Salada à Lula

Marcos Guterman

24 de fevereiro de 2010 | 02h01

O presidente Lula usou a renascida questão das Falklands (“Malvinas” para os argentinos) para reiterar sua defesa da reforma da ONU no sentido de, segundo sua visão, ampliar a representatividade do Conselho de Segurança. A título de pleitear a soberania argentina sobre as ilhas, Lula questionou: “Qual é a explicação geográfica, política e econômica de a Inglaterra estar nas Malvinas? Não é possível que a Argentina não seja dona (das Malvinas), mas que seja a Inglaterra, a 14 mil quilômetros de distância”.

O questionamento de Lula não faz nenhum sentido. A soberania sobre um território não se dá por proximidade, mas por direito, que se aplica segundo uma conjunção de fatores geopolíticos e históricos. No caso das Falklands, o Reino Unido controla as ilhas desde 1833 e confirmou essa condição em 1982, ao vencer a guerra contra a Argentina. Desse modo, soa esdrúxulo um chefe de Estado do peso de Lula usar um argumento tão pueril como a distância geográfica para atacar os direitos britânicos.

Em vez disso, Lula poderia ter questionado se o Reino Unido está violando acordos com a Argentina ao explorar petróleo nas Falklands. Esse é o argumento básico das reclamações de Buenos Aires, embora os próprios moradores das ilhas sejam favoráveis à exploração. Mas Lula preferiu o caminho da retórica pedestre, que apela ao imaginário antiimperialista da América Latina “bolivariana”. De quebra, tenta dar uma força à combalida Cristina Kirchner, que não por acaso quer fazer das “Malvinas” sua histérica bandeira eleitoral, assim como as “Malvinas” foram o arrimo desesperado de uma ditadura argentina moribunda.

Mas Lula prosseguiu seu discurso indignado, e enfim chegou ao ponto central de sua salada retórica: “Qual é a explicação de as Nações Unidas nunca terem tomado essa decisão?”, sendo que “essa decisão” é dar a soberania das Falklands à Argentina. Para Lula, o problema todo é que o Reino Unido tem direito de veto no Conselho de Segurança da ONU: “Será por que a Inglaterra é membro permanente (do CS da ONU) que a eles pode tudo e aos outros nada? É preciso que a gente comece a instigar para que o secretário-geral das Nações Unidas reabra este debate”.

De novo, como em outras oportunidades, Lula resumiu tudo a um “Fla-Flu”: de um lado, estão os poderosos integrantes do Conselho de Segurança; do outro, aparecem os “sem-veto”, isto é, países injustiçados como o Brasil e a Argentina. O raciocínio mal esconde a crescente militância do governo Lula contra os EUA e seus aliados mais próximos, que parece se acentuar agora no final de seu mandato.

A reivindicação brasileira por maior representatividade no Conselho de Segurança é bastante aceitável, mas o argumento tende a perder força quando se mistura com fatores ideológicos que insultam a inteligência.

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