Para ex-marine, massacre no Afeganistão é um crime de todos os americanos

Marcos Guterman

18 de março de 2012 | 10h00

Benjamin Busch, ex-fuzileiro naval que lutou no Iraque, escreveu um duro artigo para o Daily Beast no qual procura mostrar que é confortável demais dizer que o soldado americano que matou 16 civis no Afeganistão agiu sozinho. “Era o exército de um homem só”, escreveu Busch. “Mas aquele homem só era um de nós.”

Para o ex-militar, que hoje é ator de cinema, o importante agora é saber o que esse massacre representa para a “alma nacional” americana. Ele diz que o Taleban, que não é conhecido por seu respeito aos direitos humanos, expressou indignação com o acontecido. “É aqui que não temos defesa”, lamenta Busch. “Nosso caráter moral é construído na enfática reivindicação de que defendemos os inocentes, de que nós e nossos aliados somos justos. (…) Numa terra em que é difícil ganhar a confiança, essa traição terá consequências.”

O governo americano disse que o incidente não representa o caráter dos militares do país. “Isso é verdade, exceto pelo fato de que nossos militares são representados pelo incidente”, escreveu Busch. “O assassino tinha uma bandeira americana no ombro, era um soldado. (…) Não podemos nos distanciar disso simplesmente porque fomos nós que o mandamos para lá.” As crianças vítimas do massacre “foram mortas por um soldado que mandamos para protegê-las”, disse o ex-marine. Para Busch, o crime desse soldado é o crime de toda uma nação.

Busch diz que nasceu durante a Guerra do Vietnã, conflito do qual, em sua opinião, os EUA extraíram poucas lições. “Foi uma guerra feita por uma geração que se orgulha da limpeza moral de sua vitória sobre o fascismo na Segunda Guerra, mas aquela guerra terminou com bombas atômicas atiradas sobre famílias.”

Para Busch, os americanos querem dizer que a guerra no Afeganistão “apartou esse soldado de sua sociedade, mas há muita evidência de que nossa sociedade é completamente desconectada de sua guerra”. Ele argumenta que, se o soldado assassino é louco, como murmuram os americanos aqui e ali, então todos os soldados envolvidos no Afeganistão podem enlouquecer a qualquer momento – não há padrões éticos que se sustentem num conflito prolongado.

“Temos de acreditar que somos responsáveis, de alguma forma, e sentirmos remorso”, diz Busch. “Temos de nos perguntar se essa guerra é uma causa nobre, algo em que acreditamos o suficiente para investir tanta vida e produzir tanta morte.” Mas isso, em sua opinião, é difícil, porque há um “desinteresse nacional” crescente nos EUA em relação ao que acontece no cada vez mais distante Afeganistão. “Esse massacre longe de nós deveria gerar uma discussão muito maior sobre quem somos nós e o que nossas guerras significam.”

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