Ronaldo para, mas o 'Fenômeno' continua

Marcos Guterman

15 de fevereiro de 2011 | 00h10

Um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos se despediu nesta segunda-feira. A despedida oficial tardou, já que Ronaldo não estava jogando bola de forma competitiva fazia muito tempo. Mas os inúmeros contratos de publicidade aos quais ele está amarrado o impediram de reconhecer publicamente antes aquilo que todos já sabiam: Ronaldo já era um ex-jogador quando foi para o Corinthians.

Ao longo de sua carreira, Ronaldo ganhou mais dinheiro do que poderia gastar em dez vidas mansas, mas continuou em frente, arriscando seu maior patrimônio, que é a lembrança de suas façanhas em campo quando ainda era um atleta pleno. Pelé não esperou engordar ou começar a tropeçar na bola para parar de jogar. Zico também não. A diferença entre eles e Ronaldo é que o Fenômeno é de um tempo em que os grandes craques não precisam nem jogar para gerar fortunas: com raríssimas exceções, sendo que o genial Messi é uma delas, os demais “astros” do futebol mundial são invenções de estrategistas de marketing.

Tome-se o exemplo de Ronaldinho Gaúcho, que um dia jogou um bolão, mas que hoje é somente um catalisador de investimentos, sem nem precisar se empenhar em campo. Dois ou três dribles durante 90 minutos, devidamente editados no noticiário esportivo da tarde, e o mito do “craque” Ronaldinho se alimenta, gerando milhões de reais em renda para o Flamengo, para o jogador e para as empresas investidoras. É óbvio que esse mito não terá vida longa, mas vai durar o suficiente para que todos saiam ganhando – menos, claro, o time, que joga com 10.

Ao se despedir, Ronaldo ainda tentou justificar seu estado físico lamentável vinculando-o a um hipotireoidismo. Segundo ele, a doença dificulta a perda de peso, e um eventual tratamento seria considerado doping, o que simplesmente não é verdade – e isso não foi sequer questionado pelos jornalistas presentes à entrevista do Fenômeno, embevecidos com sua aura. Ronaldo não precisava dar essa desculpa e envolver-se em mais uma polêmica em sua despedida – sua trajetória é muito maior do que isso. Ademais, sua crítica àqueles que fizeram “chacota” de seu físico não é procedente. Como bem lembrou Fernando Gabeira, Ronaldo só poderia reclamar das piadas se sua doença fosse pública.

A despeito disso tudo, a despedida de Ronaldo é histórica, porque ele era até agora o maior representante de uma geração de jogadores de futebol sem fronteiras – isto é, cujo estilo não inspira nenhuma característica nacional, razão pela qual esses atletas se tornaram ídolos globais de forma instantânea, anabolizados por sistemática publicidade.

Ao se referir à torcida do Corinthians às lágrimas, o Fenômeno talvez estivesse tentando sinceramente se reconectar ao verdadeiro espírito do futebol brasileiro, aquele da arte e da malandragem como valores supremos, que foi perdido em alguma esquina de Eindhoven. A esta altura, porém, é difícil saber se ainda restou algo do dentuço Ronaldo sob o valioso rótulo do produto “Fenômeno”.

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