Os judeus, a confiança e o "mercado frouxo": o caso Madoff

Marcos Guterman

19 de dezembro de 2008 | 01h34


Madoff vai ao tribunal para se explicar: problema moral

O presidente eleito dos EUA, Barack Obama, disse nesta quinta-feira que a responsabilidade pelo caso Madoff era a “falta de supervisão adulta” do mercado de capitais dos EUA. Para ele, o mundo financeiro está “desesperadamente” necessitado de maior regulação. O caso Madoff, para quem ainda não sabe, é aquele em que o investidor Bernard Madoff enganou um bocado de gente ao fraudar fundos avaliados em US$ 50 bilhões. O susto foi grande, e os efeitos ainda estão sendo calculados (inclusive no Brasil), mas talvez Obama tenha feito um julgamento precipitado.

Madoff é um sujeito singular sob muitos aspectos. Pouquíssima gente tem o currículo dele. Como ex-presidente da Nasdaq, a poderosa bolsa eletrônica de valores de Nova York, Madoff dispunha de trânsito em uma enorme variedade de corredores e era recebido com respeito em todos eles. Como judeu, gozava da confiança absoluta de investidores judeus dentro e fora dos EUA.

No caso da religião de Madoff, a questão ganha contornos ainda mais importantes. Há algum tempo, a SEC (órgão que fiscaliza o mercado financeiro americano) alertou para a ocorrência de “fraudes por afinidade”, isto é, esquemas em que membros de comunidades, como armênios, testemunhas de Jeová e batistas, eram lesados por seus pares.

“O senso de uma herança comum, de uma comunidade, evita o questionamento”, explica Ronald Cass, professor de direito da Universidade de Boston, em artigo no Wall Street Journal. “Pressionar um amigo paroquiano ou um sócio do mesmo clube para ter informações é como exigir que sua tia lhe dê suas receitas – isso simplesmente não parece ser a coisa certa.”

Assim, para os judeus, o escândalo de Madoff é particularmente impressionante. O anti-semitismo e a memória do Holocausto acentuam a necessidade da aproximação incondicional e solidária com outros judeus. É fora de cogitação, portanto, que algum judeu explore esse sentimento para ganhar dinheiro, ainda mais de modo fraudulento.

Em relação à regulação reclamada por Obama, contudo, percebe-se que, no caso de Madoff, a questão não é a suposta frouxidão do mercado, mas simplesmente um problema moral. Como diz Cass, “a violação da confiança – da confiança daqueles que têm grandes razões para confiar – ilustra os limites da lei, e não a necessidade de mais leis”.