Pio 12 é quase santo

Marcos Guterman

21 de dezembro de 2009 | 14h50

O papa Bento 16, que nunca escondeu sua admiração por Pio 12, deixou esse controverso papa mais próximo da beatificação. No sábado, ele confirmou as “virtudes” de Pio 12. Agora, basta que um milagre seja confirmado.

A decisão, como era previsível, foi bastante criticada pelos judeus, que acusam Pio 12 de omissão durante o Holocausto. “Não queremos acreditar que os católicos vejam em Pio 12 um exemplo de moralidade e de humanidade”, resumiu o rabino-chefe da França, Gilles Bernheim.

Para o Vaticano, o silêncio de Pio 12 na verdade foi uma estratégia para atuar nos bastidores em favor dos judeus. A Santa Sé considera que, se o papa tivesse contestado publicamente as ações genocidas dos nazistas, o assassinato poderia ter-se acelerado.

Uma das provas do envolvimento do papa no salvamento de judeus é a emissão, a seu pedido, de vistos para judeus europeus convertidos ao catolicismo entrarem no Brasil. No caso de judeus não convertidos, porém, não houve iniciativa semelhante.

Além disso, Pio 12 calou-se a respeito da Noite dos Cristais, primeiro pogrom contra os judeus alemães depois da ascensão dos nazistas, e recusou diversos apelos por socorro vindos das comunidades judaicas de várias partes da Europa. Limitava-se a pedir “paciência”. Quando resolveu criticar as atrocidades nazistas, já nos anos 40, o papa nunca falou do caso específico dos judeus.

Enquanto os arquivos do Vaticano sobre o papado de Pio 12 estiverem fechados, porém, é pouco provável que se saiba a real extensão do papel desse pontífice, e todas as versões, inclusive as negativas, continuarão autorizadas.

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