Pais exagerados: filhos covardes?

Marcos Guterman

23 de dezembro de 2008 | 00h12


“Uma Nação de Covardes”: excessos dos pais

Psicólogos dos EUA começam a se questionar se os pais americanos estão cometendo excessos na educação dos filhos, ao ponto de criar uma geração de covardes, diz reportagem da New Yorker. Um dos estudos usa justamente essa expressão (“A Nation of Wimps”) para demonstrar os perigos derivados do cuidado exagerado com as crianças.

Hara Estroff Marano, autora de “A Nation of Wimps“, diz que esses pais extremados, por exemplo, enxergam bactérias em cada polegada de superfície com a qual seu filho terá contato. Por isso, um sucesso de vendas é o Buggy Bagg, proteção que se coloca no carrinho de supermercado para evitar que a criança tenha contato com “vírus, bactérias e fluídos corporais” deixados no local.

Quando as crianças crescem, os cuidados se sofisticam. Brincar com tintas é coisa do passado. O certo é fazer os meninos em idade pré-escolar passarem por treinamento de matemática e leitura. Como as habilidades das crianças são testadas logo cedo por exames do governo, os pais, receosos de que seus filhos não “passem” nas provas, contratam tutores para acelerar o aprendizado. Resultado: a indústria dos tutores nos EUA já movimenta US$ 4 bilhões, diz Marano.

Esse aspecto é apenas uma face dos excessos paternais no que diz respeito à carga “acadêmica” a que os filhos estão sendo submetidos nos EUA. Como as atividades extra-curriculares costumam impressionar os selecionadores das universidades, mostra a revista, as crianças são obrigadas a dividir seu tempo entre aulas de tênis, mandarim e balé. No fundo, a idéia é manter os filhos ocupados tempo bastante para evitar que eles se envolvam com drogas ou percam a virgindade.

Uma vez na faculdade, os filhos recebem celulares com GPS, de modo que cada passo dado por eles será seguido ansiosamente. Para Marano, o celular é o símbolo desse cuidado desmedido dos pais. No caso dos EUA, porém, a coisa é ainda mais brutal: não contentes em ter o filho monitorado pelo telefone, os pais mais exigentes compram uma casa para morar ao lado da faculdade onde o filho está vivendo e estudando. Ou seja: no momento em que poderiam exercitar um pouco de vida independente, os garotos acabam aproveitando a presença próxima dos pais para explorá-los – afinal, quem precisa lavar a roupa quando mamãe está por perto?

Como resultado dessa combinação, os filhos aprendem que o mundo é tão aterrorizante que se tornam avessos a riscos e complacentes com a autoridade – o que, em última análise, diz Marano, os faz fracos como defensores da democracia e mais ainda como guardiães da liderança americana no mundo.