Obama esnobou “O Cara”?

Marcos Guterman

09 de novembro de 2010 | 00h10

O presidente dos EUA, Barack Obama, anunciou seu apoio à entrada da Índia no Conselho de Segurança da ONU como membro permanente. Num primeiro momento, a notícia parece sob medida para alimentar teorias a respeito de uma suposta esnobada de Washington em relação ao Brasil, um persistente postulante à mesma vaga. Talvez seja uma conclusão precipitada.

Em primeiro lugar, o anúncio de Obama omite os muitos obstáculos para que se concretize a inclusão da Índia no CS. O mais óbvio é a necessidade de uma reforma na ONU, que está sendo discutida há anos sem que haja sinais de que tenha evoluído de maneira concreta. Os membros permanentes (EUA, Rússia, China, França e Reino Unido) resistem a permitir que outros integrantes tenham poder de veto – é significativo que Obama não tenha tocado nesse assunto em seu discurso. Além disso, a China se opõe à entrada da Índia, entre outras razões porque não quer ver ameaçada sua busca por hegemonia na Ásia. Do mesmo modo, outros países candidatos ao CS enfrentam oposição regional – o Brasil, por exemplo, é nome malvisto pelo México e pela Argentina.

Em segundo lugar, o fato de Obama ter privilegiado a Índia em seu discurso sobre a reforma do CS da ONU deve ser entendido em seu devido contexto, a começar pelo fato de que o presidente americano estava em Nova Déli. Com seu movimento, Obama buscou um duplo objetivo: mandar um recado ao Paquistão, inimigo da Índia e aliado cada vez mais reticente dos EUA na guerra ao Taleban e à Al Qaeda; e mandar um recado à China, mostrando que, se Washington quiser, pode criar uma superpotência nuclear no meio da Ásia, para se contrapor a Pequim. Convém lembrar que, ainda no governo Bush, os americanos fizeram um histórico acordo de cooperação nuclear com os indianos.

Tudo somado, está claro que o Brasil e sua pretensão ao Conselho de Segurança não estavam na pauta de Obama neste momento. Por outro lado, a simples menção de Obama a uma ampla reforma do CS deve ser vista como positiva para o Brasil, porque indica vontade americana de levar adiante as mudanças na ONU que, em algum momento, podem favorecer os brasileiros.

De todo modo, é a primeira vez que Obama cita nominalmente um dos “emergentes” como seu candidato ao Conselho de Segurança da ONU. Aliás, Obama acrescentou que a Índia não é mais emergente; segundo ele, ela “já emergiu”.

O Cara” deve ter se roído.

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