PT, Israel e o ultraje seletivo

Marcos Guterman

01 de março de 2009 | 00h00

No mês passado, a PUC do Rio assinou um convênio com a Universidade de Tel Aviv para um intercâmbio de alunos. Na opinião de Valter Pomar, secretário de relações exteriores do PT, foi uma decisão equivocada. “Não é época para um acordo desse tipo”, disse Pomar ao jornal israelense Haaretz. Para ele, “seria apropriado aplicar ao governo de Israel o mesmo tratamento dado ao governo da África do Sul durante o apartheid”, isto é, o boicote.

Pomar deixou claro que falava em seu nome, e não em nome do PT – provavelmente porque, na última vez em que falou em nome do partido para esculhambar os israelenses, comparando-os aos nazistas, foi devidamente desautorizado por petistas proeminentes, como Paul Singer, Marta Suplicy e Tarso Genro.

A idéia de Pomar não é nova. Vários movimentos de esquerda em todo o mundo defendem o boicote a Israel, supostamente em nome dos direitos dos palestinos, ao mesmo tempo em que se solidarizam com regimes despóticos que reprimem minorias e oposicionistas em geral.

Um exemplo é o Irã. Presidido por Mahmoud Ahmadinejad, chefe de governo convidado a visitar o Brasil pelo presidente Lula (que é do partido de Pomar), o Irã condena homossexuais à morte, adúlteros a apedrejamento e minorias religiosas à prisão. Conforme diz a Anistia Internacional, 30 anos depois da Revolução Islâmica a violação dos direitos humanos persiste no Irã. Nem por isso, Valter Pomar pediu boicote aos iranianos.

Outro exemplo é a Síria. Feroz ditadura desde 1970, que não tem problemas em mandar assassinar adversários no Líbano, o governo sírio tem sido cortejado pelo presidente Lula (que é do partido de Valter Pomar). Segundo a Anistia Internacional, a Síria é pródiga em perseguição, tortura e execução de presos políticos: “Ser um politico ou ativista de direitos humanos na Síria requer coragem – o governo é intolerante com a dissidência”. Não há registro de que Valter Pomar tenha feito alguma uma campanha de boicote contra a Síria.

Podemos falar também de Cuba. O regime cubano, como sabe todo aquele que foi razoavelmente alfabetizado, há 50 anos promove repressão a dissidentes, tortura de presos e autoritarismo explícito. Diz sua Constituição, em pleno vigor, que “nenhuma das liberdades reconhecidas para os cidadãos pode ser exercida se contrariar a existência e os objetivos do Estado socialista, ou se contrariar a decisão do povo cubano de construir o socialismo e o comunismo; violações a este princípio podem ser punidas pela lei”.

Apesar disso, o presidente Lula (que é do partido de Valter Pomar) classificou o ex-ditador Fidel Castro de “único mito vivo da história da humanidade”, e não se tem notícia de que Pomar tenha tentado promover algum boicote contra Cuba. Pelo contrário: na mesma ocasião em que fez a apologia do comandante, o presidente Lula (que é do mesmo partido de Pomar) disse: “Respeito muito que cada povo decida seu regime político – esse negócio da gente ficar aqui no Brasil dizendo que bom é assim, bom é assado – vamos deixar que os cubanos cuidem do que eles querem na política”. Então estamos combinados: o que o governo cubano faz em relação a seus projetos tirânicos de poder é problema dos cubanos; já o que o governo israelense faz em relação a sua segurança é problema dos petistas.

Nada disso exime Israel de críticas. Muito pelo contrário. Israel merece ser criticado duramente pelo que faz com os palestinos – recentemente, por motivos que só um burocrata insano é capaz de explicar, os israelenses vetaram a entrada de um carregamento de macarrão em Gaza. Isso mesmo, macarrão. Como ironizou um congressista americano que estava em Gaza na ocasião: “Alguém já tentou matar você com um pedaço de macarrão?”.

No entanto, promover boicotes a Israel, e apenas a Israel, enquanto se faz vista grossa às violações cometidas pelos “companheiros” em outros países, é mais do que ignorância. É anti-semitismo mesmo.

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