Síndrome de Dunga

Marcos Guterman

23 de junho de 2010 | 00h12

A desmoralização do contraditório é um dos elementos centrais do pensamento totalitário, bem como a certeza de que uma “missão patriótica” jamais pode ser objeto de questionamento. Pela primeira vez em sua história, a seleção brasileira está inteiramente impregnada desse espírito, graças ao técnico Dunga.

A equipe nacional já teve treinadores difíceis. João Saldanha, por exemplo, brigou com muitos jornalistas – e a ironia é que ele mesmo era um. Zagallo, por sua vez, notabilizou-se pela célebre frase “vocês vão ter que me engolir”, invectiva dirigida, obviamente, aos jornalistas cuja diversão era criticá-lo.

Não se espera que todos os técnicos da seleção sejam cavalheiros como Parreira ou boas-praças como Feola. Eles foram exceções numa função que é objeto de imensas pressões – por parte de torcedores, da imprensa e dos patrocinadores – e que, portanto, exige de seu ocupante uma personalidade que pende necessariamente mais para a dureza que para a doçura. No entanto, o destempero de Dunga vai muito além do figurino, o que autoriza a conclusão de que o técnico está numa cruzada pessoal para se vingar da história.

De fato, a história foi madrasta com Dunga. Seu nome está para sempre associado ao futebol burocrático, pobre e defensivo da seleção brasileira que disputou a Copa de 90. Chamar esse período de “Era Dunga”, no entanto, é uma injustiça evidente.

O jogador havia sido eleito “símbolo” da seleção pelo próprio técnico na ocasião, Sebastião Lazaroni, que via em Dunga a possibilidade de impor à equipe a eficiência e a força, elementos que, de acordo com seu raciocínio, faltaram ao Brasil nas campanhas de 1982 e 1986. Sua missão era catequizar os brasileiros a aceitar o novo evangelho do futebol, como ele disse à revista “Playboy” antes da Copa: “A gente precisa trabalhar a finesse de um Careca, de um Romário e, ao mesmo tempo, dar força à tenacidade de um Dunga, do Alemão. Aliás, os brasileiros precisam aprender a gostar dessa aplicação, como os italianos”. Como se vê, se houve alguém responsável pela “italianização” do futebol brasileiro nos anos 90, esse alguém não foi Dunga.

Mas ele carregou a cruz que Lazaroni lhe colocou nos ombros. Após quatro anos de suplício, Dunga sagrou-se campeão do mundo como capitão da seleção e fez questão de escancarar sua mágoa para os jornalistas brasileiros, com a taça na mão: “Esse título é para vocês, seus traíras”. Em vez de comemorar, Dunga preferiu usar o grande momento de sua vida para desabafar contra os que, em sua opinião, o haviam marcado como símbolo de futebol ruim.

O ritual de purificação pela violência, porém, parece não ter saciado Dunga. Desde que foi chamado para treinar a seleção, ele se empenha o tempo todo em provar que merece o cargo, que não deve satisfações senão à CBF e que, no limite, é mais brasileiro que os que eventualmente o questionam. Só isso explica sua aberta hostilidade aos jornalistas, com doses cavalares de desrespeito e soberba.

Essa atitude destruiu os já frágeis laços dos jogadores com os torcedores e com os jornalistas. Pior: criou na seleção uma atmosfera de agressividade permanente, sugerindo um paralelo com as gangues de rua que, devidamente doutrinadas, carregam a essência do fascismo. Esses movimentos se notabilizam pela rejeição sistemática e militante de toda forma de oposição e pela resposta violenta ao “mundo exterior” – isto é, ao mundo ainda não convertido às certezas morais em torno da “sagrada missão” do grupo. Nesse clima, até o pacato Kaká revela-se hostil.

Para Dunga, quem não comunga de sua cartilha é simplesmente inimigo, na melhor das hipóteses. Fica muito difícil torcer por alguém assim.

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