Os bons policiais

Marcos Guterman

23 Maio 2010 | 12h18

Na última sexta-feira envolvi-me num acidente – atropelei uma senhora de 75 anos na avenida Pompeia. Foi um episódio bastante didático sob vários aspectos, a começar pela terrível sensação de impotência diante da possibilidade da morte de uma pessoa. Só essa experiência já me bastaria, não fossem outros acontecimentos dignos de registro. O principal deles foi a constatação de que a polícia pode ser boa.

A ditadura militar nos fez mal em vários aspectos, mas um dos mais perversos talvez seja a sensação de que a polícia não age senão conforme uma agenda subterrânea, que nada tem a ver com os interesses dos cidadãos. Notícias como o assassinato de um motoboy pelas mãos de quatro policiais, ocorrida no dia 8, só reforçam essa imagem, como a reafirmar a permanência das abomináveis práticas dos torturadores e dos esquadrões da morte nos porões do regime militar. Diante disso, mesmo passados tantos anos do fim da ditadura, é comum a percepção de que a polícia e os militares em geral não estão do lado do cidadão – quando não estão contra o cidadão.

Meu caso particular, no entanto, mudou drasticamente essa visão. O primeiro que veio em auxílio à vítima foi um coronel do Exército que mora numa casa ao lado do local do acidente. Ele e os sentinelas que fazem a guarda de sua residência ajudaram a levar a mulher ao hospital São Camilo, bem próximo dali. Em seguida, o militar e a mulher dele vieram conversar comigo e me tranquilizaram. Disseram que a vítima parecia estar bem e que as câmeras de sua casa haviam filmado tudo, provando que eu não tive culpa no acidente. O que me chamou mais a atenção foi a extrema gentileza com que fui tratado, por gente que não me conhecia e que, graças à farda e à patente, poderia adotar uma posição de superioridade em relação a este reles civil. Pelo contrário: os militares estavam genuinamente empenhados em me acalmar e ajudar.

Em seguida, começaram a chegar os policiais que cuidariam do meu caso. Apesar da confusão no trânsito, que atraiu muitos curiosos, eles agiram de modo rápido e eficiente. Isolaram a área e iniciaram os procedimentos para a perícia – que só seria feita seis horas mais tarde. Fui rapidamente interrogado por um cabo da PM, que foi logo dizendo: “O que aconteceu pode ser novidade para o senhor, mas não é para nós. Estamos acostumados com isso. Estamos aqui para ajudar”. Em pouco tempo, e apesar de tudo, consegui me acalmar, graças ao trabalho dos policiais e dos fiscais da CET, todos muito gentis e atenciosos.

Todo o processo levou sete horas. Durante esse período conversei longamente com policiais, militares e agentes públicos dos quais, como já disse, não guardamos boas referências. Esses homens me mostraram o outro lado de sua profissão, aquele que não aparece no noticiário policial. Falaram das enormes dificuldades de manter a ordem numa cidade caótica como São Paulo. Um agente da CET me contou que usa protetor auricular quando está dirigindo a Kombi da companhia, porque o barulho daquela lata-velha é insuportável. Um PM desandou a contar causos divertidos em que a precariedade do trabalho é a personagem central. Um outro, que já deveria ter ido para casa, desabafou: “Quando estou de bem com a PM, estou de mal com minha mulher…”. Nenhum deles, no entanto, parecia arrependido da escolha profissional. “Temos sangue de policiais”, explicou um deles, para dizer que, mesmo nos horários de folga ou quando fazem bico, os PMs acabam ajudando pessoas.

Todos os policiais com quem conversei comentaram o caso do motoboy assassinado. Nenhum conseguiu esconder o constrangimento, mas eles pareceram sinceros ao enfatizar que os PMs envolvidos no crime são uma minoria na corporação.

Não sejamos ingênuos. Eu fui bem tratado pelos policiais e pelos militares também porque sou branco e bem articulado e estava bem vestido. Não sei dizer o que teria acontecido se eu fosse pobre e negro. Mas é difícil acreditar que a cor da minha pele tenha sido o fator essencial a determinar um comportamento tão exemplar por parte desses agentes de segurança pública. Prefiro concluir que se trata de vocação para servir.

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