Os “falcões” estão destruindo a essência de Israel

Marcos Guterman

03 de junho de 2010 | 21h47

Israel impõe um bloqueio implacável à Faixa de Gaza há cerca de três anos. Tem seus motivos, reafirmados a cada foguete que o Hamas atira contra civis israelenses. Por outro lado, a imposição de um bloqueio tão feroz denota um forte espírito de indisposição ao diálogo e ao compromisso. Para Israel, a guerra parece sempre preferível à paz, como escreveu Amos Oz.

O episódio da “Flotilha da Liberdade” evidenciou os limites dessa predisposição ao conflito. Os israelenses poderiam ter permitido que os barcos dos ativistas pró-palestinos chegassem a Gaza. Seria uma “derrota” muito menos significativa do que a que o país sofreu ao decidir abordar as embarcações. Mesmo que se prove que a lei estava do lado de Israel, o comportamento israelense reafirmou sua imagem beligerante, que faz a delícia dos inimigos do país. Nada melhor para os cínicos fundamentalistas islâmicos que querem varrer Israel do mapa do que explorar mártires produzidos pelos erros israelenses.

O comportamento de Israel, ademais, ameaça aprofundar seu isolamento. Mesmo o governo americano piscou, cobrando dos israelenses que repensem o cerco a Gaza – como antes já havia cobrado a interrupção da colonização da Cisjordânia. Sem amigos e sem moral, Israel aparece ao mundo como pior do que os terroristas do Hamas. E sua imagem não vai melhorar se seu governo se limitar a enviar a jornalistas vídeos sobre a violência dos ativistas da “Flotilha da Liberdade” e a chamá-los indiscriminadamente de “terroristas”.

A solução para essa crise é menos política e mais espiritual. Israel deveria refletir sobre a conveniência de não ter amigos, deveria reavaliar suas reações violentas quando contrariado e, principalmente, deveria resgatar a ideologia humanista que está no DNA de sua criação e que os “falcões” irresponsáveis estão destruindo.

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