Os “democratas” e a questão egípcia

Marcos Guterman

01 de fevereiro de 2011 | 10h26

O professor de filosofia da USP Vladimir Safatle fez interessante pergunta em sua coluna desta terça-feira na Folha, a propósito do apoio dos EUA ao ditador egípcio, Hosni Mubarak: “Afinal, como justificar que durante 30 anos nós, arautos dos direitos humanos, apoiamos um regime despótico, com eleições de fachada, assassinato de opositores, censura rígida e plutocracia?”.

A mesma pergunta, porém, poderia ser feita aos pensadores de esquerda, “arautos dos direitos humanos”, que encontraram justificativas, no último meio século, para apoiar Fidel Castro e seu “regime despótico, com eleições de fachada, assassinato de opositores, censura rígida e plutocracia”.

Claro, pode-se argumentar que Fidel Castro representa a causa “humanista” de “libertação dos povos oprimidos” e que os eventuais crimes cometidos por seu governo são o lamentável efeito colateral da necessidade de conter as “forças da reação”. Enquanto isso, a defesa de ditadores como Mubarak significa, nas palavras de Safatle, a defesa de “interesses econômicos e geoestratégicos das potências que sempre viram aquela região do mundo como seu protetorado”.

Pode-se, contudo, inverter a equação. Pode-se dizer que a defesa de ditadores como Fidel mal esconde uma vocação totalitária e oportunista, que usa o discurso antiamericano e anticapitalista para se perpetuar no poder e, estrategicamente, se locupletar. Enquanto isso, pode-se dizer que a defesa de ditadores moderados como Mubarak significa estabelecer uma justa proteção contra a emergência de movimentos essencialmente antidemocráticos e hostis ao Ocidente, como é o caso da Irmandade Muçulmana, cujo projeto fundador prevê a construção de um Estado islâmico e o estabelecimento de um califado.

A esse propósito, convém revisitar o histórico discurso de Barack Obama no Cairo, em junho de 2009, no qual o presidente americano deu as linhas gerais daquilo que seria um novo tipo de relacionamento dos EUA com o mundo árabe islâmico, uma espécie de reviravolta em relação à turbulenta era Bush. Muitos hoje têm lembrado desse discurso para cobrar de Obama sua promessa de que a política de Washington para o Oriente Médio deixaria de subordinar a liberdade política à necessidade de conter os fundamentalistas islâmicos.

A julgar pela reação americana à crise no Egito, Obama, de fato, piscou: primeiro, tentou livrar a cara de Mubarak – que Hillary Clinton já qualificou de “amigo da família” – ao limitar-se a pedir “ordem” aos manifestantes e ao governo; depois, quando ficou evidente de que lado estava a força da história, passou a advogar a transição no Egito, embora, sutilmente, tenha evitado dizer se essa transição se daria com ou sem Mubarak no poder.

O muito citado discurso de Obama no Cairo, porém, contém outra passagem fundamental para entender os dilemas do presente momento e que tem sido convenientemente esquecida. Disse Obama:

“Há algumas pessoas que defendem a democracia somente quando estão fora do poder; uma vez no poder, elas se tornam violentas e suprimem direitos. Não importa quem esteja no comando, o governo do povo e pelo povo estabelece um único padrão para todos aqueles que detêm o poder: deve-se manter o governo por meio do consenso, e não da coerção; devem-se respeitar os direitos das minorias e trabalhar com um espírito de tolerância; devem-se colocar os interesses do povo e do legítimo processo político acima do partido que está no governo. Sem esses ingredientes, eleições, sozinhas, não fazem uma democracia”.

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