Pior do que o horror é a indiferença

Marcos Guterman

22 de outubro de 2009 | 01h36


Um homem no carrinho: espetáculo

Na última quarta-feira, os principais jornais do país estamparam a cena acima. Trata-se de um cadáver dentro de um carrinho de supermercado, deixado em uma favela do Rio, em meio aos conflitos entre traficantes e a polícia. A imagem, como era previsível, foi imediatamente agregada ao discurso dos adversários da candidatura olímpica do Rio, como a prova definitiva da inviabilidade da cidade e da falência de suas instituições. Em meio ao Fla-Flu que se estabeleceu por causa da escolha do Rio como sede dos Jogos de 2016, a ninguém ocorreu perguntar quem era aquele homem.

O cadáver no carrinho supostamente era o de um traficante de uma das facções em guerra nos morros cariocas. Isso foi tudo o que os jornais se esforçaram em saber a seu respeito. Seu nome não apareceu. O “mártir” do partido anti-Olimpíada não tinha outra utilidade, afinal, a não ser constranger o partido pró-Olimpíada. Ele foi identificado apenas como “o 25º morto” dos confrontos – curiosamente, sabemos muito mais sobre o helicóptero da polícia abatido pelos traficantes do que sobre esse homem.

Sem um nome, o cadáver não é “alguém”. Ele é um anônimo sem qualquer significado, mesmo negativo, para a “sociedade”. Ele não tem passado, ele não é portador de uma história. Integra aquela massa de seres que não têm existência civil e que, portanto, não têm direito a ter direitos. Sua notoriedade consiste somente no símbolo chocante do menosprezo pela vida, sentimento que costumamos atribuir aos delinqüentes, como se o fato de não nos interessarmos pela biografia desse cadáver também não fosse a prova de que esse menosprezo pela vida do “outro” é mais ou menos generalizado.

A foto do cadáver no carrinho de supermercado nos coloca na posição de testemunhas do espetáculo de um tempo sombrio – e o irônico é que o esquife do morto era um carrinho de supermercado, ícone de um código em que a capacidade de consumo é o que define a existência. Mas o incômodo que eventualmente sentimos é muito fugaz; logo dá lugar à indiferença, que é o estado natural da modernidade, que enseja a exclusão e que, no limite, facilita a idéia de extermínio físico desse conjunto disforme de não-humanos.

Foto: Wilton Junior/Agência Estado

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