Qual é mesmo a 'Idade das Trevas'?

Marcos Guterman

11 de fevereiro de 2009 | 00h31


Veterano faz calouro da PUC-SP se embriagar: iniciação à barbárie

As cenas deprimentes dos trotes universitários deste ano me fizeram lembrar de “Os Intelectuais na Idade Média”, livro do historiador francês Jacques Le Goff em que ele analisa como começou essa tradição na Europa, no século 14. Lá pelas tantas, ele escreve:

“A iniciação de um novato é descrita como uma cerimônia de ‘purgação’, destinada a despojar o adolescente do seu jeito rústico, até mesmo xucro. Ironizam-se seu cheiro de animal selvagem, seu olhar desvairado, suas orelhas compridas, seus dentes parecidos com presas. Arrancam-lhe chifres e excrescências imaginárias. Lavam-no, dão-lhe um polimento nos dentes. Numa paródia de confissão, ele revela, por fim, seus vícios extraordinários. Desse modo o futuro intelectual abandona sua condição original, que se parece muito à do camponês, do rústico da literatura satírica da época. Da animalidade à humanidade, da rusticidade à urbanidade, essas cerimônias em que o velho fundo primitivo aparece deturpado e quase esvaziado de seu conteúdo original lembram que o intelectual foi arrancado do clima rural, da civilização agrária, do mundo selvagem da terra.”

Como se nota, na chamada “Idade das Trevas” o calouro era visto como um animal a ser humanizado. No século 21, parece ocorrer justamente o inverso.

Foto: André Lessa/Agência Estado

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