Paula Oliveira, Erislandy Lara e os limites do jornalismo

Marcos Guterman

03 de março de 2009 | 00h45

Paula Oliveira, advogada brasileira, disse que foi atacada por neonazistas na Suíça, que teve a pele retalhada com estilete pelos crápulas e que, por conta da covarde agressão, perdeu as filhas gêmeas que esperava.

Erislandy Lara, pugilista cubano, foi entregue pelo governo brasileiro às autoridades de seu país apesar de, segundo ele, ter implorado por asilo político. De volta a Cuba, não pôde mais lutar e fugiu para os EUA.

Qual a semelhança entre os dois casos? Simples: tanto Paula quanto Erislandy aparentemente mentiram. Discutir mitomania não é problema deste blog, mas sim as razões pelas quais a imprensa deu amplo destaque às versões apresentadas por Paula e Erislandy sem grandes questionamentos.

No caso de Paula, o ombudsman da Folha chegou a dizer que o desastre da cobertura foi causado pelo “mal congênito do jornalismo”, isto é, a “aflição dos jornalistas de apurar e chegar a conclusões rápidas e pretensamente definitivas sobre os assuntos”. Embora isso seja verdade, é apenas parte da explicação. Para entender o que houve, talvez fosse bom olhar para a própria natureza do funcionamento da mídia.

O poder da imprensa está diretamente ligado à sua capacidade de determinar o que é “importante”. Nos casos em questão, a “notícia” não era necessariamente a agressão covarde a uma mulher ou o drama político de um esportista. As “notícias” reais eram o racismo europeu e a tirania de Cuba, aliada à insensibilidade do governo Lula. Essa era a “realidade” que a mídia quis destacar nos casos de Paula e Erislandy.

Os eventos de Paula e Erislandy superaram o filtro daqueles que selecionam os acontecimentos para transformá-los em “notícia”, os chamados “gatekeepers”. Esses “gatekeepers” – que são os repórteres e os editores – atuam conforme o estabelecimento de uma agenda de interesses, a chamada “agenda setting”, que molda a “realidade” sugerida afinal pela mídia ao consumidor de informação.

Os próprios “gatekeepers”, por definição, acreditam nessa “realidade”, o que explica o fato de terem engolido a versão de Paula e a de Erislandy sem desconfiança. Mais que isso: Paula e Erislandy foram escolhidos justamente porque eram símbolos bem acabados dessa “realidade”, isto é, a de que os suíços são xenófobos, e o regime cubano, ditatorial e mancomunado com o Brasil dos cubanófilos Lula e Tarso Genro. Ou seja: vale mais a imagem que temos de algo do que a realidade sobre a qual tratamos. E essa imagem é decisivamente formatada pelas certezas da mídia – as quais nem a confissão da mentira consegue abalar.

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