Richard Sennett: “O capitalismo financeiro destruiu o sentido de carreira”

Marcos Guterman

08 de novembro de 2010 | 00h15

O sociólogo e historiador americano Richard Sennett tem um respeitado currículo como pesquisador das relações de trabalho e cultura. Professor da London School of Economics, ele deu uma interessante entrevista ao Le Monde, na qual comentou os efeitos da crise financeira nos EUA. Seu diagnóstico é sombrio: “Os americanos estão obcecados por um problema, que é encontrar trabalho. É uma tragédia: o presidente intelectualmente mais brilhante desde Kennedy não tem um grande senso da realidade cotidiana. O resultado é uma avenida aberta para a direita”.

A atitude dos americanos, para Sennett, tem sido irracional, relacionada à insegurança. “Este país é, socialmente, muito frágil”, diz ele. “Todos só se preocupam com seu futuro pessoal. No novo capitalismo, a camada superior se sente muito poderosa, mas as massas estão sempre ameaçadas. O medo é fonte de reclusão, e não de abertura. Num momento excepcional, Obama foi eleito, convocando as pessoas a parar de ter medo. Mas as dificuldades do mercado de trabalho e o medo do desemprego tornaram-se o eixo da vida política no país.”

Sennett considera que a capacidade de trocar de emprego para melhorar de vida, parte das crenças americanas, “é em grande medida um mito”. A possibilidade de ganhar status por meio da mudança de emprego praticamente não existe – pelo contrário, diz o sociólogo, a maioria das pessoas viu seu status declinar. Ele diz que somente uma minoria ascendeu: os profissionais associados às novas tecnologias. “Agora, justamente eles formam o quadro do Partido Democrata, que é o partido das elites profissionais”, afirma Sennett, para, em seguida, comparar: “O trabalhismo do tipo britânico à esquerda, que era um componente estrutural do Partido Democrata, com noções de justiça social e Estado forte, tem sido ignorado. Politicamente, o centro-esquerda americano seria considerado hoje centro-direita na Europa”.

Desse modo, afirma Sennett, os americanos são empurrados à “nostalgia” de um passado em que havia emprego e não havia medo. Além disso, a qualidade do trabalho piorou consideravelmente, em sua opinião. A sensação geral é que os menos preparados para o mercado das novas tecnologias não terão lugar na economia, o que contraria a mitologia em torno da América como terra das oportunidades para quem trabalha. Agora, em vez de emprego, o americano médio está se habituando ao subemprego, situação típica de países em desenvolvimento, porque sempre haverá algum desempregado disposto a ganhar menos para ter algum salário. “Em resumo, o que está sendo exterminado pelo capitalismo financeiro é a própria ideia de carreira.”

Por essas razões, argumenta Sennett, o declínio do poder dos EUA está tendo um impacto sobre os americanos maior do que o fim do império britânico teve sobre seus súditos: “Nos EUA, não há tecido social suficiente para manter a ligação entre as pessoas”.

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