pária num sistema sequestrado pelas forças ligadas à Guarda Revolucionária, que a passos largos está criando um regime totalitário no país. Em um de seus últimos pronunciamentos, Montazeri declarou:

“Um sistema político baseado na força, na opressão, na fraude de votos, no assassinato, na prisão e no uso de tortura medieval e stalinista, criando repressão, censura à imprensa, interrupção dos meios de comunicação em massa, prisão de pensadores e da elite da sociedade por falsas razões, forçando-os a falsas confissões na cadeia, é ilegítimo”.

Por causa dessa corajosa eloquência, Montazeri era o oxigênio do movimento de oposição que teima em contestar o governo a despeito da duríssima repressão ora em curso no Irã. A multidão que foi enterrar Montazeri é a prova de sua resiliência.

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