Por que o Brasil votou contra as sanções ao Irã?

Marcos Guterman

09 de junho de 2010 | 15h17

O Conselho de Segurança da ONU aprovou nesta quarta-feira um novo pacote de sanções contra o Irã, por conta de seu projeto nuclear. Dos 15 votos, apenas dois foram contrários: Brasil e Turquia. O Líbano se absteve.

O voto turco é fácil de explicar. O Irã é um dos principais parceiros comerciais da Turquia, e as sanções podem comprometer consideravelmente os negócios entre os dois países. Além disso, o primeiro-ministro turco, Recep Erdogan, encontra-se em plena campanha para se tornar líder muçulmano para além das fronteiras de seu país. Ele explora a causa palestina e o impasse iraniano para que a Turquia seja vista como interlocutora imprescindível para o Ocidente no mundo islâmico.

Já o voto brasileiro é aparentemente incompreensível. Os negócios do Brasil com o Irã são incomparavelmente menores do que os de China, Rússia e Turquia. E não é possível levar a sério a pretensão brasileira de apresentar o país como mediador da crise no Oriente Médio, por pelo menos duas razões: primeira, que o Brasil não foi capaz de mediar nem mesmo crises bem menos complexas em sua suposta área de influência, a América Latina, como o episódio em Honduras e a crise entre Venezuela e Colômbia, para ficarmos apenas em casos mais recentes; segunda, que o Brasil não tem “caninos” para se envolver numa região em que a força militar e a capacidade de impor pressão econômica são óbvios e indispensáveis elementos de dissuasão.

Resta como explicação que o Brasil votou contra as sanções por causa de uma agenda ideológica na qual o país busca se afirmar como ator internacional à custa da oposição aos EUA. Isso talvez faça sucesso entre os antiamericanos, mas, como diplomacia, é apenas estúpido.

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