Obama sabe o tamanho certo do Brasil

Marcos Guterman

20 de março de 2011 | 21h13

Passamos o final do governo Lula embevecidos com a propaganda segundo a qual nos tornamos potência global e que os EUA deveriam tratar o Brasil “de igual para igual”. A visita de Obama ao país, porém, deu a verdadeira dimensão do Brasil no cenário externo – e ela é muito menor do que apregoam os delirantes militantes lulistas, mas pode vir a ser muito maior do que nossos profundos problemas estruturais sugerem.

É certo que o fato de Obama ter escolhido o Brasil como primeira parada de seu tour latino-americano não é trivial: gestos como esse costumam significar vontade de marcar posição e aprimorar relações. Também não é desprezível a menção de Obama à necessidade de tratar o Brasil, do ponto de vista econômico, no mesmo nível de Índia e China. Isso mostra que o mercado brasileiro ganhou peso estratégico para os EUA e pode, no futuro, representar condições privilegiadas para comércio e investimentos. Por fim, Obama manifestou “apreço” pela reivindicação brasileira a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. É um tom amistoso o bastante para fazer Brasília sonhar com o apoio americano, quando a oportunidade da reforma da ONU se apresentar.

Dito isso, vamos à realidade fria dos fatos: a visita de Obama certamente frustrou aqueles que esperavam dela um acontecimento de caráter histórico. Em grande parte graças à ação militar na Líbia, os motivos da presença do presidente americano no Brasil ficaram em claríssimo segundo plano internacional – chegou a circular o rumor de que ele poderia até mesmo cancelar ou abreviar a visita. Ademais, questões de segurança desidrataram a agenda de Obama no país, comprometendo aquela que seria sua “ofensiva charmosa” para conquistar os brasileiros, limitando-se a patéticos clichês como bater bola (mal) e ver capoeira.

Seu discurso no Teatro Municipal resumiu a pouca importância da visita. Esperava-se que seu pronunciamento fosse uma espécie de carta de intenções de seu governo em relação à América Latina em geral, como foi o crucial discurso do Cairo em relação ao mundo árabe e muçulmano. Mas, em meio a citações de Paulo Coelho e menção ao jogo entre Vasco e Botafogo, Obama limitou-se a estender a mão ao Brasil, a oferecer oportunidade de negócios e a falar genericamente de “parceria” – que, como bem lembrou excelente análise de Luciana Coelho na Folha, é muito diferente de “aliança”.

Resta-nos festejar a percepção americana de que, enfim, não somos mais o país do futuro, mas do presente. A despeito das enormes dificuldades para deslanchar todo esse potencial, como infraestrutura precária, carga de impostos obscena e corrupção em todos os níveis de poder, o Brasil atingiu um patamar econômico em que sua importância não pode ser mais objeto de questionamento. Mais do que isso: para Obama, somos um exemplo de construção da democracia e de solidez econômica, um exemplo para o mundo. Ao atribuir ao Brasil uma qualidade excepcional que os americanos veem em si mesmos, Obama dá inequívoco sinal de que os EUA começam a considerar o país bem mais do que uma Argentina com floresta tropical.