Por que Chávez está quieto?

Marcos Guterman

23 de fevereiro de 2011 | 21h40

Até esta quinta-feira, o democrático presidente da Venezuela, Hugo Chávez, não se manifestou sobre a crise na Líbia. Até a Bolívia de Evo Morales já falou – para pedir a calma de praxe. Mas do Palácio Miraflores, nenhuma palavra.

No passado recente, porém, ele foi bem mais eloqüente sobre Muamar Kadafi. Em setembro de 2009, Chávez recebeu o ditador líbio na Venezuela com flores e a espada de Simon Bolívar, líder da independência de vários países sul-americanos. Na ocasião, disse: “Estamos escrevendo novas páginas da história. Estamos aqui para mudar a história e criar um novo socialismo, um novo mundo”.

O caudilho venezuelano foi mais longe e comparou Kadafi a Bolívar. Para quem não acredita, a comparação está gravada e pode ser vista em vídeo aqui. Antes de clicar, tire as crianças da sala.

Seguindo seu manjado hábito de inverter os sinais morais e éticos para justificar a barbárie, os “humanistas” militantes do chavismo vão argumentar que não foi somente Chávez quem se aproximou de Kadafi, mas também líderes dos EUA e da Europa. Há, contudo, um contraste fundamental: americanos e europeus (com exceção do bufão Berlusconi) não trataram Kadafi como irmão, como fez o então presidente Lula, nem o chamaram de herói, como fez Chávez.

Uma coisa é fazer negócios com um ditador como Kadafi, o que é nojento, mas faz parte da geopolítica; outra, bem diferente, é elevá-lo à categoria de líder libertário. Chávez e Kadafi estão em outro patamar de cinismo, que pode ser resumido no “Prêmio Kadafi de Direitos Humanos”, concedido pelo gentil ditador líbio ao venezuelano em 2004, uma homenagem a sua luta “contra os efeitos do imperialismo e os inimigos da liberdade dentro e fora da Venezuela”.

Essa turma faz parte do mesmo modelo: são autocratas que perderam o contato com a realidade, criando em torno de si um mundo da fantasia baseado em certezas ideológicas, sustentado por corrupção e adulação sem limites. Mais de dez anos sob essa loucura são suficientes para tornar mesmo o mais apático cidadão num revoltado em potencial.

Por isso, se Chávez está calado, é porque talvez esteja fazendo as contas e concluindo que a distância entre Caracas e Trípoli não é tão grande assim.

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