Quem tem medo de Avigdor Lieberman?

Marcos Guterman

10 de fevereiro de 2009 | 01h49

Qualquer que seja o resultado da eleição de hoje em Israel, um dos vencedores deverá ser Avigdor Lieberman. E isso pode não ser uma notícia tão ruim.

Lieberman, cujo partido aponta como o fiel da balança para a formação do próximo governo, é o demônio da vez na política do Oriente Médio. Seu discurso antiárabe rivaliza com alguns dos melhores momentos dos fascistas europeus no início do século passado. Ele se diz o único capaz de lidar com os vizinhos hostis, num tom que mal disfarça a disposição belicosa. Muitos enxergam em Lieberman um risco à própria democracia israelense.

Sua plataforma, apoiada sobretudo por jovens desiludidos com a política, defende que só seja concedida cidadania a quem demonstrar “lealdade” ao Estado, o que tende a excluir os árabes de Israel. Essa exigência é comum em vários países do mundo para imigrantes que desejam cidadania, mas não é comum para os imigrantes que já são cidadãos, como propõe Lieberman.

Por trás da retórica explosiva, porém, o sucesso de Lieberman é a prova de que a direita tradicional de Israel agoniza. Para ele, a retirada israelense da Cisjordânia e a conseqüente fundação do Estado palestino, com capital em parte de Jerusalém, são inevitáveis. Discutir esse ponto, como fizeram as administrações israelenses conservadoras nas últimas décadas, e como fazem os principais adversários de Lieberman na atual campanha, é ocioso. Assim, ele propõe que sejam feitas amplas concessões territoriais aos palestinos, a partir de um raciocínio simples: as áreas majoritariamente palestinas devem deixar de ser consideradas israelenses.

A questão importante para Lieberman é cuidar para que Israel mantenha seu perfil judaico, considerando aqui o prisma do movimento nacionalista sionista, e não o aspecto religioso – de que Lieberman, aliás, é crítico. Soa racista, porque usa fronteiras étnicas para definir Israel. Ao fim e ao cabo, porém, representa um avanço significativo no discurso da direita israelense, antes de mais nada porque, de um modo ou de outro, coloca a ocupação dos territórios palestinos no passado.

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