Por que o Grêmio não vai entregar o jogo

Marcos Guterman

04 de dezembro de 2009 | 00h50

O assunto mais importante da semana não é Honduras nem o Irã. Também não é o mensalão do DEM. O assunto da semana é a última rodada do Brasileirão. Melhor dizendo: é sobre a possibilidade de o Grêmio entregar o jogo para o Flamengo com o objetivo de evitar que seu arqui-rival, o Inter, seja campeão. O que dizem são-paulinos, palmeirenses e colorados é que a fatura está liquidada, porque o Grêmio vai facilitar as coisas para os cariocas. Noves fora o folclore do futebol, há razões de sobra para acreditar que isso não vai acontecer.

A profissionalização do futebol foi uma conquista duríssima dos jogadores brasileiros. Nos primeiros tempos do esporte no país, só podia jogar os campeonatos mais importantes quem pudesse provar que tinha emprego – era uma forma de barrar os pobres. Alguns desses atletas foram para Uruguai e Argentina, porque lá o futebol já pagava salários. Na década de 30, houve um movimento de jogadores que pediam o reconhecimento de sua profissão, “a exemplo do que se faz nos principais centros civilizados”, segundo dizia seu manifesto. Depois da Copa de 38, quando o Brasil chegou muito perto de um inesperado triunfo, Getúlio Vargas enfim regulamentou o futebol. O Estado se dobrava às evidências de que, popular como era, o futebol tinha de começar a remunerar seus astros de acordo com essa paixão.

Essa luta dos atletas profissionais é precisamente o que desautoriza a desconfiança em torno do Grêmio. Certamente nem todos os jogadores desse clube são moralmente inatacáveis, mas há algo que transcende eventuais desvios individuais: é o espírito coletivo, que bane os traidores em nome da pureza do “grupo” e da manutenção da imagem do time. Para a maioria absoluta dos jogadores de futebol, que vivem de seus salários, ser visto como alguém capaz de entregar um jogo para favorecer um terceiro é um estigma que encerra carreiras.

Nem mesmo a enorme rivalidade local entre Grêmio e Inter será capaz de alterar essa percepção. Os jogadores do Grêmio, salvo uma ou outra exceção, apenas “estão” gremistas, isto é, não são torcedores do time nem tem nenhuma aversão especial ao Inter. Eles certamente serão incitados pelos torcedores do Grêmio a entregar o jogo, mas, a não ser que haja ameaça física, é improvável que cedam à pressão – sobretudo porque muitos deles poderão estar no Inter, no Flamengo, no São Paulo ou no Palmeiras na próxima temporada.

Além dessa relação profissional, há um outro aspecto que é preciso levar em conta: uma eventual derrota do time do Grêmio para o Flamengo não é nem de longe um resultado inusitado. Pelo contrário. A vitória do Grêmio é o mais improvável dos desfechos, por várias razões. O time gaúcho venceu apenas um jogo fora de casa em todo o Campeonato Brasileiro. E pior: enfrentará um Maracanã apinhado de torcedores enlouquecidos com a possibilidade de voltar a celebrar um título nacional após tantos anos. Para o Grêmio, o jogo não vale nada; para o Flamengo, o jogo vale tudo. O empenho de ambos no campo, é óbvio, será proporcional a essa perspectiva.

Nada disso significa que o combate esteja liquidado – em futebol, isso não existe. Mas daí a vincular uma eventual derrota do Grêmio a um “complô” é uma ofensa à razão e ao próprio espírito do futebol.

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