Será Ricardo Teixeira tão mau assim?

Marcos Guterman

12 de março de 2012 | 18h54

O economista Luiz Carlos Bresser-Pereira escreveu um artigo na Folha (aqui, só para assinantes) em que tenta defender o legado de Vladimir Putin como líder russo. Segundo ele, Putin é “mau” aos olhos do Ocidente porque, em resumo, é nacionalista, pensa “em termos do interesse nacional” da Rússia e busca “construir e consolidar sua nação e garantir seu desenvolvimento industrial”. Bresser-Pereira admite que “há algo de verdade” nas acusações de que Putin é autoritário e corrupto. No entanto, ante os “resultados” de seu governo, “fica difícil considerar Putin ‘mau’, e o povo russo, incompetente por elegê-lo” – afinal, segundo o economista, o presidente “não só liderou a retomada do desenvolvimento econômico; também fez os russos voltarem a se orgulhar de serem russos”. Mesmo o critério ético, na opinião de Bresser-Pereira, não pode ser aplicado – porque, segundo o articulista, o Ocidente não é ético e porque “é preciso considerar que os grandes políticos raramente são santos”.

A argumentação é interessante e, se aceita como verdadeira, pode mudar radicalmente o senso comum a respeito de dirigentes que freqüentam a lista de tiranos – a começar por Hitler, cuja administração presidiu uma impressionante recuperação econômica na Alemanha e o resgate do orgulho nacional alemão. É lógico que Putin não é Hitler, mas a ideia serve.

Serve também, se quisermos, para o caso de Ricardo Teixeira. Embora envolvido em escândalos de corrupção e acusado de fatiar o futebol brasileiro em capitanias hereditárias, o indigitado, que se demitiu nesta terça-feira da presidência da CBF após duas décadas de poder, deixou atrás de si um legado de grandes vitórias – dois títulos mundiais, só para começar – e trouxe a Copa do Mundo de 2014 para o Brasil. Ajudou a recuperar o “orgulho nacional”. Nesses termos, foi o maior dirigente que o futebol brasileiro já teve.

Na lógica de Bresser-Pereira, Ricardo Teixeira, portanto, não foi tão “mau” assim. Se considerarmos que “os grandes cartolas raramente são santos”, parafraseando o economista, o agora ex-presidente da CBF deve ser visto somente segundo seus “resultados”, sem levarmos em conta sua extensa capivara.

Raciocínios como esse explicam por que, no Brasil, um governo demite nada menos que seis ministros em um ano, todos sob acusação de corrupção, e ninguém parece se emocionar muito com isso. Afinal, o que importa é o “legado”.

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